21 de agosto de 2015

O menino que amava baleias

Link original: http://anekashu.deviantart.com/art/whale-eye-384262700


Um menino amava baleias
Leu todos os livros sobre baleias
E tudo soube sobre elas
Até entrar num barquinho
Navegar ao lado de uma
Olhar seus olhos de baleia
Sentir o borrifo de seu suspiro
E então descobrir deslumbrado
Que muito melhor que saber
É viver







6 de agosto de 2015

Abrigo de vagabundo

Para Adoniran, em memória.

A história de Menelau e Theodoro Cortêz parece com a de Narciso, do Adoniran, que hoje completaria 105 anos.

Diferente sorte teve o amigo de João Saracura. Ah, quem dera houvesse um fiscal da prefeitura como ele para cada um.

A história de Narciso



A amizade de João Saracura



A cara lavada de Theodoro Cortez e os olhos de Menelau estão no post anterior dessa maloca que chamam de blog.



"Minha maloca 
a mais linda deste mundo 
ofereco aos vagabungos 
que não tem onde dormir"

30 de julho de 2015

Por traz de cada cara lavada


Foi por acaso que Menelau descobriu que há um ângulo preciso, medido em grau, minuto, segundo e milésimos de segundo, pelo qual se pode ver a verdade escondida por traz da cara lavada de quem quer que seja. E a verdade é coisa tão intensa e vigorosa que mesmo vazando por uma falha mil vezes mais fina que um fio de cabelo, surgiu, naquele momento, tão violenta que lançou Menelau ao chão.

Theodoro Cortêz estava postado a seu lado, rijo, impassível, com o peito estufado e o olhar fixo na tapera de madeira onde Menelau viveu nos últimos cinco anos com a esposa e três filhos. À direita de Cortêz as máquinas prontas para o ataque. De dentro da casa se ouvia a gritaria das crianças e da mulher, enquanto capangas lançavam fora os poucos pertences da família. Menelau já havia dito a Jacira que não haveria como detê-los, que fizera tudo que pôde mas não tinha como brigar com gente daquele tamanho. Os móveis velhos, as roupas surradas, as panelas, os pratos, os brinquedinhos das crianças, tudo ia sendo ensacado e carregado para fora, com Jacira berrando e as crianças chorando. Menelau sentia mais dor pelo grito e pelo choro que pela casa, apesar de saber que não teria onde dormir naquela noite. Olhava a cena de cabeça baixa, humilhado, constrangido. Quando o último saco foi retirado do caminho, Menelau virou a cabeça discretamente, com os olhos cheios d'água, na direção de Theodoro. O homem mostrava agora um arrogante sorriso de vitória, e encarou Jacira e as crianças com um desprezo que beirava o nojo.

Altivo e presunçoso, Theodoro Cortêz lançou seu derradeiro olhar esnobe sobre Menelau. Foi quando os olhos dos dois se encontraram que ocorreu o inacreditável - Menelau foi atingido com toda força pela verdade pura que vazou instantaneamente dos olhos de seu algoz e, como fosse a rajada de um vigoroso tufão, lançou-lhe estirado ao solo. Theodoro, Jacira, as crianças e os brutamontes assustaram-se com a cena, mas só Menelau encontrara-se no lugar exato que lhe permitiu ver e absorver a verdade que vazou daquele olhar petulante. Caído no chão, esfregava os olhos e a cabeça, confuso, perplexo, assuntado, porque a verdade por trás daqueles olhos era espantosamente bela, pura, virtuosa, encantadora, sublime, nobre, inocente, amorosa, meiga e gentil. Era difícil associar aquela verdade profunda ao rosto sisudo daquele homem. De onde estava, ainda atordoado, Menelau procurou novamente os olhos de Theodoro, mas viu então somente a arrogância cruel que todos viam. Compreendendo em um estalo a epifania que se lhe revelara, sentiu uma dor aguda na alma e encheu-se de compaixão. Sem tirar os olhos compassivos e mareados da face dura de Theodoro Cortêz, Menelau ergueu-se lentamente e, chorando, abraçou-o com força e sussurrou em seu ouvido: "eu perdôo o senhor, seu Cortêz, porque você não sabe quem é. Espero que um dia descubra e seja livre." E, enquanto sussurrava, molhando com suas lágrimas os ombros duros de Theodoro, viu o homem, com um movimento suave da cabeça, assentir para as máquinas, que botaram a casa abaixo.

