19 de agosto de 2016

1998 - O ano em que iMacs voaram



Era 1998 e o Steve Jobs lançava a grande inovação da época: a primeira versão do estiloso iMac. A euforia era semelhante à causada hoje pelos iPhones, apesar de enormemente mais restrita, já que a Apple, naqueles dias, tinha um mercado muitíssimo reduzido. Mas o mundinho besta da publicidade já era afetado pela Apple Mania, e entre as agências de propaganda o frisson era perceptível à distância.

Então chegou na agência um convite da Adobe, em parceria com a Apple, para um Workshop sobre a ferramenta de sincronização de cores que eles estavam lançando, e iria revolucionar o mercado pela capacidade única de eliminar as eternas dores de cabeça dos Diretores de Arte na hora de calibrar seus trabalhos para os vários tipos de saída (impressão offset, tela, plotters, etc).

O convite trazia consigo o irrefutável apelo de oferecer o sorteio de um iMac no fim do Workshop, para os que estivessem presentes. Eu não queria ir, mas fui convencido pelo apelo. Eu não queria nem um iMac, porque já era um rabugento defensor dos PCs e nutria, com ainda nutro, um muito bem fundamentado nojo do status intimamente ligada à marca da maçã. Mas o bicho era caro e seria uma venda fácil. Convite aceito.

O negócio aconteceria na sala de conferências do Grande Hotel Rayon, na Visconde de Nacar. Não sei em que condições o tal hotel se apresenta hoje mas, no final do século passado, era lugar novo, cheiroso e chique. O hall de entrada enfileirava, e colocava à disposição de todos, cinco iMacs e suas cores maravilhosas. E fazia-se fila para tocá-los. Mas o convite era para um Workshop, e lá estávamos nós, nos acomodando nas cadeiras estofadas do sofisticado estabelecimento. Acontece que logo que o representante da Adobe começou a falar já ficou evidente para todos que o assunto era técnico até o nível do absurdo. Parecia uma palestra de física quântica, cheia de espectros de cores e suas profundidades, números pra todo lado, gamas, gráficos, esquemas e equações. E a platéia, importante frisar, era quase toda composta por Diretores de Arte de agências de propaganda. E, caso você não saiba, esses caras são letrados no nível básico. O máximo que já leram são as duas primeiras frases do Lorem Ipsum, e até hoje não perceberam que o texto não está em português, porque tudo que lêem parece mesmo com lorem ipsum dolor sit amet. Números, meu Deus, se tiverem mais de dois dígitos são imediatamente interpretados como rabiscos incompreensíveis. Em 15 minutos, aqueles que permaneciam acordados começaram a debandar. E eu ia contabilizando as saídas e pensando nas chances cada vez maiores de ganhar o iMac.


Houve um belo momento de refrigério, para consolo de todos, com os deliciosos canapés do cofee break, mas durou pouco. Os 150 que chegaram no saguão do hotel às 20h, já estavam reduzidos a cerca de 50. Voltamos à tortura lancinante do parlatório e pelo menos mais 20 saíram antes do final. Eu havia ligado o modo proteção de tela e resisti com bravura hercúlea até o último round.

E veio, enfim, o grande momento. Éramos pouco mais de 30 surrados sobreviventes aguardando o sorteio com o rabinho abanando. O palestrante puxou um nome, mas era um dos desertores. Veio um segundo, terceiro e lá pela quarta ou quinta tentativa saiu o Fulano de Tal, e alguém berrou no meio da galera:

"Eh! Peraí, peraí. É meu amigo, ele foi no banheiro. Vou chamar", e saiu correndo porta afora, sob os protestos dos ficantes.

"Não vale!" "Não pode!" "Tinha que estar presente!" "Dançou!" "Pega outro!" "Próximo!".

E o clamor do povo apelava para a letra inflexível das regras. Dura lex, sed lex. O palestrante puxou o nome de Cicrano e, já de primeira, encontrou o felizardo presente no recinto. O homem pulava que nem criança sentindo-se redimido dos horrores da horas anteriores, quando no meio da euforia, Fulano de Tal surge ofegante e sorridente, ainda abotoando o botão da calça. E acontece que Fulano era um lutador, um brasileiro desses que não desiste nunca. E começou a clamar por justiça, apelando para a impossibilidade de negar os apelos do ventre que o arrancaram do recinto justamente no momento decisivo. Mas clamavam sozinhos ele e o amigo, contra todos os demais. Percebendo-se sem a menor chance de reverter a situação, Fulando de Tal lançou aos ares, a plenos pulmões, toda uma riquíssima qualidade de impropérios enquanto deixava os presentes observando em silêncio a desgraça alheia.

