Enquanto a chuva despenca insistente sobre o teto de zinco, Dinho não consegue pregar os olhos. O som da água é como uma metralhada no paredão. Acuado, encolhido num canto da cama, tem medo de fechar os olhos e ser de novo violentado com a imagem do barranco, da madeira destroçada, dos cacos de vidro, dos clarões, da correria, dos gritos. Os olhos permanecem fixos nos brinquedos no canto do quarto. Temendo perdê-los de novo, traz, silenciosamente, todos para a cama. Deita no meio de ursos, bonecos e carrinhos. Sente falta do choro da irmã e chora baixinho por ela. Entre os brinquedos novos, que alguém de longe mandou de presente em um caminhão, está a boneca retirada dos escombros e que ele insistiu em guardar.
No meio da metralhada cruel ainda ouve o som abafado do rádio e a discussão dos pais que ficam sempre muito brabos em dia de chuva.
Fecha os olhos espremendo-os bem para pedir, com todas as suas forças, que Deus pare com esse aguaceiro, mas não consegue mantê-los fechados até o fim da oração - e a água não pára.
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Esse mês faz um ano que o céu e os montes desabaram sobre Blumenau. Há quem já tenha esquecido. Há quem jamais irá esquecer.
Ainda hoje mais de 350 famílias* estão alojadas em galpões alugados pela prefeitura, acomodando-se como podem em módulos de 25 a 37m2, entre divisórias de madeira e banheiros coletivos. Além disso, um número considerável está ainda vivendo de favor em casas de amigos e parentes. E um terceiro grupo está vivendo em casas alugadas com o 'auxílio moradia' que deve ter sua última parcela entregue às familias cadastradas agora em dezembro. Daí pra frente ninguém sabe o que será.
*alguns locais falam em 2,5 mil pessoas nos abrigos. Mas é difícil conseguir os números oficiais. A prefeitura luta com todas as forças para manter escondida sua incompetência e deixou isso mais do que claro no cancelamento do desfile de encerramento da Oktoberfest, com a nefasta intenção de abafar um protesto.
Veja também:
O monstro
Em todos os cantos
Sexta-feira
Fim de expediente.
Sabe o que eu penso disso?
Clique no play e lave a alma.
Sabe o que eu penso disso?
Clique no play e lave a alma.
Roubado de email que me enviou meu mano Tato e deve estar circulando por aí.
Uma hora ou outra você vai receber também.
Uma hora ou outra você vai receber também.
Como o Gaya fazia um arranjo
Quem me contou essa história foi o Lydio Roberto.
Aconteceu pelos idos de 1983 quando Gaya, o “maestro da MPB”, já estava morando em Curitiba - onde terminaria seus dias às voltas com a parentada de sua esposa Stelinha Egg. O maestro trabalhava no estúdio SIR, acho que o principal centro de produção pulbicitária da região na época.
O Lydio era um jovem músico trabalhando no estúdio, e ganhou a oportunidade de compor um jingle. Já tinham outro na manga para o caso de o dele não ficar bom. Compôs um samba, mostrou para algumas pessoas do estúdio, que gostaram.
- Falta mostrar para o Gaya.
- O maestro?
- Sim.
Segue o Lydio para mostrar a música. Canta o samba e toca ao violão. Terminando a música, Gaya puxa assunto sobre futebol. Lydio atleticano, Gaya fluminense. O Fluminense tinha Washington e Assis, fabulosa dupla de ataque que também já tinha feito sucesso no Atlético, quando o time chegou pela primeira vez a uma semifinal de brasileirão.
Enquanto conversavam, Gaya fumava muito, e rabiscava uns papéis.
Lydio esperando quando o maestro iria para o piano, para experimentar a música. Ou quando iria, talvez, conferir a harmonia, para ver se era isso mesmo.
Que nada. Depois de meia hora de conversa sobre futebol, Gaya diz: “vamos trabalhar?”
