12 de fevereiro de 2009

O monstro

É estranho, mas foi assim.

Quando o céu caiu sobre nossas cabeças, nos sobreveio inesperada bonança. Um instante depois do caos, quando muitos ainda sofriam, quando ainda faltava água e comida e ainda havia muitos incomunicáveis e desaparecidos, paradoxalmente, o trânsito aquietou e sobreveio sobre motoristas antes ensandecidos, buzinadores, impacientes e deselegantes, a mais suave e cerimoniosa parcimônia. Os desmoronamentos haviam rompido dezenas de cabos e derrubado um bocado de postes, além de inúmeras pontes destruidas e ruas interrompidas. Metade da cidade estava sem luz e por cerca de 10 dias nenhum semáforo funcionou. Era de se esperar o caos, mas os motoristas deslocavam-se respeitosamente, reduzindo em cada cruzamento, embalando a não mais que 50 km/h nas vias rápidas. E o fluxo de veículos escoava como leito de rio em planície, calmo e constante, agradável e suficiente. Ninguém corria e ninguém se atrasava. Todos preocupavam-se uns com os outros e davam passagem, sorriam e acenavam. Carros novos com motores possantes e equipados com a mais alta e incompreensível tecnologia (que faria enlouquecer o melhor mecânico de dez anos atrás) comportavam-se como seus pesados e antiquados avós nas ruelas dos anos 50. Motoristas tensos, estressados, impacientes, grosseiros e/ou irresponsáveis transfiguraram-se em senhores de respeito, em gentis senhoras e em plácidos jovens polidos e honrados. E assim foi, por uma ou duas semanas.

Até que ouvi os primeiros rumores de que, na região norte, semáforos começavam a ser religados. Gradativamente, moradores das Itoupavas começaram a chegar atrasados e mal-humorados em seus compromissos. Cada dia em uma nova região semáforos voltavam a funcionar. As luzes, como estalar de dedos do hipnotizador, despertavam motoristas da sonolência respeitosa, fazendo pedestres atravessarem as ruas correndo entre veículos apressados.

Alguns dias depois amanheci ao som de buzinas. Na descida do morro, em direção à rua principal, já intuía o ocorrido. Seria inevitável. A luz voltou. É o fim da bonança. O monstro chegou ao sul, abocanhou a cidade toda. Antes afugentado pelo tremores dos morros, pelas avalanches e enxurradas, ressurgia, vindo do norte, com suas luzes vermelhas, amarelas e verdes despertando os mais profundos rancores humanos despejados todos no ar por escapamentos e palavrões. Trânsito é seu nome. Alimenta-se de pressa, embebeda-se em ugências e compromissos, e degusta sorridente o sangue recolhido do asfalto. Voltamos à correria.

Estranho, mas foi assim.

4 comentários:

  1. Puxa, isso dá o que pensar. É difícil distinguir quem ou o que realmente somos, em meio a tanto ruído psicológico e tecnológico...

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  2. putz,

    os semáforos não eram para disciplinar a coisa?

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  3. Certa vez houve uma pane de energia em plena Av Paulista, no fim da tarde. Caos? Nada disso! O trânsito fluiu tão bem quanto com os semáforos funcionando...

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  4. Bom, muito bom. Gosto do seu jeito de escrever.

    Quanto à reflexão, este habitante paulista de Florianópolis lembra do momento de admiração que teve pelo povo blumenauense no aftermath do ocorrido.

    E também lembra que é também um agente do trânsito caótico da capital, seja esta ou aquela, atrasado e apreensivo. Sabemos porque somos assim. Precisamos é lembrar de porque não ser.

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