19 de outubro de 2017

O [novo] moralismo de sempre



Anote na sua agenda: de hoje até outubro de 2018 uma avassaladora onda de moralismo vai inundar as notícias e timelines do nosso país. Notícias de horrores, imoralidades, erotização nas artes e na vida vão nos bombardear. Tome cuidado, meu bem intencionado e diligente amigo cristão. Na melhor de suas intenções você será cooptado para uma guerra que não é sua, fazendo você crer que é. Não se deixe enganar. Haverá exageros, distorções, mentiras descontextualizações e algumas verdades em tudo que se dirá. Não entre no jogo, mesmo no que diz respeito às verdades. É o pior que você pode fazer pra você, pra sua fé, pros seus filhos e pro nosso país.

Isso não é novidade. Aconteceu dois mil anos atrás. Está na bíblia, já explicadinho e combatido, tudo que estamos vivendo e viveremos ainda mais intensamente nos próximos 12 meses. É tudo política. Macro política. Briga de egos. Não importa se você quer votar na Marina, no Ciro, no Lula ou no Luciano Huck. Não é disso que se trata. Trata-se da manipulação de multidões por uma agenda moralista para o benefício de gente que não tem absolutamente nada de bom a oferecer em nenhuma outra área. Por isso fomentam essa gritaria. Sem ela não seriam ninguém. Não embarque nessa. Não patrocine esse desatino.

Por favor, não se enfureça antes da hora, nem me taxe, antes do tempo, de permissivo, imoral, complacente com a obscenidade e a devassidão ou herege. Acompanhe o raciocínio um pouco mais, antes de atirar alguma pedra.

Fazia quase 20 anos que Jesus tinha passado por esse planetinha, quando Paulo de Tarso ouviu falar que a galera da Galácia estava inundando o facebook de mensagens legalistas, querendo impor uns aos outros normas de conduta de toda espécie. Estavam tentando de tudo, inclusive falando mal de Paulo, espalhando a notícia de que ele era um frouxo, um licencioso dissoluto. E Paulo ficou muito, mas muito chateado. Não pelo que falavam dele, mas pelo que falavam... e ponto. Pelo que se tornara o assunto da moçada. A preocupação de todos. Ele ficou tão aborrecido que resolveu postar um textão e marcar os gálatas. E ficou registrado pra que nós, 2 mil anos depois, pudéssemos perceber que a humanidade anda em círculos. E pra nos dar a chance de pularmos fora dessa nefasta ciranda moralista. Até porque, na pior das hipóteses, pense bem, gritaria moralista é como apagar incêndio com querosene. É um horror. É contraproducente. Você atiça o que pretende combater. Isso num pensamento raso e imediato que já poderia ser suficiente, mas é claro que a raiz do problema é ainda maior e mais dramática.

O nome bíblico desses apregoadores dos preceitos de retidão moral era judaizantes. Eles queriam enfiar goela a baixo de todo mundo as leis de Moisés, que eram acima de tudo preceitos morais e éticos de um determinado povo. Não importa, pra fins de argumentação, se são bons ou ruins, mas sim que sejam de um determinado povo.

Se você é um cristão como eu, deve ter percebido que a gente costuma ler a carta de Paulo aos Gálatas nos vendo como a turma que não deve se deixar levar pelos judaizantes, mas o momento pede outra leitura. Precisamos ver a nós, cristãos sinceros, como os próprios judaizantes, pelo menos potencialmente. Você já se pegou fazendo isso? Tentando impor o seu valor moral e ético a outro que não compactua com sua fé? Ou pelo menos querendo fazer? Mas não, meu amigo de fé, irmão camarada, não podemos permitir que isso se substancialize em nós. Não sejamos nós judaizantes dos outros, querendo enfiar goela a baixo dos demais preceitos que são nossos e não deles. Aderir a uma agenda moral é assumir o posto daqueles caras com quem Paulo estava tão furioso que chegou a desejar que fossem castrados. Não era a castração dos obscenos que, hoje, querem alguns, mas a castração dos santinhos, dos bem comportados, dos moralistas moralizadores.