Chamaram os músicos (trompete, trombone, sax, contrabaixo - o próprio Gaya fazia o piano). Aqueles papéis rabiscados no meio das conversas futebolísticas eram o arranjo pronto. Até a hora do almoço o jingle já estava gravado - para surpresa do jovem compositor.
Apagão
Postado por
Tuco Egg
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Não sei se alguém já percebeu isso mas A Trilha é uma confusão muito bem organizada. Tem post novo toda segunda e quinta, desde 2007, obviamente com algumas falhas, aqui e ali, por motivos honrados como falta de assunto, imaginação e criatividade ou mesmo por deliciosa preguiça. Mas a mania de postagem metódica prevalece - a carne é fraca.
Nas últimas semanas, no entanto, está difícil manter o ritmo. Especialmente por culpa do cabra da peste e sua insistência em me encher miseravelmente de trabalho, esse demônio do mal.
Pois bem. Suspeito que essa dificuldade permaneça por mais algum tempo durante o qual permanecerei em obsequioso silêncio. Retornarei, é claro, mas o dia e a hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho senão somente o Pai.
Por hora, me calar é a saída.
Nas últimas semanas, no entanto, está difícil manter o ritmo. Especialmente por culpa do cabra da peste e sua insistência em me encher miseravelmente de trabalho, esse demônio do mal.
Pois bem. Suspeito que essa dificuldade permaneça por mais algum tempo durante o qual permanecerei em obsequioso silêncio. Retornarei, é claro, mas o dia e a hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho senão somente o Pai.
Por hora, me calar é a saída.
Entre o alvo e a seta
"Um ano depois do início da crise financeira global, já tem gente comemorando a retomada do crescimento econômico, como se não estivesse justamente aí o germe da insustentabilidade do planeta."
Entre a arca de Noé e a torre de Babel - Geraldo Hasse - 1/10/2009
Entre a arca de Noé e a torre de Babel - Geraldo Hasse - 1/10/2009
E não é que eu, que pateticamente me considero bonzinho e preocupado com o planeta, estou feliz da vida com a retomada do crescimento que me garante o emprego e os canapés? Farsante miserável é o que sou. Quem me livrará do corpo dessa morte?
Para tentar desviar sua atenção da minha total falta de escrúpulos e recuperar a aura de boa gente preocupada com a humanidade, deixo cair discretamente em seu monitor a canção de Pedro Abrunhosa, sem que a mão esquerda saiba o que fez a direita.
"De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala, nem a falha no muro
E alguém me gritava, com voz de profeta
Que o caminho se faz entre o alvo e a seta"
Para Quintani, a voz do profeta.
Cabra da peste
Esses dias me disseram, a respeito de um projeto que estava desenvolvendo, que Deus levaria as pessoas certas a participar. Compreendo. O problema é que Deus não costuma levar em consideração o fato de que, se as pessoas certas, naquele caso, fossem poucas, eu teria que arcar com um pequeno rombo financeiro. Ele é meio desligado nessas miudezas monetárias. Afinal de contas é dono de todo ouro e prata. Não tem com que se preocupar. Nós é que precisamos desse demônio de papel para sobreviver.
Pensando nisso é que percebi o caminho sutil que está levando o tinhoso a assumir sua forma definitiva nesse mundinho cão.
Aquele espírito de luz, não muito tempo depois de nos aparecer como serpente, abandonou a pobrezinha rastejante e assumiu a forma de metal pesado. Ouro, prata, bronze. Era preciso centenas de escravos para carregar, em carruagens reforçadas, um bom pagamento para casa. Com o passar dos séculos, transformou-se em níquel, mais leve e sutil. Uma boa quantia poderia ser carregada em uma maleta. Lentamente, como o inseto de Kafka, foi afinando até a leveza e versatilidade do papel, e coube em bolsos e cuecas. E vem seguindo seu inacreditável processo de desmaterialização, na intenção maldosa de tomar de novo a forma original da virtualidade, do espírito. Estará, logo, logo, instalado definitivamente dentro de nós.
Não é a toa que o Filho do Homem aconselhou-nos ao desapego total. Não é a toa que chamou o dinheiro pelo seu verdadeiro nome. Mamom. Não é a toa que nos deu como modelo os passarinhos e lírios.
Mas essa insuportável passagem dos evangelhos, talvez uma das mais desprezadas no cristianismo contemporâneo, é quase sempre vista de uma perspectiva, na melhor das hipóteses, parcial. Na esmagadora maioria das vezes, aqueles que não fogem desse texto intragável costumam usá-lo como exemplo do inescapável cuidado de Deus - aquele cuidado que vai fazer a adesão àquele projeto ser certamente suficiente e o rombo no orçamento ser evitado.
Evidentemente não é isso que o texto diz.
O surpreendente com os lírios é que mesmo que muitos floresçam, enfeitem e perfumem o campo, uma enorme quantidade deles morre seca e esturricada na estiagem ou afogada na enchente. Isso quando alguma cabra maldita não pisoteia ou, pior, mata o lírio sufocado em seu esterco. E pássaros, além de serem devorados por uma porção de predadores, são absolutamente incapazes de enxergar a parede de vidro que lhes partirá o pescoço. Ainda assim, por mais absurdo que nos pareça, todos estão sob o cuidado de Deus, segundo o primogênito de Maria.
O negócio é tocar a vida e torcer para nenhuma cabra passar por perto e para que todas as janelas permaneçam abertas.
Pensando nisso é que percebi o caminho sutil que está levando o tinhoso a assumir sua forma definitiva nesse mundinho cão.
Aquele espírito de luz, não muito tempo depois de nos aparecer como serpente, abandonou a pobrezinha rastejante e assumiu a forma de metal pesado. Ouro, prata, bronze. Era preciso centenas de escravos para carregar, em carruagens reforçadas, um bom pagamento para casa. Com o passar dos séculos, transformou-se em níquel, mais leve e sutil. Uma boa quantia poderia ser carregada em uma maleta. Lentamente, como o inseto de Kafka, foi afinando até a leveza e versatilidade do papel, e coube em bolsos e cuecas. E vem seguindo seu inacreditável processo de desmaterialização, na intenção maldosa de tomar de novo a forma original da virtualidade, do espírito. Estará, logo, logo, instalado definitivamente dentro de nós.
Não é a toa que o Filho do Homem aconselhou-nos ao desapego total. Não é a toa que chamou o dinheiro pelo seu verdadeiro nome. Mamom. Não é a toa que nos deu como modelo os passarinhos e lírios.
Mas essa insuportável passagem dos evangelhos, talvez uma das mais desprezadas no cristianismo contemporâneo, é quase sempre vista de uma perspectiva, na melhor das hipóteses, parcial. Na esmagadora maioria das vezes, aqueles que não fogem desse texto intragável costumam usá-lo como exemplo do inescapável cuidado de Deus - aquele cuidado que vai fazer a adesão àquele projeto ser certamente suficiente e o rombo no orçamento ser evitado.
Evidentemente não é isso que o texto diz.
O surpreendente com os lírios é que mesmo que muitos floresçam, enfeitem e perfumem o campo, uma enorme quantidade deles morre seca e esturricada na estiagem ou afogada na enchente. Isso quando alguma cabra maldita não pisoteia ou, pior, mata o lírio sufocado em seu esterco. E pássaros, além de serem devorados por uma porção de predadores, são absolutamente incapazes de enxergar a parede de vidro que lhes partirá o pescoço. Ainda assim, por mais absurdo que nos pareça, todos estão sob o cuidado de Deus, segundo o primogênito de Maria.
O negócio é tocar a vida e torcer para nenhuma cabra passar por perto e para que todas as janelas permaneçam abertas.
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