31 de março de 2015

Diário de Páscoa

Transcrição de um manuscrito secreto, supostamente encontrado durante uma escavação imaginária na região da Cisjordânia, que trata dos fatos que passariam a ser conhecidos como Semana Santa.

6 de março de 2015

Meia corda na Feirinha

Pode lançar o mesmo livro de novo, e de novo, e de novo, nove meses depois? Claro que pode, ué. Livro é meu, lanço quantas vezes quiser.

Evidentemente, se você é aqui da nobre região das barrancas do rio Itajaí-Açu, está convidadíssimo para aparecer na extraordinária Feirinha da Servidão, na rua Marechal Floriano, centro de Blumenau.

Você deve ir para comprar o livro, mas também pode aproveitar as muitas outras atrações da Feirinha. É realmente surpreendente. Tem de tudo um pouco. Do bom e do melhor.




Enfim, estarei lá, e espero encontrar você. Até.

1 de março de 2015

O outro lado do rio

O 'Morro da Companhia', banhado a ouro, da janela de casa.

 O salmista gritava aflito seu horror pela injustiça do mundo que o cercava. Três mil e quinhentos anos depois, enquanto admiro o incrível poente amarelo que surge arrebatador de uma tempestade de verão, silenciosamente grito o mesmo. A beleza do crepúsculo dourado contrapõe-se violentamente à crueza desse mundo injusto.

Um largo rio divide a humanidade em duas e, por acaso, encontro-me na margem onde manam leite e mel. Meu olhar atravessa a inclemente corrente de águas e me deixa assustado e confuso. A margem oposta é árida, angulosa, obtusa, rude mas, ainda assim, misteriosamente bela, com um tipo de beleza crua que não se encontra do lado de cá. No conforto da minha margem, sinto-me agora tomado de angústia, querendo, como o jovem Ernesto Guevara um dia antes de deixar o leprosário de San Pablo, "passar meu aniversário do outro lado do rio".

19 de fevereiro de 2015

Caminho do mar

Mais uma tarde sombria e cinzenta
Densas trevas, caminho do mar
Tempestade, açoite, tormenta
O ruído da noite não deixa sonhar

Pesada cortina cobre o luar
A mais de mil gerações
Lancinante angústia na sombra da morte
Nas praias distantes, tristonhas do norte
Sobre os ombros das multidões
Com a alma sofrida vazia a vagar
E o corpo atado à grilhões

Mas eis que uma centelha de luz
Decide habitar o breu
Deixando, sozinha, sua casa, seu lar
Desce confiante o caminho do mar
Pra buscar todo aquele que é seu
Levando consigo no ombro uma cruz
Sabe bem onde se meteu

E segue o caminho estreito do amor
Pela porta pequena e discreta
A tocar e curar toda dor
Pra cumprir o que disse o profeta

Zebulom é o morro
Naftali a mansão
E o coração de cada um
É Cafarnaum


[tuco egg]

Se já é assombroso que o judeu que ficou conhecido como Messias por meio mundo tenha abandonado a Eternidade para viver entre nós, quanto mais que tenha ainda, como se já não bastasse, abandonado o conforto e segurança do seu lar para voluntariamente habitar, viver, morar no lugar que era conhecido, já há muito tempo, como 'terra da sombra e da morte'. Cafarnaum, a Galiléia dos gentios, era o lugar mais 'perdido' de Israel, no sentido religioso e em muitos outros, do ponto de vista de qualquer judeu. Jesus sabia disso muito bem e mudou-se para lá. "Basta ao discípulo ser como o mestre", foi o que disse, comprometendo-nos a todos, o carpinteiro de Nazaré. Ai de mim.

"Terra de Zebulom e terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galiléia dos gentios; o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; sobre os que viviam na terra da sombra da morte raiou uma luz". João 4.15,16

2 de fevereiro de 2015

Subsídios, Rancor e Inveja



Quando a classe média e os ricos resmungam por todos os cantos da vida mansa dos pobres sustentados pelos planos sociais do governo (os subsídios que fazem com que alguns de fato afastem-se do emprego formal e desfrutem dos benefícios que recebem), é por rancor e inveja que o fazem. Sentem-se traídos por essa gente rasteira que já não se submete mais à posição de serviçais que lhes cabe.

A falta de mão de obra barata até pode ser, em alguns casos, fruto das muitas 'bolsas' oferecidas pelo governo federal mas, muito evidentemente, não porque essa mão de obra seja preguiçosa, como gritam alguns dos meus amigos. O motivo óbvio e justo fundamenta-se exatamente no fato de ela ser barata. Dar a alguém o direito e a condição de não submeter-se à ser mão de obra barata não é populismo ou fisiologismo. Aceitar e desfrutar desse direito não é vagabundagem.

O cidadão de classe média trabalha feito condenado e, em troca, recebe uns tostões suficientes para sobreviver e consumir um mínimo razoável de tecnologia e entretenimento. O cidadão que se enquadra no conceito de mão de obra barata, trabalha como um condenado e recebe uns tostões insuficientes para alimentar-se direito. Ou trabalhava. Agora lhe é oferecida a condição para não submeter-se à essa pecha, até que se lhe ofereça um valor adequado para sua mão de obra.