Na solidão da ilha de Patmos, o velho João viu a terra ficando plana. Literalistas como Tim LaHaye acreditam do fundo do coração que isso acontecerá como descrito, com a mão de Deus, no fim dos tempos, aplainando o maravilhoso relevo do nosso planetinha. E o cara ganha um bom dinheiro escrevendo livros sobre isso. Eu, como um velho montanhês apaixonado por escarpas rochosas, espero sinceramente que isso jamais aconteça, apesar da amostra prévia que tivemos aqui em Blumenau em novembro de 2008.
É preciso lembrar, no entanto, que nos tempos de João a principal consequência nefasta de um relevo acidentado era o isolamento dos povos. Locais e pessoas tornavam-se inacessíveis, senão a duríssimas penas, por conta das ondulações vertiginosas da superfície do planeta. Para visitar a tia doente, um homem deveria cruzar vales e montanhas, desafiar colinas e desfiladeiros, em dias e dias de caminhada fatigante e perigosa. Evidentemente, de um outro ponto de vista, esse mesmo problema poderia tornar-se uma proteção contra ataques de exércitos pouco amistosos. Mas essa questão não vem ao caso agora. Quero me concentrar no problema da comunicação, da acessibilidade.
Há poucos dias uma austríaca que vive na China fez contato comigo. Ela escreveu um livro em inglês, que foi ilustrado por um filipino e será traduzido para o chinês. Procurava então alguém para fazer o projeto gráfico do livro e achou que este brasileiro aqui do sul cairia bem. Para facilitar meu trabalho, uma amiga de Manaus traduziu o original para o português.
Pense bem meu amigo. Em duas parcas semanas, Áustria, Estados Unidas, China, Filipinas e os dois extremos do continental Brasil se envolveram de alguma forma em um mesmo projeto, quase como quem senta numa mesa para conversar. A terra é plana! E o melhor de tudo, não foi preciso destruir as serras e cordilheiras.
Rufo [2]
2. UM LANCHE
Rufo acompanhava curioso e apreeensivo a multidão esbaforida atrás dos passos rápidos e seguros do mestre. Ouvia todo tipo de afirmações e perguntas entre aquela gente repleta de dúvidas e convicções.
- É um profeta!
- Cura todos que se aproximam dele.
- Está cercado por um bando de perdedores.
O homem parou no pé de uma colina, à beira do grande lago, e fez sinal para que todos se sentassem. Seus seguidores, que pareciam tão perdidos quanto toda multidão, passaram a gritar e sinalizar para que todos parassem para descansar.
- Já não era sem tempo – gritou alguém ao lado de Rufo – o homem não cansa!
Quando estavam todos relativamente calmos, alguns ainda recobrando o fôlego, outros já inquietos, ansiosos pelo que ele iria fazer, o mestre levantou-se e subiu a colina em direção a uma laje de pedra que se destacava projetando-se poucos metros acima do solo. Subiu na laje, agachou-se, acocorado sobre os calcanhares, e fitou a multidão por longos minutos, passeando os olhos de um lado a outro do grande grupo que o seguira. A esta altura, todos já olhavam para ele, cochichando, perguntando, apontando, esperando sua reação.
Seu rosto estava contrito e os olhos pareciam encher-se de lágrimas. Conversou com alguns dos seus companheiros sem tirar o olho da multidão. Um deles caminhou na direção de Rufo.
- Menino, vi o cesto que você carrega, e vi que nele estão alguns pães e peixes. Jesus está com fome, assim como todos aqui. Entregue seu cesto ao mestre pra que ele veja o que temos pra toda essa gente.
Enquanto o homem falava - vim a saber bem depois que se tratava de André, irmão de Pedro - Rufo percebeu que Jesus olhava para ele fixamente. O olhar era profundo e marcante. Parecia transbordar compaixão dos seus olhos. Era impossível recusar entregar-lhe algo. O mestre devia ter fome. Pareceu mais sensato ao menino ficar sem comer e alimentar um homem muito mais importante que ele. Os segundos de exitação logo pareceram loucura para o rapaz.
- É claro. Entregue a ele. - e enquanto André levava sua comida, o profeta de Nazaré, de longe, lhe sorriu largamente.
Quando o alimento começou a ser distribuído, Rufo mal podia conter-se dentro de si. Queria explodir, queria gritar - meus pães e meus peixes! Vejam o que ele fez! - Suas mãos tremiam quando o mesmo André, com um sorriso abobalhado, lhe trouxe um cesto cheio:
- Sirva-se menino. Sirva-se à vontade. Veja no que seu lanchinho se transformou nas mãos de Jesus. Agradeça a sua mãe.