No fim do textão de Paulo, já no capítulo 5, o apóstolo começa a atar as pontas soltas depois do longo e nervoso desabafo da carta. Ele alerta a rapaziada pra não dar vazão às tempestades das emoções e desejos e não ficar feito cão e gato, num bate-boca horroroso, numa perseguição sem fim, "devorando uns aos outros", destruindo-se mutuamente. Ao contrário, diz Paulo, "sirvam uns aos outros em amor porque toda lei se resume num só mandamento: Ame o seu próximo como a si mesmo". Tem um padrão moral? Tem. É o amor. É claro que a aplicação desse padrão é complexa, e Paulo dá uma dica sobre ela nos versículos 19 a 21 da carta. Tranquilo, creia nisso, abrace isso, viva isso. Mas, ainda conforme Paulo, "cada um examine os próprios atos", cuide de si, olhe pros seus botões "sem se comparar com ninguém" e, consequentemente, sem fazer da acusação da libertinagem alheia seu grande objetivo de vida, pois "cada um deverá levar a própria carga". E, prossegue o cara que saiu do arraial cristão pra falar de amor e graça nos ‘museus’ do mundo, "não cansem de fazer o bem, porque é isso que importa", é essa nossa agenda, é essa nossa missão. Não fazer uma mobilização contra a [nova] imoralidade de sempre, mas "enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos".

Agora, se a carta aos Gálatas não basta pra lhe fazer desistir da cruzada moralista que estão armando pra jogar em cima de nós, lembre-se de Jesus. Lembre que o filho do carpinteiro viveu numa palestina romanizada. Saiba que o Queermuseu era um convento de freiras diante dos bacanais, das casas de banho, da submissão sexual dos meninos aprendizes aos seus mestres, das sacerdotisas de Afrodite. Lembre-se que Jesus passou mais de uma vez por Cesaréia de Filipe, o maior centro pagão do Israel antigo. Lembre-se que, depois de batizado, Jesus escolheu deliberadamente viver em Cafarnaum, a Galiléia dos gentios, o lugarzinho mais mal falado entre os judeus desde os tempos de Isaías. E lembre-se que, no meio dessa balbúrdia, Jesus não iniciou nenhuma campanha moralizante, apontando o dedo, horrorizado e escandalizado, para os pecadores promíscuos que se espalhavam por todo canto. Ao invés disso, Jesus ganhou fama de pecador por viver entre pecadores, derramando incondicionalmente amor, perdão e cura sobre quem quer que fosse, e só perdendo as estribeiras diante de religiosos, gente de conduta ilibada, pessoas de bem e seus discursos acusatórios.

Paulo sabia disso tudo melhor que ninguém. Era, afinal de contas, cidadão romano e fariseu. Mas um dia deu de cara com um clarão que o fez cego para que pudesse ver. E quando, no meio da escuridão, viu o que vinha fazendo e percebeu que era ele mesmo um impositor de moral escandalizado com a liberdade de outros, lhe caíram as escamas dos olhos de tal maneira que, no finalzinho da carta aos Gálatas, já meio impaciente com esse onda moralizante que enfeitiçou a moçada, e ciente de que Jesus não tinha nada a ver com isso, concluiu: “sem mais, que ninguém me perturbe, pois trago em meu corpo as marcas de Jesus”.





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PS: Abaixo, a fala de Paulo sobre o padrão moral muito bem reinterpretada por Eugene Peterson na sua Bíblia A Mensagem, com grifos meus (desnecessário lembrar que nada na bíblia é lista de acusação do outro, mas deve ser lido contra si e dentro do contexto mais amplo):

"todos conhecem o tipo de vida de uma pessoa que só quer fazer o que bem entende (sem nenhuma moral limitadora): sexo barato e frequente, mas sem nenhum amor; vida mental e emocional detonada; busca frenética por felicidade, sem satisfação; deuses que não passam de peças decorativas; religião de espetáculo; solidão paranoica; competição selvagem; consumismo insaciável; temperamento descontrolado; incapacidade de amar e ser amado; lares e vidas divididos; coração egoísta e insatisfação constante; costume de desprezar o próximo, vendo todos como rivais; vícios incontroláveis; tristes paródias da vida em comunidade."

Já a vida livre e leve de quem entendeu o amor e a graça incondicionais de Deus em Jesus, fazem brotar "afeição pelos outros, uma vida cheia de exuberância, serenidade, disposição de comemorar a vida, um senso de compaixão no íntimo e a convicção de que há algo de sagrado em toda criação e em cada pessoa. Nós nos entregamos de coração a compromissos que importam, sem precisar forçar a barra, e nos tornamos capazes de organizar e direcionar sabiamente nossas habilidades.

10 de julho de 2017

Meio-dia



Dia desses eu era um menino
Corria, brincava e virava herói
Um instante depois
Me casei numa manhã de sol
A contraluz
E a sombra do nosso beijo
Se projetava sobre um casal de velhos
De mãos dadas no banco da igreja
Nessa mesma manhã nasceram meus filhos
E meus avós fecharam os olhos
Se guardando no silêncio da espera
Numa mesma manhã
Uma festa, um abismo, uma ponte
Sob o mesmo gracioso e impassível raio de sol
Agora é meio-dia
As crianças cresceram
Nossa sombra se foi
Recolheu-se em nós
E o sol já se deita ao poente
Que será dessa tarde?

