10 de maio de 2016

A polarização desancada

Era um (entre tantos) período tenso da história de povo judeu. Havia um império opressor, uma classe político-religiosa vendida, um grupo de civis corrompidos prestando serviço ao império, algumas células de revoltosos armando sua revolução - tendo já algumas tentativas de levante popular sido sufocadas na base da porrada e com muito sangue derramado - e um povo sofrido e anestesiado aguardando seu messias político. E, evidentemente, um clima nervoso entre os de um grupo e outro.

Foi no meio dessa turbulência que, caminhando pela poeira da Galiléia, o jovem rabi de Nazaré deu de cara com Simão, o zelote - um revoltoso, um militante, um formador de quadrilha, um black bloc, um arruaceiro daqueles - e calhou ao intrigante mestre chamar o desordeiro para participar do seu pequeno grupo de discípulos. Ele topou, na hora. "Esse cabra tem couro grosso! Vam'bora arrebentar com tudo", deve ter pensado o meliante. E juntou-se ao pequeno grupo de pescadores que já seguia o mestre.

Alguns dias depois, talvez por ter visto o brilho nos olhos de Simão, o marceneiro nazareno decidiu pregar uma peça no zelote. Assim como quem não quer nada, quando voltavam das compras na feira de Cafarnaum, o rabi cutucou Simão e, com um sorriso maroto e uma piscadela, saiu caminhando na direção do pequeno escritório onde funcionava a espúria coletoria de impostos da cidade. Parou na porta, olhou de novo para Simão com aquele mesmo sorriso, e entrou. O zelote estava eufórico, cheio de expectativa: "ele vai dar um wazari no coletor, aquele corrupto calhorda, aquele vendido deplorável! Um hadouken direto no peito daquele pária! Já era!". Um minuto depois Jesus saiu lá de dentro abraçado ao salafrário Mateus, que sorria com os olhos marejados enquanto o Rabi lhe beijava a testa e ria.

Simão observava, pasmo, assustado e confuso, que o mestre vinha na sua direção de braço dado com o cobrador de impostos até chegar bem perto de seu ouvido e sussurrar matreiro: "taí seu novo companheiro, amigo zelote. Um homem a serviço de Roma. Hoje a noite vamos jantar na casa dele. E vai ser um banquete daqueles! ".


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O texto bíblico não esclarece como foi o encontro desses dois antagonistas, forçadamente feito irmãos de uma hora pra outra, mas o sorriso matreiro de Jesus me parece evidente nas entrelinhas.

7 de abril de 2016

A arte do encontro e o tempo


A vida é a arte do encontro, já dizia o poetinha. Mas encontro demanda tempo, ou é apenas mais um esbarrão. E, meu Deus do céu, quem é que tem tempo hoje em dia? Suspeito, entristecido, que somente o esbarrão nos restou na correria dos centros urbanos. Encontro é peça de museu.

Nos esbarrões nos permitimos uma brevíssima parada, mas jamais sem abrir mão da angústia (que é nosso vício) pelo próximo compromisso. Mas 'próximo' é como 'amanhã' ou 'futuro': não chega nunca.

Poucos segundos e duas ou três frases clichês depois de um esbarrão casual em uma esquina qualquer, o amigo fica para trás e seguimos à procura do vento, em busca de um lugar no futuro ou de um sono tranquilo, conforme profetizado pelo Paulinho da Viola.

Se a vida é a arte do encontro, a morte é feita de esbarrões.

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> Veja também o que aprendi sobre o tempo em uma aldeia Kaiowá.
> Originalmente publicado no site da Revista Ultimato.

20 de março de 2016

Eu fui!

"Ora, vá plantar batatas", desabafou o amigo no fim de uma discussão sobre política, seis meses atrás, quando discordávamos veementemente. Eu fui. Hoje foi o dia da colheita. Amanhã almoçaremos juntos, de braços dados, para celebrar a amizade que é sempre maior que as divergências.

A magnífica colheita de batata doce no quintal de casa.


Para meus amigos, com respeito e carinho.

17 de março de 2016

Porque não fui às ruas

- Você não foi na manifestação?

Respondo que não e fica um silêncio esquisito no ar. Me olham com um olhar de estranhamento. Quebram o silêncio com uma justificativa.

- Mas você sabe que a mobilização é contra a corrupção. Não tem nada de partido político. É contra a corrupção toda, a cafajestada toda. Sabe disso, né?

Não respondo nada. Mudo de assunto porque esse me cansa demais. Não digo o que sei, porque me aborrece dizer o óbvio. Porque o que sei não é segredo para ninguém. O que sei foi dito e repetido nas ruas e é impossível ser mais claro.



"Durante a manifestação na Av. Paulista, pessoas reivindicando outras causas (que não 'impeachment' e 'fora PT') foram convidadas pela PM a se retirar" [ aos 4 minutos e 23 segundos ]

O samba é sim de uma nota só. A multidão que bate panelas inox da Tramontina elegeu seu boi de piranha, e faz muito tempo. Ninguém quer mudança. Ninguém quer justiça. Ninguém se importa com reforma política, com os horrores de Belomonte, com o trabalho escravo, com o assassinato de índios, ambientalistas e quilombolas, com o número de pessoas sem teto, sem terra, sem voz. Ninguém vai às ruas por isso. Imagine, como sugeriu Rondinelly  entrar na Paulista gritando Fora, Dilma!, Extinção da PM!, Pare o Genocídio dos Negros!, Homofobia é Crime!. A multidão quer um linchamento, quer ver sangue para sentir-se vingada. A multidão que grita Fora PT pode hostilizar o Aécio e o Alkmin, mas ninguém pode gritar por outra causa, porque desvia o foco. Se gritar apanha. Se gritar, a PM pede pra sair. As ruas tem um grito só. Um só Judas para aplacar a fúria dos revoltosos. Quem fica no lugar? Não interessa. Interessa quem vamos tirar.

"Jamais estaria ao lado dos que promoveram as manifestações de 13 de março. Conheço esses protagonistas de outras décadas. O figurino de novidade não cobre o mofo de quem sempre esteve no mesmo lugar. O que representam nunca saiu do poder no Brasil. E, quando escutados com atenção, é possível ouvir o som de fundo: tudo o que querem é manter seus privilégios intactos. Não será com a minha fé."

Para entender certinho, de cabo a rabo, sem tirar nem por, porque não fui às ruas, será preciso ler o textão da Eliane Brum no El País. Aos interessados, está ali a tese completa. Clique aqui e vá com calma, até o final.



"Se na sua discussão política a preocupação pelos pobres não está presente, não importa seus argumentos, não compartilho sua posição."  Jung Mo Sung

15 de março de 2016

Rodrigo Hilbert leu "O Capital"



Rodrigo Hilbert deve ter lido Marx recentemente. O pensador alemão que é odiado por quem nunca o leu, esclareceu há quase um século e meio a mazela que é filha bastarda, mas querida e inseparável, do capitalismo: a alienação.

Marx explicou que o estabelecimento da indústria e do comércio como o ar que mantém viva a sociedade capitalista, deu origem à alienação total na qual estamos todos imersos até o pescoço. No tempo de Marx, alienada era a classe operária, refém inconsciente da manipulação da burguesia. É que o capitalismo ainda não havia engolido a humanidade toda. Hoje o almofadinha que é chamado de burguês é mais alienado que qualquer operário. É um alienado com iphone que bebe Cointreau e oprime o proletário de sempre, mas seu nível de alienação está atingindo o ponto máximo. O burguês classe média, vagando entre carros, casas, escritórios e shopping centers climatizados é mais alienado que o homem do campo e que o operário que sabem o sabor do suor de seu rosto. A burguesia alienadora, por sua vez, está se reduzindo ao número mínimo de senhores do mundo, os donos das corporações gigantescas que definem o que vamos plantar e exterminar, comer e vestir, comprar e jogar no lixo; ou quem vamos eleger e depôr, ouvir e calar, abraçar e matar.

Rodrigo Hilbert deve ter percebido isso enquanto preparava  um espetinho de cuscuz de tapioca com queijo coalho sem tirar o olho das pernas longuíssimas da Fernanda Lima, que temperava a salada. "Meu público deve achar que o queijo coalho brota do chão embalado à vácuo", pensou o loiro bonitão depois de ler O Capital"Vou desmascarar esse negócio todo. Chega de alienação. Vou libertar a burguesia dos tais senhores do mundo. Vou entregar à eles a verdade e eles haverão de iniciar a revolução". E enquanto tirava o cuzcuz do fogo berrou, "liberdade!", quase matando Fernanda Lima do coração.

E lá foi ele, corajosamente, mostrar ao mundo burguês que, para comer um cordeiro, é preciso matar o bichinho antes. E que quando se mata um bichinho, o sangue escorre quente. E foi aquela gritaria toda. Um horror. A dondoca que come cordeiro assado toda sexta, harmonizado com Nipozzano Riserva Chianti Rufina, indignou-se apavorada: "o bichinho já não nasce morto e embalado?". O empresário solteirão que gosta de harmonizar o churrasco de ovelha com cerveja Belgian Dark Strong Ale não quis assistir o programa nem ler a notícia. E nos trending topics da semana estava a frase "Rodrigo, eu não queria saber!".

O bonitão gente boa pecou pela inocência e teve que desculpar-se oficialmente para fugir do apedrejamento. E não é sempre assim? Na multidão dos iludidos, quem abre a boca para dizer a verdade apanha.