29 de janeiro de 2016

Viver é uma viagem

Tive a honra de conhecer o Elio e seu valente veleiro Crapun no final do ano passado, e a grata satisfação de saber que o meu livro Meia Corda foi o pivô de nosso encontro. Depois, a alegria de ter, de alguma forma, feito parte do processo que culminou na publicação do seu livro, o contentamento de fazer a capa para ele e, por fim, o prazer de escrever um parágrafo para a quarta capa.

O livro é uma beleza e ninguém deveria jamais se privar do prazer de lê-lo.

A capa e o parágrafo que escrevi estão aí em baixo.

E se você correr, ainda pode fazer uma compra casada e levar O QUE SOBRA DE UMA VIAGEM e MEIA CORDA com 30% de desconto.

"Ler é uma forma de viajar. O que sobra da deliciosa viagem pelas histórias do Elio é a sensação de que soltaram-se as amarras, a convicção de que vida é um oceano que se oferece por inteiro e sem restrições, e a doce confiança de que o vento sempre haverá de soprar. Viajar é viver e viver é uma viagem. E isso o Elio sabe melhor do que ninguém."
Tuco Egg

26 de janeiro de 2016

Os mais batutas - 2015

O lado bom da falência dos blogs diante da avassaladora onipresença do feicebuque é que ficou mais fácil selecionar os escritos mais batutas do ano.

Cheguei a escrever dois textos por semana nos primeiros anos dA Trilha, o que resultava em assombrosas 90 publicações no ano, aproximadamente.

Em 2015, foram módicas 29 postagens. Limei 18. Aí em baixo está a lista das 11 mais bacanas do ano em que o mar de lama que assola e atola a política nacional acabou encarnando e derramando-se literal e impiedosamente no leito do Rio Doce.

O natal de Feliciano

- O síndico e o pândego

- Pelo dia e sua miudeza

- Acerolas do jardim

- O salto

- Por traz de cada cara lavada

- Vem comigo

- Chuck Norris e a bíblia

- Alameda vazia

- Ponta de faca

- O outro lado do rio

- Subsidios, rancor e inveja

18 de janeiro de 2016

Redimido pela beleza


"Ela tava tão bonita (...)

Que esqueci de me vingar"


É um mundo complicado o que nos serve de lar. Vivemos entre terrorismos declarados e velados, praticados em todos os níveis, em constante estado de guerra. Das nações aos casais, das religiões às políticas, dos vizinhos aos desconhecidos que se esbarram no trânsito, nas arquibancadas, na vaga do estacionamento. Das pancadarias às frases sutis. Dos olhares aos golpes de facão. Habitamos um mundo passional com os nervos a flor da pele. Mesmo na beira do roçado, onde a tristeza não vem, um cantador qualquer que apareça sorrateiro, pode levar o sossego à ebulição descontrolada.

É também um mundo cruel, que engole virtudes e as cospe como vitupérios. No caminho de casa existe uma placa onde se lê "salão de beleza". Não há quem discorde que beleza é uma virtude, mas a placa a que me refiro estampa um rosto feminino, de pele branca, olhos azuis, cabelo sedoso, lábios assustadoramente grossos e carnudos, sobrancelhas cuidadosamente desenhadas. E por algum motivo que não consigo compreender, aquela imagem ilustra o conceito de beleza que nomeia o salão. E por motivo ainda mais indecifrável, mulheres fazem fila e agendam horário e pagam caro para entrarem no salão acreditando que saem dali mais próximas da beleza do que entraram.

Quem ouve a música "Vingança", de Francisco Mattoso e José Maria de Abreu (interpretada no final dessa postagem pela minha tia famosa, por ocasião da entrevista que deu ao jornalista Aramis Millarch nos anos 90), deve conseguir com um pequeno esforço, se fechar os olhos, imaginar a figura da mulher que por pouco não desfaleceu nas mãos do homem que a amava e sentia-se por ela friamente traído. É a última estrofe da canção e a mulher que era alvo de ódio e rancor, surge como a imagem encarnada da redenção. A beleza arranca, sem aviso e sem piedade, em um único e certeiro solavanco, a mesquinhez de um homem amargurado, elevando-o à imagem e semelhança do criador que derrama perdão e graça generosamente, e sem poder evitar, ao mais infame dos traidores.

Em uma noite gelada, entre papelões e cachimbos feitos em latas vazias, debaixo de uma marquise da rua XV, Cléverson cobre Iracema com seu único cobertor, delicadamente, para não arcordá-la. E abraça os próprios joelhos, tremendo de frio, sem tirar os olhos de Iracema, que conheceu na rua e aninhou em seus braços. A mulher tem apenas quatro dentes e é mais magra do que parece ser possível. Cléverson também é magríssimo, mas tem o dobro do peso de Iracema. E o dobro dos dentes. Iracema percebe o cobertor e estende a mão sem abrir os olhos, puxando seu homem para perto de si, com um sorriso discreto, para aquecê-lo com seu corpo esquelético.

Em uma ensolarada tarde de sábado, num parquinho no centro da cidade, Lucia e Pedro embalam com cuidado no balanço o pequeno Igor, portador de síndrome desconhecida. Seus olhos são enormes e completamente desalinhados, assim como as orelhas. A cabeça é muito maior que o normal, e os pais precisam sustentá-la com cuidado enquanto balançam o menino, que abre o maior sorriso de sua vida quando sente o vento acariciar seu rosto. Os pais não controlam o riso e logo os três juntos gargalham como nunca haviam gargalhado, por longos minutos, e seguem rindo e gargalhando, de brinquedo em brinquedo, por toda tarde.