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Antes desse:
Rufo [1] - Brisa e Tempestade
Rufo acompanhava curioso e apreeensivo a multidão esbaforida atrás dos passos rápidos e seguros do mestre. Ouvia todo tipo de afirmações e perguntas entre aquela gente repleta de dúvidas e convicções.
- É um profeta!
- Cura todos que se aproximam dele.
- Está cercado por um bando de perdedores.
O homem parou no pé de uma colina, à beira do grande lago, e fez sinal para que todos se sentassem. Seus seguidores, que pareciam tão perdidos quanto toda multidão, passaram a gritar e sinalizar para que todos parassem para descansar.
- Já não era sem tempo – gritou alguém ao lado de Rufo – o homem não cansa!
Quando estavam todos relativamente calmos, alguns ainda recobrando o fôlego, outros já inquietos, ansiosos pelo que ele iria fazer, o mestre levantou-se e subiu a colina em direção a uma laje de pedra que se destacava projetando-se poucos metros acima do solo. Subiu na laje, agachou-se, acocorado sobre os calcanhares, e fitou a multidão por longos minutos, passeando os olhos de um lado a outro do grande grupo que o seguira. A esta altura, todos já olhavam para ele, cochichando, perguntando, apontando, esperando sua reação.
Seu rosto estava contrito e os olhos pareciam encher-se de lágrimas. Conversou com alguns dos seus companheiros sem tirar o olho da multidão. Um deles caminhou na direção de Rufo.
- Menino, vi o cesto que você carrega, e vi que nele estão alguns pães e peixes. Jesus está com fome, assim como todos aqui. Entregue seu cesto ao mestre pra que ele veja o que temos pra toda essa gente.
Enquanto o homem falava - vim a saber bem depois que se tratava de André, irmão de Pedro - Rufo percebeu que Jesus olhava para ele fixamente. O olhar era profundo e marcante. Parecia transbordar compaixão dos seus olhos. Era impossível recusar entregar-lhe algo. O mestre devia ter fome. Pareceu mais sensato ao menino ficar sem comer e alimentar um homem muito mais importante que ele. Os segundos de exitação logo pareceram loucura para o rapaz.
- É claro. Entregue a ele. - e enquanto André levava sua comida, o profeta de Nazaré, de longe, lhe sorriu largamente.
Quando o alimento começou a ser distribuído, Rufo mal podia conter-se dentro de si. Queria explodir, queria gritar - meus pães e meus peixes! Vejam o que ele fez! - Suas mãos tremiam quando o mesmo André, com um sorriso abobalhado, lhe trouxe um cesto cheio:
- Sirva-se menino. Sirva-se à vontade. Veja no que seu lanchinho se transformou nas mãos de Jesus. Agradeça a sua mãe.
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Antes desse:
Rufo [1] - Brisa e Tempestade
O Monstro
Postado por
Tato
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Depois de meses de hesitação, um dia criou coragem. Num misto de excitação e medo, olhou a face do monstro pela primeira vez.
Achava que satisfeita a curiosidade, se afastaria e tudo ficaria como sempre foi.
Ao tocar no ser misterioso, porém, foi tragado para seu interior. Mastigado, dominado, estuprado, provou o êxtase e a loucura.
Trêmulo pela fantástica e assustadora experiência, voltou para sua vida, disposto a não mais repeti-la.
O que ele ainda não sabia era que o monstro silenciosamente se instalara dentro dele. Algumas vezes adormecia, fazendo-o festejar sua libertação. E então, quando tudo parecia calmo, ele acordava. E acordava com fúria. Apossava-se de sua mente e seus membros, o levando a agir de maneira completamente insensata e absurda.
No início, os períodos de dormência eram longos, e os de insanidade curtos. Com o passar do tempo, a situação foi se invertendo. Agora ele e o monstro eram um e parecia impossível separá-los novamente. Sentia a fome da criatura. Forte, doída, desesperadora, insaciável. Existia para alimentá-la e nada mais parecia ter importância.
Meses se passaram. E então, anos. Na loucura e confusão de sua mente sem identidade, fizera coisas terríveis, inimagináveis em outros tempos. Tudo o que queria era voltar atrás. Voltar naquele dia e ignorar sua curiosidade inicial, tarefa que agora parecia tão simples. Matar o monstro era impossível, todos diziam. Mas alguns haviam conseguido dominá-lo. Seria uma luta feroz que certamente cobraria seu preço. Sem saber se teria forças para levá-la até o fim, reuniu o que tinha, gritou por socorro na esperança de que alguém viesse em sua ajuda e se lançou na direção da besta.
Dia após dia a luta prosseguiu. Parecia impossível sair vivo dela, mas aquilo a que fora reduzido não tinha muito de vida também. Quando já estava exausto e vendo o próprio sangue escorrer por inúmeros ferimentos, teve a impressão de ver a criatura ceder um passo. Foi então que percebeu que havia outros com ele. Ouviu os gritos de incentivo, compreendeu que a luta era sua, mas que muitos o apoiavam. Procurou não pensar na dor e endureceu o ataque em meio a dentes cerrados, gritos de dor e desespero, lágrimas no rosto. E lentamente, a criatura cedeu. Pela recusa dele em alimentá-la, ela enfraquecera. A dor da fome era terrível e ele a sentia como se fosse sua, mas estava funcionando.
A criatura, porém, tem a assustadora capacidade de se manter viva mesmo sem alimento. Ela enfraquece mas por mais que pareça definhar, acabada e quase morta, uma única pequena porção de alimento pode fazê-la levantar-se mais forte do que era antes, como ele logo percebeu para seu desespero e vergonha.
Agora ele não mais comemora vitória. Aprendeu a duras penas que mesmo que tudo pareça calmo e resolvido, a luta não termina. Seguirá dia após dia, ao longo dos meses e anos.
Não lutar porém, não é uma opção. Não há caminho fácil. A besta se levantará outras vezes, com fúria. Tudo o que ele pode fazer é prometer-lhe que em todas as vezes, encontrará um adversário pronto para a batalha.
Mesmo que ele próprio não esteja certo disso.
Achava que satisfeita a curiosidade, se afastaria e tudo ficaria como sempre foi.
Ao tocar no ser misterioso, porém, foi tragado para seu interior. Mastigado, dominado, estuprado, provou o êxtase e a loucura.
Trêmulo pela fantástica e assustadora experiência, voltou para sua vida, disposto a não mais repeti-la.
O que ele ainda não sabia era que o monstro silenciosamente se instalara dentro dele. Algumas vezes adormecia, fazendo-o festejar sua libertação. E então, quando tudo parecia calmo, ele acordava. E acordava com fúria. Apossava-se de sua mente e seus membros, o levando a agir de maneira completamente insensata e absurda.
No início, os períodos de dormência eram longos, e os de insanidade curtos. Com o passar do tempo, a situação foi se invertendo. Agora ele e o monstro eram um e parecia impossível separá-los novamente. Sentia a fome da criatura. Forte, doída, desesperadora, insaciável. Existia para alimentá-la e nada mais parecia ter importância.
Meses se passaram. E então, anos. Na loucura e confusão de sua mente sem identidade, fizera coisas terríveis, inimagináveis em outros tempos. Tudo o que queria era voltar atrás. Voltar naquele dia e ignorar sua curiosidade inicial, tarefa que agora parecia tão simples. Matar o monstro era impossível, todos diziam. Mas alguns haviam conseguido dominá-lo. Seria uma luta feroz que certamente cobraria seu preço. Sem saber se teria forças para levá-la até o fim, reuniu o que tinha, gritou por socorro na esperança de que alguém viesse em sua ajuda e se lançou na direção da besta.
Dia após dia a luta prosseguiu. Parecia impossível sair vivo dela, mas aquilo a que fora reduzido não tinha muito de vida também. Quando já estava exausto e vendo o próprio sangue escorrer por inúmeros ferimentos, teve a impressão de ver a criatura ceder um passo. Foi então que percebeu que havia outros com ele. Ouviu os gritos de incentivo, compreendeu que a luta era sua, mas que muitos o apoiavam. Procurou não pensar na dor e endureceu o ataque em meio a dentes cerrados, gritos de dor e desespero, lágrimas no rosto. E lentamente, a criatura cedeu. Pela recusa dele em alimentá-la, ela enfraquecera. A dor da fome era terrível e ele a sentia como se fosse sua, mas estava funcionando.
A criatura, porém, tem a assustadora capacidade de se manter viva mesmo sem alimento. Ela enfraquece mas por mais que pareça definhar, acabada e quase morta, uma única pequena porção de alimento pode fazê-la levantar-se mais forte do que era antes, como ele logo percebeu para seu desespero e vergonha.
Agora ele não mais comemora vitória. Aprendeu a duras penas que mesmo que tudo pareça calmo e resolvido, a luta não termina. Seguirá dia após dia, ao longo dos meses e anos.
