29 de agosto de 2011

Espelho de nós

CÁNTICO Nº 54 DO HINÁRIO DA TRILHA
É gente nossa
Homem, mulher
Espelho de nós
Mistérios da fé


Espelho de nós

Milton Nascimento


Traz a farinha
Traz é o peixe
Traz é o pão
Que quer dividir

Quem vem de lá, o que nos traz?
Quem vem de lá, que gente é?
Quem vem de lá, vem é de paz?
Quem vem de lá sabe o que quer?

Traz a farinha
Traz é o peixe
Traz é o pão
Que quer dividir

É gente nossa
Homem, mulher
Espelho de nós
Mistérios da fé

Quem vem assim vestido de céu?
Quem vem assim filho de Deus?
Luz na manhã, cor no papel
Flor no jardim, fruta no mel

Traz na viagem
Sonho, esperança
pra alimentar
quem quer resistir

É gente amiga
Homem, mulher
Estrela, farol
na noite do mar

Sei que enquanto amar
a vida me valerá
gostar pra mim é o ar
que busco na atmosfera
É o princípio e é o fim
Eu quero tocar, eu quero saber
qual é a mais bela verdade que há

Quem vem de lá, que mares cruzou?
Quem vem de lá, que povo que é?
Quem vem de lá, o que nos traz?
Quem vem de lá sabe o que quer?

Traz a farinha
Traz é o peixe
Traz é o pão
que quer dividir

É gente nossa
Homem, mulher
espelho de nós
mistério e fé

Traz na viagem
Sonho, esperança
pra alimentar
quem quer resistir

É gente amiga
Homem, farol
estrela, farol
na noite do mar

♫ Conheça as outras músicas do Hinário da Trilha.

25 de agosto de 2011

Só pra esclarecer

Quando escrevi sobre a validação do óbvio, a fé de herodes, o tribunal de bar, ou as já muitas vezes citadas 'reticências', estava, na verdade, tentando dizer o que disse o Paulo Brabo sobre a fé que você não precisa ter.


“Até mesmo os cristãos compraram a ideia de que se uma afirmação não for factual não há nela nenhuma verdade, e nessa única transação não só negamos todo o mistério que prometemos, mas nos rebaixamos a discutir a verdade nos termos de nossos antagonistas, para os quais a realidade se esgota no que há de mensurável neste mundo. (…)

E enquanto céticos e crentes discutem circularmente sobre a factualidade dos milagres, deixamos de considerar o que consideraram gerações e gerações de cristãos: o que os milagres da narrativa bíblica tem a nos ensinar. Qual é o seu significado. O que representam. Quais são suas implicações na vida real, na minha vida e na sua. (…)

A fé que se requer de mim não é a de acreditar nessa história, mas a de vulnerabilizar-me diante dela.”



A fé que você não precisa ter
Garimpado na Bacia das Almas

23 de agosto de 2011

Escarpas da nova divisa

Hoje completam 7 anos desde que o sol deu as caras pela última vez. Ou quase isso. Sete anos de garoa embaralham o passar dos dias. Não duvido que tenha me atrapalhado na contagem. Sei que estávamos com um grupo pronto, preparado pra inicar a jornada rumo ao norte atrás dos raios amarelos e quentes que povoam nossos sonhos. Mas a chegada desse mensageiro e os relatos que me trouxe obrigam-me a adiar a partida.

O que agora relato à vocês, meus companheiros de musgo e garoa, é que a linha divisória desse fenômeno terrível que assola nossa terra é a nova serra que se formou e corta o país de leste a oeste, nascendo no antigo Vale do Paraíba, litoral norte paulista, até o município de Umuarama, no norte do Paraná. Do Rio Grande até ali, é só garoa, mofo e bolor. Dali pra frente, o sol só se esconde no fim da tarde, atrás do horizonte no extremo oeste, mas ressurge no leste sempre coroado de céu azul intenso.

A notícia que recebi atesta que levas de peregrinos têm chegado à região da divisa diariamente, desesperados pelo sol. A muralha gigantesca que separa os separa dos raios luminosos é como a foice da morte ceifando vidas à granel.

O sujeito que vocês me trouxeram ontem e que dizia ter algo a me entregar foi um dos poucos afortunados que conseguiu cruzar as escarpas ígremes da morte de um lado para outro. É um enviado do meu amigo Romildo, de Manaus, que têm ouvido falar da nossa angústia e, entre uma pirapitinga, um matrinxã e um tucunaré, à beira do Rio Negro, teve piedade de nós e enviou-nos esse mensageiro fiel e corajoso, que pela graça de Deus seguiu seu caminho firme até nos encontrar aqui, ilhados nesse vale hidrófilo, nessa esponja submersa, nesse paraíso do bolor.