Mara é cega, mas sempre que senta no banco de madeira virado para o mar no fim da tarde, e ouve o canto das gaivotas e as risadas dos meninos correndo na areia, e o farfalhar das folhas da árvore que a sombreia, sabe que está diante de uma paisagem assombrosamente encantadora, e chora de alegria pelo privilégio de sentar ali e sentir na pele e nos ouvidos a imensidão da beleza do entardecer.

Cada um tem motivos de sobra para lambuzar-se no visgo amargo do rancor. Mas diante de cada um, diariamente, espetáculos gratuitos de beleza e graça se derramam generosamente. Felizes os puros de coração, porque verão a beleza em qualquer canto, e por ela serão redimidos. Um dia de cada vez.





VEJA TAMBÉM:
No olho de quem olha
Mônica Salmaso tentando interpretar Vingança tão bem quanto Stellinha

15 de dezembro de 2015

O Natal de Feliciano dos Santos

Já no tempo da carroça pequena - Foto: Blog do Jaime

No centro de Blumenau vivia um homem que um dia, ninguém soube porquê, não coube mais em cama alguma, quarto nenhum, nenhuma casa, nem a sua própria.

Feliciano dos Santos não cabia em hotel, pensão ou pousada. Muito menos em abrigo, asilo ou coisa que o valha. E por não caber em lugar nenhum dos que havia no mundo, precisou inventar um lugar no qual coubesse. Inventou uma carroça grande e enfeitada que construiu para si e era seu orgulho. E nela viveu por muitos anos, estacionado nas ruas do centro de Blumenau. Lá juntava as caixas de papelão de todos os lojistas da Beira Rio e da XV. Vendia quase tudo. Uma pequena parte separava para lhe servir de cama e cobertor.

Mas a cidade cresceu rápido e de tão grande que ficou a carroça não coube mais nas suas ruas. Era um estorvo a carroça enfeitada. Uma feiura. E lá foi Feliciano, da carroça para a sombra de uma marquise da Beira Rio, quase ao lado da Prefeitura. A carroça foi levada pelo poder público para longe e Feliciano fez para si uma menor. Viveu ali entre a carroça pequena e os papelões por mais tantos anos.

Mantendo a casa limpa - Foto: Blog do Jaime

Foi onde o conheci e onde com ele tomei alguns cafés adoçados com sua fala mansa. Mas um dia, Feliciano sumiu. Não está mais lá. E o comércio do centro não sabe para onde foi. Especulam algumas hipóteses, mas não encontrei quem de fato soubesse.

Talvez tenha voltado ao tamanho de um homem comum e cabido de novo em casa. Talvez esteja agora deitado no sofá da sala de estar de um dos filhos, tomando café, sussurrando doçuras no ouvido de uma neta. Talvez passe o Natal em família. Quem sabe.

Feliz Natal, Feliciano.
Esteja onde estiver.

16 de novembro de 2015

O síndico e o pândego

Em um remoto condomínio de uma cidadezinha em Minas Gerais haveria eleição para síndico. Eram quatro candidatos. Um dos moradores, Marco Sá do Valle, festeiro, chegado em um rega-bofe, contumaz promotor de pândegas entre amigos, interessou-se em participar de perto da disputa eletiva apoiando, de forma honesta e justa, sem nenhum partidarismo, cada um dos quatro candidatos. Sutilmente, por trás das cortinas, distribuiu entre todos valores suficientes para produção de cartazes e ímãs de geladeira.

Simultaneamente, enquanto a campanha se desenrolava, o diligente morador redigiu novas regras, mais flexíveis, para o uso do salão de festas do condomínio, já prevendo entregá-las a quem quer que vencesse o pleito, sugerindo humildemente sua aplicação como forma de agradecimento aos favores de campanha.

E houve eleição, e houve um vencedor. O generoso mecenas procurou o vitorioso assim que soube do resultado e cumprimentou-o discretamente com a mão direita, oferecendo na esquerda a sugestão de mudança no estatuto. O aperto de mão foi acompanhando de galante piscadela e a despedida contou com um gentil tapinha nas costas.

Mas antes mesmo que o novo estatuto fosse apresentado e aprovado em reunião de condomínio, o galhofeiro Marcos Sá agendou sua primeira festa. E foi uma daquelas. A moçada bebeu tanto, dançou tanto, cantou tanto, girou tanto que, num acidente provocado por algum corpo desgovernado no meio da balbúrdia, o salão de festas pegou fogo. A chama surgiu recatada na cortina, mas como o povaréu não estava lá com o discernimento muito aferido naquela altura do festerê, logo esparramou-se por todo salão sem o menor constrangimento. Quando enfim alguém se deu conta, a labareda já estava fora de controle e foi uma correria só.

O fogo foi tão intenso que abalou as estruturas do salão e botou a construção toda abaixo. O entulho desabou sobre a piscina, que rachou-se com a violência do tombo. A água infiltrou pela laje, que começou a gemer e trincar enquanto caliça e água gotejavam no estacionamento. Alguns moradores conseguiram tirar os carros antes da laje, enfim, desabar.

O prédio permaneceu em pé não se sabe como. Os moradores ficaram aterrorizados e revoltados, querendo saber onde estava o responsável por aquele caos. O síndico foi imediatamente acionado e surgiu no meio da gritaria acalmando a multidão: calma gente, calma. Vamos aplicar no responsável - falou sem citar nomes - uma multa de pelo menos uns mil reais.

Marco Sá do Valle ouvia a zoeira do seu quarto, onde arrumava a mudança. Havia alugado um apartamento no prédio ao lado e já reservara o salão de festas para a próxima folia.