Não lutar porém, não é uma opção. Não há caminho fácil. A besta se levantará outras vezes, com fúria. Tudo o que ele pode fazer é prometer-lhe que em todas as vezes, encontrará um adversário pronto para a batalha.
Mesmo que ele próprio não esteja certo disso.
Rufo [1]
1. BRISA E TEMPESTADE
Vou tentar contar mais ou menos como as coisas aconteceram. Muitos anos já passaram, mas essa história é daquelas que nunca se apagam.
Rufo não conseguia entender o que estava acontecendo. A cena toda lhe era completamente estranha. Um contraste absurdo com o que lhe tinha marcado profundamente a alma 3 anos antes. Jamais teria sonhado que a mudança da família para Betel, ao lado da grande cidade de Jerusalém, possibilitaria presenciar, junto com seu pai, visão tão degradante e dolorosa. Ainda tinha viva na memória a imagem da mais deliciosa e fantástica refeição de sua vida, em uma colina às margens do grande lago de Tiberíades.
-----
- Rufo. Volte já aqui.
- Eu tenho que correr mamãe, senão perco o Rabi de vista.
Era difícil explicar o tipo de magnetismo que o arrastou àquele homem. Rumores de todos os cantos referiam-se a ele como profeta, mágico, louco, curandeiro, revolucionário, enganador. Mas, quando soube que ele estava por ali, quando viu seus vizinhos saindo à procura do homem, não exitou. Sua mãe estava desconfiada, mas sabia que não teria como segurar o menino. Por precaução, preparou-lhe um lanche.
- Vá com cuidado filho. E volte logo.
-----
A situação em Jerusalém era completamente diferente. Desde o pequinique mágico à beira do lago, muita coisa se falou sobre o desafiador e indomável rabi. Rufo acompanhava cada notícia, cada história contada nos fins de tarde, com intensa e ansiosa antenção. Há poucos dias soube que um homem de Betel, que ele já havia visto algumas vezes, fora retirado da sepultura pelo rabi misterioso. Um bom homem que, junto com suas irmãs, havia ajudado a família de Rufo quando precisaram mudar-se para perto da cidade santa.
No dia sombrio e confuso em que voltou a ver o profeta, subira à Jerusalém com seu pai para negociar o fruto da pequena lavoura quando uma multidão descontrolada os engoliu. Enquanto tentava entender o que se passava no meio do tumulto, Rufo ouviu assustado o grito de um soldado romano que olhava fixo na sua direção.
- Você! Venha ajudar o homem a carregar a tora!
O soldado apontava convicto para seu pai, que não teve outra alternativa senão cumprir a ordem. Viu, assustado e confuso, seu pai arrancar das costas de um pobre infeliz um grande e pesado tronco de madeira e colocá-lo sobre os ombros.
- Filho! - gritou Simão, pai de Rufo - Venha junto, não me perca de vista. Logo voltaremos pra casa.
Só quando seu pai deu os primeiros passos é que pode perceber, apavorado, quem estava no chão, quase irreconhecível. Rufo observava atento e aflito o sofrimento do pai carregando a tora acompanhado pelo mesmo rabi que, três anos atrás, inundara-lhe o coração de fé na redenção de seu povo. A multidão gritava, como que obcecada por alguma espécie estranha de vingança. Os anos de opressão, o peso do cetro de César, a humilhação do jugo e a esperança, mais uma vez, escorrendo fluídas pelos dedos, levavam o povo à loucura. Viam o condenado como traidor e explodiam de ódio desmensurado contra o pobre homem.
O que teria havido? Que sentido fazia aquela cena? Não era o rabi Jesus um milagreiro? Não era amado pelo povo? Não era um profeta como há séculos não se via em Israel? A refeição à beira do lago misturava-se confusa com o sangue e o pó na face do profeta. Acompanhando o pai no meio do empurra-empurra da multidão, Rufo ouvia num canto da mente as palavras de Jesus ecoando nas colinas da Galiléia e, quanto mais ouvia, mais sentia-se de novo naquele lugar. Apesar de toda confusão que o cercava, podia sentir a brisa soprando do mar.
[...]
Vou tentar contar mais ou menos como as coisas aconteceram. Muitos anos já passaram, mas essa história é daquelas que nunca se apagam.
Rufo não conseguia entender o que estava acontecendo. A cena toda lhe era completamente estranha. Um contraste absurdo com o que lhe tinha marcado profundamente a alma 3 anos antes. Jamais teria sonhado que a mudança da família para Betel, ao lado da grande cidade de Jerusalém, possibilitaria presenciar, junto com seu pai, visão tão degradante e dolorosa. Ainda tinha viva na memória a imagem da mais deliciosa e fantástica refeição de sua vida, em uma colina às margens do grande lago de Tiberíades.