Com seu relato nossas esperanças crescem. Agora sabemos o que nos espera e podemos nos preparar para o que enfrentaremos. Dou graças aos céus pelos anos de montanhismo e escalada que vivi na juventude, e por ter meus equipamentos guardados no sótão de casa. Já tirei-os  de lá esta manhã e começo agora a raspar o bolor que os envolve. Deixem os mantimentos prontos e vão em busca de toda corda que puderem encontrar, visto que as minhas estão bastante apodrecidas por essa umidade maldita. E vamor torcer para que não arrebentem nos momentos críticos.

Semana que vem partiremos e haveremos de transpor as escarpas da grande serra da nova divisa. E o sol estará do lado de lá para nos receber. E será amarelo, quente e seco. Mal posso esperar.

18 de agosto de 2011

Profissão de fé

Por  Frei Betto

Prefiro um ateu que ama o próximo a um devoto que o oprime. Não creio no deus dos torturadores e dos protocolos oficiais, no deus dos anúncios comerciais e dos fundamentalistas obcecados; no deus dos senhores de escravos e dos cardeais que louvam os donos do capital. Nesse sentido, também sou ateu.

Creio no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas a religiões existentes e por existir. Deus que precede todos os batismos, pré-existe aos sacramentos e desborda de todas as doutrinas religiosas. Livre dos teólogos, derrama-se graciosamente no coração de todos, crentes e ateus, bons e maus, dos que se julgam salvos e dos que se creem filhos da perdição, e dos que são indiferentes aos abismos misteriosos do pós-morte.

Creio no Deus que não tem religião, criador do Universo, doador da vida e da fé, presente em plenitude na natureza e nos seres humanos.

Creio no Deus da fé de Jesus, Deus que se aninha no ventre vazio da mendiga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo. Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas. Deus que extrapola a nossa fé, discorda de nossos juízos e ri de nossas pretensões; enfada-se com nossos sermões moralistas e diverte-se quando o nosso destempero profere blasfêmias.

Creio no Deus de Jesus. Seu nome é Amor; sua imagem, o próximo.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff,
de “Mística e Espiritualidade” (Vozes), entre outros livros.

17 de agosto de 2011

Maratona do Violino

divulgacao

Essa semana o livrinho “O Violino Mágico” participa da Maratona do Conto, promovida pelo SESC Blumenau. Pra promover a maratona e incentivar o contato das crianças com a literatura, o Jornal de Santa Catarina publicou a história e ainda fez uma versão ‘narrada’ do livro.




Hoje, 14h, vou contar a história no teatro da Fundação Cultural, como parte da programação da Maratona do Conto.

A matéria no Santa você pode conferir aqui.

A versão original do livro, continua onde sempre esteve.


Agradecimento especial ao gente boa Jamil Dias, pela força.

15 de agosto de 2011

Sussuro

Sussurrei
Cansado
  Extenuado
    Fatigado
      Arrasado
        Acabado

Murmurei
  Não aguento mais

Mas levantei
  E segui caminhando
    Pra tão longe
      Que nem sei

11 de agosto de 2011

Princípio básico

Parece necessário restabelecer o princípio básico de que ninguém pode ajudar alguém sem ficar envolvido, sem mergulhar com todo seu eu na dolorosa situação, sem correr o risco de ser prejudicado, ferido ou mesmo destruído no processo. [...] Quem pode salvar uma criança de uma casa em chamas sem correr o risco de se queimar? Quem pode acabar com o sofrimento sem nele penetrar?

A grande ilusão da liderança é acreditar que o homem possa ser conduzido para fora do deserto por alguém que nunca esteve lá.
Henry Nouwen,
no seu "Sofrimento que cura"

8 de agosto de 2011

Calvino e Armínio no boteco

- A soberania divina é inegociável, Mino. Deus sabe todas as coisas e têm todas sob controle. Não somos nós que aceitamos Deus e sim Ele que nos aceita. Somente os que Ele escolheu e predestinou alcançarão a salvação. É assim que é. Tá escrito. Expliquei tudinho nas Institutas, você não leu?

- Pelo amor de Deus, Cal, são 1528 páginas! Mas tudo bem, digamos que seja assim mesmo. Ainda assim não posso aceitar que Deus não nos tenha dado a livre capacidade de escolher e, se é livre, é não controlada. Então eu construo meu destino baseado em minhas escolhas. É o livre-arbítrio, meu irmão, operando sempre, à todo vapor.

- Mas se há livre-arbítrio não há soberania, Mino. São excludentes! É um ou outro.

- Será, Cal? E se abraçarmos os dois? Um Deus soberano, que tudo sabe, tudo controla e pra onde todas as coisas vão convergir no tempo certo; e homens livres que escolhem seu destino e definem o amanhã.

- Rapaz. Isso não faz o menor sentido, mas é bonito!

- Então pede outra cerveja Cal. E vamos cantar um hino!

4 de agosto de 2011

Reconsiderar a riqueza

Na maioria das questões que estiveram no centro dos debates públicos nestes últimos meses, da vaca louca ao Erika, do amianto aos acidentes de trânsito, das conseqüências da grande tempestade ocorrida em dezembro de 1999 à crise dos combustíveis do outono de 2000, há sempre um elemento comum que curiosamente esquecemos de lembrar: essas catástrofes são verdadeiras bênçãos para nosso produto interno bruto. Esta cifra mágica, cuja progressão se expressa por uma palavra, que resume por si só a grande ambição de nossas sociedades materialmente desenvolvidas e etnicamente subdesenvolvidas: o crescimento! (…)

Supondo que no próximo ano não tivéssemos nenhum acidente material ou corporal, nem mortos e feridos nas estradas francesas nosso PIB diminuiria de maneira significativa e a França perderia uma ou várias posições na classificação das potências econômicas e veríamos muitos economistas nos anunciando com um tom de voz grave que a crise estava de volta. (…)

Ao mesmo tempo, todas as atividades voluntárias que graças, em particular, às associações criadas de acordo com a lei de 1901, cujo centenário estamos prestes a festejar, permitiram evitar ou limitar uma parte dos efeitos dessas catástrofes, por exemplo, indo limpar as praias poluídas ou ajudando gratuitamente aos deficientes, não acarretaram nenhuma progressão de riqueza e até contribuíram para fazer baixar o produto interno bruto, já que essas associações desenvolvem atividades voluntárias e não atividades remuneradas. (…)

Devemos examinar esses nossos curiosos termômetros quanto mais as suas graduações, as unidades monetárias, vão mudando cotidianamente. De fato, se sabe que a primeira função da moeda é a de ser uma unidade: quando se quis superar o intercâmbio sob forma de troca para poder comercializar os bens mais facilmente, entendeu-se ser útil adotar uma unidade contábil única no seio de uma coletividade registrando-se todos os valores nessa unidade. (…) Mas, justamente, imagine-se a confusão que introduziria uma ‘bolsa dos quilos e dos metros’ mudando de valor todos os dias! (…)

É próprio dos sistemas de dominação apresentar como evidências o que depende de construções e de escolhas. Acaba-se apresentando como uma lei natural o fato de que são as empresas que produzem a riqueza, enquanto os serviços públicos e sociais subtraem-na; que atividades reconhecidamente destrutivas, dão direito a ganhar dinheiro, enquanto que outras, vitais para a coletividade humana - como dar a vida, educar, preservar o meio ambiente - não o permitem; que alguns possam dispor de quantidades consideráveis de moedas, sem que isso tenha relação com seu esforço ou mérito, enquanto outros se encontram, no meio da abundância, em situações de miséria ou de grande pobreza. (…)


Trecho do relatório produzido em 2001 por Patrick Viveret e resultou no livro Reconsiderar a Riqueza que, segundo Allysson Amorim, 'é aquela espécie de livro cuja leitura deveria ser obrigatória'.

2 de agosto de 2011

Só o que interessa

Esqueçam as 780 mil crianças da Somália à beira da morte. Uma nova crise econômica se avizinha, e é somente isso que interessa. O estopim da crise? Os EUA, maiores consumidores da Terra, estão com problemas financeiros e, portanto, estão comprando menos. Se compram menos, tudo de ruim pode acontecer e nosso mundinho besta fica apreensivo; o que será de nós?

Agora, alguém me explique, por favor. O discurso planetário não é pela diminuição do consumo, sustentabilidade e essas banalidades? Os EUA finalmente consumindo menos não seria motivo de retunbante alegria para o planeta?

Balela!

Temos é que comprar adesivos ecológicos e colar em nossos carros novos. Comprar camisetas de malha PET, e muitas, sem esquecer de trocar o modelito sempre que sair de moda. Vamos manter o discurso encerado nos adesivos, estampas e postagens de blogs. Mas façam-me o favor, não parem de consumir. Quanto mais, melhor.

1 de agosto de 2011

Estrelas na terra



Amarre os sapatos
Aperte os cintos
Prepare-se para a batalha
Carregue seu fardo
Com pasta em mãos
E decisão firme
Dominaremos o mundo

Assim funciona o mundo
Continue
Seu destino te espera

Eles dormem com um olho aberto
Ficar para trás não é uma opção
Trabalhe o máximo que puder
Do jeito que lhe dizem

Eles vivem de omeletes
Vitaminas e tônicos
Um regime estrito de trabalho e descanso
Esforçando-se, dando duro
Abra caminho

Mas aqui chegamos a outro assunto
O de acordar com as músicas de um sonho
Quando o tempo para e a fantasia se liberta
Eles sempre se perguntam
Porque o lema do mundo é "continue assim"?
Porque essa luta maluca para chegar a um destino?

Eles não são escravos do tempo
São livres
Tem reuniões com as borboletas
E debates com as árvores
Passam seu tempo brincando com o vento
E contando histórias às gotas de chuva
Enquanto pintam um novo mundo na tela do céu

Porque o lema do mundo é "continue assim"?
Porque essa luta maluca para chegar a um destino?

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Do belo filme indiano Taare Zameen Par - Every Child is Special
(Estrelas Na Terra - Toda criança é especial)