"Essa gente aí, como é que faz" 

14 de julho de 2015

Vem comigo

Como farei diferente?



VEM COMIGO
Tuco Egg

É comum para o cristão
Querer ser um com seu irmão
Mas o chamado anunciado
Pelo mestre desajuizado
É mais difícil, trabalhoso
Exigente e complicado

Porque unidade com irmão
É muito arroz com feijão
É como amor selado em beijo
Goiabada em pão de queijo
Abraço amigo, camarada
Em um velho benfazejo

Quero ver é desatar o nó
Do emaranhado que sem dó
Nos meteu Nosso Senhor
Que com olhar contagiante
Pra qualquer um meliante
Derramou perdão e graça
Sempre incondicionalmente
E eu que o sigo cambaleante
Como farei diferente?

Quero ter o olhar do mestre
Que diz que amor só tem valor
Quando amado é o inimigo
E se o inimigo amado for
Ora, faça-me o favor
Da minha parte faz-se amigo
Abro os braços, vem comigo
Eu, ele e qualquer um
Somos um com cada um

21 de maio de 2015

Pesadas correntes


Em abril de 2008 conheci Moacir através de um pedido de socorro. Fiz o que pude naquela época para atender-lhe e lamento que não tenha sido suficiente. Do meu encontro com ele surgiram dois pequenos textos aqui no blog que republico mais abaixo, compilados em um só. Na época em que publiquei o segundo texto, Moacir ainda estava desaparecido depois de abandonar, na calada da noite, a casa de recuperação onde o havia deixado. Uma semana depois da publicação, Moacir apareceu novamente no cafofo precário que o abrigava.

Planejei visitá-lo novamente para conversar, me aproximar, me oferecer como amigo, como irmão. Não tive tempo. Seu corpo foi encontrado entre a urina, o lixo e as baratas do seu esconderijo. Fui ao velório. Foi estranho ver-lhe limpo, bem cuidado, bem trajado. Olhando para o corpo rijo lembrei da última frase que havia escrito, e chorei.




O pequeno cômodo que abriga o corpo inerte luta para manter-se em pé. A única parte da modesta casa que por pouco ainda não ruiu, permanece mergulhada em sombra. Há meses o local foi privado de água e luz, servindo apenas como precário abrigo de ratos, baratas e bêbados. O jovem que jaz desfigurado sobre colchão surrado, regado a cachaça e urina, sabe bem a que se referiu Adoniran Barbosa:

A tristeza é um bichinho
Que pra roer 'tá sozinho
E como róe a bandida
Parece rato em queijo parmesão

Sobre o banco do carro novo o corpo desfigurado do jovem movimenta-se lento e descontrolado. O caminho para a casa de recuperação é longo. Já esteve em três ou quatro. Fugiu de todas. Na última fuga, vagou a pé e descalço, durante oito dias, até chegar novamente ao rude cômodo que ele chamava de "minha casa".

A caminho da esperança, chora, xinga, grita, dorme e não consegue controlar a urina. Na casa, é recebido por anjos que viveram outrora no inferno, mas foram resgatados pelo amor e serviço de semelhantes.

É o início das dores que podem trazê-lo de volta à vida.

Mas ainda que às portas da liberdade, permanecia atado a pesadas correntes. Preso às docas, acorrentado ao cais, exalando cheiro de peixe e excremento de aves, o jovem mal conseguia abrir os olhos. A claridade do sol refletindo sobre o oceano verde azulado perfurava-lhe os olhos como lâminas afiadas. Sentia náuseas ao ouvir os sons da liberdade e sentir a imensidão do horizonte. Os anjos que o receberam transfiguravam-se diante de sua mente confusa. Eram inimigos. Gente nefasta dedicada tão somente a livrar-lhe daquilo que lhe era mais sagrado - tristeza, solidão e miséria.

Passou seis dias agarrado ao cais, com as costas voltadas para o mar, pragejando contra o sol, a água, o vento e os anjos, alimentando-se de guano, clamando pelo dia em que poderia voltar ao sepulcro fétido que lhe abrigou nos últimos anos.

No sexto dia, libertou-se. Diluiu-se e escoou pelo bueiro. Abandonou o cais sem ter experimentado o mar. Deixou os anjos, desaparecendo da vista de todos. Esvaiu pelos esgotos jubiloso, vitorioso, a caminho da morte.