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- Rufo. Volte já aqui.
- Eu tenho que correr mamãe, senão perco o Rabi de vista.
Era difícil explicar o tipo de magnetismo que o arrastou àquele homem. Rumores de todos os cantos referiam-se a ele como profeta, mágico, louco, curandeiro, revolucionário, enganador. Mas, quando soube que ele estava por ali, quando viu seus vizinhos saindo à procura do homem, não exitou. Sua mãe estava desconfiada, mas sabia que não teria como segurar o menino. Por precaução, preparou-lhe um lanche.
- Vá com cuidado filho. E volte logo.
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A situação em Jerusalém era completamente diferente. Desde o pequinique mágico à beira do lago, muita coisa se falou sobre o desafiador e indomável rabi. Rufo acompanhava cada notícia, cada história contada nos fins de tarde, com intensa e ansiosa antenção. Há poucos dias soube que um homem de Betel, que ele já havia visto algumas vezes, fora retirado da sepultura pelo rabi misterioso. Um bom homem que, junto com suas irmãs, havia ajudado a família de Rufo quando precisaram mudar-se para perto da cidade santa.
No dia sombrio e confuso em que voltou a ver o profeta, subira à Jerusalém com seu pai para negociar o fruto da pequena lavoura quando uma multidão descontrolada os engoliu. Enquanto tentava entender o que se passava no meio do tumulto, Rufo ouviu assustado o grito de um soldado romano que olhava fixo na sua direção.
- Você! Venha ajudar o homem a carregar a tora!
O soldado apontava convicto para seu pai, que não teve outra alternativa senão cumprir a ordem. Viu, assustado e confuso, seu pai arrancar das costas de um pobre infeliz um grande e pesado tronco de madeira e colocá-lo sobre os ombros.
- Filho! - gritou Simão, pai de Rufo - Venha junto, não me perca de vista. Logo voltaremos pra casa.
Só quando seu pai deu os primeiros passos é que pode perceber, apavorado, quem estava no chão, quase irreconhecível. Rufo observava atento e aflito o sofrimento do pai carregando a tora acompanhado pelo mesmo rabi que, três anos atrás, inundara-lhe o coração de fé na redenção de seu povo. A multidão gritava, como que obcecada por alguma espécie estranha de vingança. Os anos de opressão, o peso do cetro de César, a humilhação do jugo e a esperança, mais uma vez, escorrendo fluídas pelos dedos, levavam o povo à loucura. Viam o condenado como traidor e explodiam de ódio desmensurado contra o pobre homem.
O que teria havido? Que sentido fazia aquela cena? Não era o rabi Jesus um milagreiro? Não era amado pelo povo? Não era um profeta como há séculos não se via em Israel? A refeição à beira do lago misturava-se confusa com o sangue e o pó na face do profeta. Acompanhando o pai no meio do empurra-empurra da multidão, Rufo ouvia num canto da mente as palavras de Jesus ecoando nas colinas da Galiléia e, quanto mais ouvia, mais sentia-se de novo naquele lugar. Apesar de toda confusão que o cercava, podia sentir a brisa soprando do mar.
[...]
Quando tudo se for
Vi um velho sentado
Num sofá surrado
De um apê apertado
Olhando a garoa
Com a cabeça no passado
Coitado
Passado cheio de festa
Cheiro de rio na floresta
A moça dançando seresta
O gosto de um beijo
Lembrança doce e modesta
Atesta
Que o tempo não deixa nada
Que a vida é uma emboscada
Nos pega na encruzilhada
Deixa o peito doendo
Faz garoa virar chuvarada
Pesada
Mas mesmo no meio da dor
Da ausência de qualquer cor
Na chuva brota uma flor
De doce esperança
Pois ficará, quando tudo se for
O amor
Num sofá surrado
De um apê apertado
Olhando a garoa
Com a cabeça no passado
Coitado
Passado cheio de festa
Cheiro de rio na floresta
A moça dançando seresta
O gosto de um beijo
Lembrança doce e modesta
Atesta
Que o tempo não deixa nada
Que a vida é uma emboscada
Nos pega na encruzilhada
Deixa o peito doendo
Faz garoa virar chuvarada
Pesada
Mas mesmo no meio da dor
Da ausência de qualquer cor
Na chuva brota uma flor
De doce esperança
Pois ficará, quando tudo se for
O amor
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