16 de janeiro de 2015

Maestro

O Pobreza Futebol Clube teve por certo tempo um meio-capo ilustre no seu plantel. O homem era um tricolor carioca bom de bola, mas já não tinha assim tanta força pra correr e chutar. O corpo esguio e cansado movia-se pouco pelo meio do campo, mas tocava a bola com precisão. Era maestro no gramado. