1 de março de 2015

O outro lado do rio

O 'Morro da Companhia', banhado a ouro, da janela de casa.

 O salmista gritava aflito seu horror pela injustiça do mundo que o cercava. Três mil e quinhentos anos depois, enquanto admiro o incrível poente amarelo que surge arrebatador de uma tempestade de verão, silenciosamente grito o mesmo. A beleza do crepúsculo dourado contrapõe-se violentamente à crueza desse mundo injusto.

Um largo rio divide a humanidade em duas e, por acaso, encontro-me na margem onde manam leite e mel. Meu olhar atravessa a inclemente corrente de águas e me deixa assustado e confuso. A margem oposta é árida, angulosa, obtusa, rude mas, ainda assim, misteriosamente bela, com um tipo de beleza crua que não se encontra do lado de cá. No conforto da minha margem, sinto-me agora tomado de angústia, querendo, como o jovem Ernesto Guevara um dia antes de deixar o leprosário de San Pablo, "passar meu aniversário do outro lado do rio".

19 de fevereiro de 2015

Caminho do mar

Mais uma tarde sombria e cinzenta
Densas trevas, caminho do mar
Tempestade, açoite, tormenta
O ruído da noite não deixa sonhar

Pesada cortina cobre o luar
A mais de mil gerações
Lancinante angústia na sombra da morte
Nas praias distantes, tristonhas do norte
Sobre os ombros das multidões
Com a alma sofrida vazia a vagar
E o corpo atado à grilhões

Mas eis que uma centelha de luz
Decide habitar o breu
Deixando, sozinha, sua casa, seu lar
Desce confiante o caminho do mar
Pra buscar todo aquele que é seu
Levando consigo no ombro uma cruz
Sabe bem onde se meteu

E segue o caminho estreito do amor
Pela porta pequena e discreta
A tocar e curar toda dor
Pra cumprir o que disse o profeta

Zebulom é o morro
Naftali a mansão
E o coração de cada um
É Cafarnaum


[tuco egg]

Se já é assombroso que o judeu que ficou conhecido como Messias por meio mundo tenha abandonado a Eternidade para viver entre nós, quanto mais que tenha ainda, como se já não bastasse, abandonado o conforto e segurança do seu lar para voluntariamente habitar, viver, morar no lugar que era conhecido, já há muito tempo, como 'terra da sombra e da morte'. Cafarnaum, a Galiléia dos gentios, era o lugar mais 'perdido' de Israel, no sentido religioso e em muitos outros, do ponto de vista de qualquer judeu. Jesus sabia disso muito bem e mudou-se para lá. "Basta ao discípulo ser como o mestre", foi o que disse, comprometendo-nos a todos, o carpinteiro de Nazaré. Ai de mim.

"Terra de Zebulom e terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios; o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz". João 4.15,16

2 de fevereiro de 2015

Subsídios, Rancor e Inveja



Quando a classe média e os ricos resmungam por todos os cantos da vida mansa dos pobres sustentados pelos planos sociais do governo (os subsídios que fazem com que alguns de fato afastem-se do emprego formal e desfrutem dos benefícios que recebem), é por rancor e inveja que o fazem. Sentem-se traídos por essa gente rasteira que já não se submete mais à posição de serviçais que lhes cabe.

A falta de mão de obra barata até pode ser, em alguns casos, fruto das muitas 'bolsas' oferecidas pelo governo federal mas, muito evidentemente, não porque essa mão de obra seja preguiçosa, como gritam alguns dos meus amigos. O motivo óbvio e justo fundamenta-se exatamente no fato de ela ser barata. Dar a alguém o direito e a condição de não submeter-se à ser mão de obra barata não é populismo ou fisiologismo. Aceitar e desfrutar desse direito não é vagabundagem.

O cidadão de classe média trabalha feito condenado e, em troca, recebe uns tostões suficientes para sobreviver e consumir um mínimo razoável de tecnologia e entretenimento. O cidadão que se enquadra no conceito de mão de obra barata, trabalha como um condenado e recebe uns tostões insuficientes para alimentar-se direito. Ou trabalhava. Agora lhe é oferecida a condição para não submeter-se à essa pecha, até que se lhe ofereça um valor adequado para sua mão de obra.

16 de janeiro de 2015

Maestro

O Pobreza Futebol Clube teve por certo tempo um meio-capo ilustre no seu plantel. O homem era um tricolor carioca bom de bola, mas já não tinha assim tanta força pra correr e chutar. O corpo esguio e cansado movia-se pouco pelo meio do campo, mas tocava a bola com precisão. Era maestro no gramado. Acima de tudo, porém, Lindolpho Gomes Gaya foi maestro das notas e partituras. Maestro da MPB, foi como ficou conhecido o Gaya ao produzir e arranjar músicas de Caymmi, Chico Buarque, Taiguara, Sylvia Telles, Nelson Mota e muitos outros, antes de mudar-se para Curitiba e ganhar uma vaga no timão que arrasava os adversários nas manhãs de sábado.

Sua biografia é extensa e riquíssima. Mas suspeito que são poucos os que já tiveram acesso às partituras abaixo.

De Gaya e Paulo Vítola, em primeira mão para toda humanidade, nos manuscritos originais do maestro, a inédita marchinha "Camisa do Meu Coração", hino do formidável Pobreza Futebol Clube. Arranjo para dois violões e bateria.

PS: Se alguém, algum dia, gravar isso mesmo que de forma precária e imprecisa, e me enviar um audiozinho modesto, ganhará em troca minha eterna gratidão.







Mais sobre Gaya:
Aqui, aqui e aqui (especialmente a partir da página 39).

11 de dezembro de 2014

Nunca soube




Lampião

Um foco de luz surgiu no céu.

Estrela obstinada, não contentou-se em simplesmente brilhar.
Abandonou seu ninho e riscou o espaço.

Foi taxada de rebelde, criticada e mal vista pelos seus.

Mas não podia parar.

Sentia ter sido chamada para mover-se. E foi.
Vagou por muitos dias até estancar, de repente, sentindo-se vazia e tola.

Estremeceu, duvidando de sua motivação.
Quis nunca ter deixado sua casa, mas não teve coragem de voltar.

Derramou uma lágrima antes de sumir e jamais ser vista.

Nunca soube dos magos e sua peregrinação,
nem do bebê que sorveu sua lágrima, bebeu sua luz.

Conta-se que o menino cresceu luminoso como lampião
e que clareia ainda hoje, feito estrela discreta,
os passos daqueles que andam junto dele.

E a estrela nunca soube.


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Publicado originalmente no distante Natal de 2009,
agora com uma ilustraçãozinha de brinde.