Pois foi quando a situação parecia resolvida que ouviu-se os ruídos de plásticos e vidros e metais como que se espatifando no chão e, entre os ruídos, a voz de Fulano disparando mais uma rajada de obscenidades, mostrando que, apesar de Diretor de Arte, o sujeito tinha um vocabulário generosamente amplo. Evidentemente a galera toda correu para o hall de entrada do anfiteatro ainda a tempo de ver o voo do último iMac antes deste juntar-se aos cacos dos demais espalhados pelo chão de mármore do Grand Hotel Rayon. Pessoal da Apple achou bastante deselegante a atitude do Fulano e, além de berrar daqui outra sorte de palavras torpes, saiu correndo atrás do camarada, pedindo auxílio dos seguranças do Hotel, no que foram prontamente atendidos. E a galera ficou ali na entrada do Grande Hotel, vendo Fulano correndo no meio da Visconde de Nacar sendo perseguido pela Apple e por seguranças brutamontes, imaginando que a angústia daquele workshop horroroso foi, enfim, no frigir dos ovos, amplamente recompensada.

Nos meses que se passaram, em qualquer lugar de Curitiba onde houvesse mais de dois publicitários, o assunto era o mesmo. Fulano de tal não foi mais visto em lugar algum. Surgiram inúmeras versões de desfecho para história e, até onde sei, ninguém nunca soube qual delas aproximava-se mais da verdade.

10 de agosto de 2016

Aldeia Global

Aldeia Taqwaperi - Janeiro de 2009

A globalização encurtou distâncias e misturou línguas e povos formando o que alguns chamam de "aldeia global". Invariavelmente essa expressão sugere um mundo de multiplicidade, de coexistência, de não fronteiras, de confraternização mundial.

O violento efeito colateral pouco percebido e divulgado é que essa mesma globalização matou e segue matando um sem número de modos de vida, de regionalismos, de povos, de arraiais... de aldeias!

Ao mesmo tempo que o mundo racional e progressista clama por menos preconceito e mais aceitação da diversidade, a globalização passa como rolo compressor por cima de modos de vida que não se encaixam na lógica do consumo. A aldeia vai se tornando global a partir do extermínio das aldeias locais. O modus operandi da globalização não é de aceitação da diversidade, mas de assimilação. É permitido manter a fantasia peculiar de comunidade exótica, desde que o comportamento submeta-se à pasteurização. A diversidade só é tolerada se for consumidora voraz como todos devem ser, e fora dessa exigência universal não há língua, povo ou cultura que subsista.


"Dizem agora que vivemos na Aldeia Global,
mas o que se globalizou de fato foi um mundo sem aldeias."
Mia Couto


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Veja também:

27 de julho de 2016

Ruim de luta mas bom de briga

- Sô ruim de luta, mas bom de briga - disse o velho enquanto batia o pó da roupa e secava o suor da testa. E por conta do meu silêncio e do meu olhar de espanto, continuou: - É que luta exige toda uma pensassão prévia, todo um treinamento, toda uma estratégia, toda uma aporrinhação que não me guento de passar. E nem tempo tenho pra isso tudo. Tenho boca pra encher, e preciso um dia todo correndo pra dar conta. Então deixo a luta com os meninos aí. Agora, espera esquentar a água pra ver quem vem rebentar com tudo. Quem segura os óme. Quem para os trator, ranca os tratorista pra fora. Quem para na frente da escavadeira. Quem se deita no chão. Isso é brigacêra mesmo. Tem que ter cabelo branco. A cara marcada. Porque cada marca nessa cara aqui é um fiapo a menos de paciência e uma tora a mais de coragem.

- Mas, no fim, derrubaram as casas todas mesmo - argumentei estampando o desânimo nos olhos.

- Essas aí, filho, essas aí. Mas vai ter outras. Os óme não param de derrubar. De ir jogando a gente pros cantos. Não tenho mais casa agora, mas amanhã vou ter, e depois de amanhã aparece alguém com essas entregação de posse. Entregação mesmo porque os óme quer que a gente entregue tudo. Deixam a gente no pelo. Mas pode vim. Paro na frente de novo. Até lá vou ter mais umas tantas marcas na cara. Umas tantas toras. Haja trator pra derrubar.

- E não cansa, isso?

- Cansa pra burro. Mas é assim. Viver cansa. Pra isso que serve as varanda e as rede. E a cuia de mate. E se não tem varanda tem os pé-de-sombra. Lugar pra amarrar uma rede não falta - e apontou pra trouxa onde tinha embolado o pouco que conseguiu tirar da casa antes dela ir abaixo. Foi quando reparei que era uma rede que embrulhava tudo. E o velho agarrou a trouxa com a mão firme, jogou nas costas, por cima do ombro, e saiu caminhando, sem parar de falar: - Agora é correr atrás da comida e de um lugar pra amarrar a rede. Lugar não falta. Eles que venham...

26 de julho de 2016

O vértice

Um vento gelado e cortante sobe bufando a galope do fundo do vale.
Nós estamos enfileirados na crista oeste do monte,
subindo a passos lentos mas constantes.
Pisamos cautelosamente a fina lâmina que divide dois desfiladeiros.
Passo a passo nos equilibramos nesse vértice com os olhos fixos no cume,
de onde será possível vislumbrar um horizonte amplo, repleto de esperança.
Mas o fundo do vale há anos vem enchendo os pulmões, preparando a viração,
e as primeiras golfadas de ar gélido já assobiam na orelha de quem se equilibra na crista.
Já se ouve a farfalha dos galhos.
Haverá quem aguente as rufadas mais fortes que se avizinham?
Quem olha pra trás vê o mato curvar-se à força.
O tênue fiapo de esperança que permanece intacto
é que o vento mude de direção antes de botar tudo a perder,
antes de levar-nos todos de volta à base do monte,
de onde inevitavelmente começaremos tudo de novo,
como temos feito nos últimos 500 anos.

18 de julho de 2016

Extermínio

Em longa reportagem especial, jornalistas revelaram as histórias de alguns dos 481 focos ativos de tensão e violência no interior do Brasil. Segundo a reportagem, "pelo menos 1.309 pessoas foram assassinadas em conflitos rurais no Brasil, desde 1996".

A matéria mostra "um universo composto por tortura, incineração de corpos, chuvas de veneno, suicídios de índios, violência contra mulheres, ônibus escolares na mira de fuzis, esquema de venda de licenças, pistolagem paga por planos de manejo e tabelas de execuções".

Já ouvi dizerem que as disputas fundiárias mostram que o interior do país está em guerra, mas não é possível concordar com tal leitura dos fatos. Uma guerra pressupõe uma disputa entre dois lados onde, mesmo com alguma diferença substancial de poder de fogo, ambos sonham com a possibilidade de vencer. Os conflitos fundiários do Brasil demonstram não uma guerra, mas um genocídio onde "97% das mortes são de camponeses e indígenas".




Sem exagero. Está acontecendo agora, 
debaixo do seu nariz, por pistoleiros, o extermínio de
uma nação nativa 
a mando de fazendeiros




Isso, evidentemente, não é novidade nenhuma. As populações indígenas, por exemplo, vem sendo sistematicamente exterminadas em ondas de ataques que mancham de sangue nativo nossa história. A estatística não colabora para revelar as atrocidades, porque no mundo do campo as mortes oficialmente registradas são apenas uma amostra do horror real. Nas 434 vítimas oficialmente identificadas (mortos e desaparecidos) do Regime Militar, por exemplo, não está contabilizado o genocídio indígena patrocinado pelo Estado no período. Estimativa bem subestimada aponta pra 8.350 índios mortos. Se quiser ficar bem chocado leia o relatório completo da Comissão Nacional da Verdade no capítulo Violações de Direitos Humanos dos Povos Indígenas. Mas o genocídio não encerrou-se com o fim da ditadura. Ele segue como um fantasma assombrando camponeses e índios no interior do país.

O que não é difícil constatar, é que o Estado se coloca oficialmente contra os índios, como explicou direitinho Artionka Capiberibe, e também contra os camponeses à espera do pedaço de terra prometido na Constituição de 88 e até hoje, sistematicamente, friamente e cruelmente negado.

As 3 amigas.

A reportagem especial sobre os conflitos fundiários é toda ela chocante, toda ela assustadora, mas para mim, pessoalmente, nada causa mais comoção do que o visível e revoltante extermínio de Guaranis Kaiowás. É isso mesmo. Sem exagero. Está acontecendo agora, debaixo do seu nariz, o extermínio de uma nação nativa por pistoleiros a mando de fazendeiros.

Já contei aqui que estive entre os kaiowás, com minhas esposa e filhos. Convivi, brinquei, ouvi e contei histórias, ri e chorei com eles. Os acampamentos onde kaiowás estão agora mesmo sendo encurraladas e mortos são vizinhos da aldeia Taqwaperi, que visitei. Em cada matéria que sai sobre as ações dos fazendeiros contra esses acampamentos, leio os nomes e vejo as imagens das vítimas assustado, na expectativa de reconhecer alguém. Algumas das crianças que brincaram com meus filhos e que aparecem nas fotos que enfeitam a parede do quarto da minha filha, porque ela gosta de tê-las na memória, porque ela tem boas lembranças de suas amigas kaiowás, podem ser as próximas vítimas. Temo que sejam e temo que, se forem, eu nem mesmo fique sabendo, porque morte de índio (ou de camponês sem terra) é, no máximo, notícia de rodapé. Temo, enfim, que ninguém saiba. Temo ainda mais, que ninguém se importe. Por enquanto, tristemente, tem sido assim.


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Leia também:
Crônica Kaiowá
Terra Bruta - A reportagem completa
O Estado contra os índios