Tuco Egg - 2017

10 de abril de 2017

Os mais batutas - 2016

No espantoso ano em que multidões foram às ruas contra a corrupção da esquerda dominante mas conformaram-se como cordeirinhos à corrupção neoliberal. No horripilante ano em que armou-se um esquema para estancar a sangria, com Supremo, com tudo. No nauseante ano em que o esquema consubstanciou-se diante dos olhos de todos, sem nenhum rubor. Nesse triste e desanimador ano, ainda deu pra escrever alguma coisinha e publicar nesse espaço ocioso.

Abaixo, the best of 2016.

- Aldeia global

- Ruim de luta mas bom de briga

- O vertice

- Extermínio

- A polarização desancada

- Porque não fui às ruas (esse texto me causou dor de cabeça suficiente para publicar uma resposta, uma espécie de 'panos quentes', aqui)

- Rodrigo Hilbert leu "O Capital"

- Redimido pela beleza


E, apesar de tudo, estamos em 2017, o ano em que esse blog completa uma década.

5 de abril de 2017

No horror do ruído constante

A praça de alimentação de um shopping center já foi a mais perfeita alegoria da ruidosa realidade desse nosso tempo. Mas nós somos hábeis em aperfeiçoar a tragédia.

O assombro de uma praça de alimentação, evidentemente, jamais residiu no alarido barulhoso e constante daquele ambiente hostil. Como de costume, a verdade não se apresenta nas aparências mais vistosas. O assombro esconde-se na visão plantada na mente de Simond e Garfunkel, 50 anos atrás. Dez mil pessoas, talvez mais, reunidas, mas falando sem dizer, ouvindo sem escutar, escrevendo canções que vozes jamais compartilharam. E ninguém ousava perturbar o som do silêncio.

Pois a encarnação vertiginosa da canção encontrou espaço perfeito nos ambientes virtuais e seus dispositivos móveis. Como em um passe de mágica conseguimos, em um mesmo ambiente e instante, ampliar simultaneamente o ruído e o silêncio. A humanidade todinha reunida, falando sem dizer, ouvindo sem escutar.

Há uma gritaria desconcertante no planeta, e é no horror desse ruído constante que habita o mais canceroso silêncio.




The Sound of Silence: letra e tradução

16 de março de 2017

A causa da fome


É impossível, para quem assiste TV, livrar-se da onipresença dos programas de culinária. Tem para todas as idades e gostos, em todos os horários. Dos mais sofisticados aos mais pé-de-chinelo. Dos mais naturebas aos mais gordurosos. Dos mais fitness aos mais fatness. Comida é o tema. Isso enquanto uma criança morre de fome a cada 5 minutos, segundo a ONU. Há um problema estrutural no nosso mundinho com o qual temos convivido pacificamente, em detrimento da morte de milhões - não por violência, não por guerra, não por nada menos que fome, ausência de comida suficiente para manter-se em pé.

“A pobreza é só a moldura, a causa principal da fome é a riqueza – de poucos, a nossa”.

Em Kampala, Uganda, 2017. Foto Tato Egg.

Quando estávamos em Kyebando, um bairro pobre de Kampala, capital de Uganda, visitamos Appoline, uma refugiada congolesa. Perguntamos onde estavam seus filhos, se poderíamos conhecê-los. "Não dá", ela respondeu, "saíram cedo pra rua, procurar comida". Nos disse isso com toda naturalidade do mundo. As crianças não vêem pra casa comer, porque não há o que comer em casa. Saem à luta, um dia após o outro, na esperança de conseguir algo.

Enquanto isso, “vivemos na era da comida. A alimentação nunca ocupou um lugar tão importante na nossa vida; o business da comida nunca produziu tanto dinheiro; nunca houve tanta comida. Nunca houve tanto alimento não comido. Não digo somente pelo desperdício – enorme – das nossas sociedades, em que mais de um terço dos alimentos acaba no lixo; o digo sobretudo por essa nova característica da comida, transformada em espetáculo”.

"Foi em 1980, revela Caparrós, que o FMI e o Banco Mundial, com o Consenso de Washington (que estipulou dez regras para o ajustamento macroeconômico dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades), convenceram os governos africanos, por meio de ameaças com a dívida externa, de reduzir a ingerência estatal em vários setores, partindo da agricultura. Colheitas reduzidas? Carestia? Nada de subvenção. Foi a condenação à morte por fome de milhares de africanos, explica o escritor. Enquanto isso, nos Estados Unidos e na Europa os governos subvencionavam os seus agricultores em cerca de 300 bilhões de dólares ao ano. (...) São esses subsídios que permitem baixar o preço dos grandes produtores e levar à falência os pequenos."

Há um problema estrutural no nosso mundinho, com o qual não deveríamos conviver pacificamente.

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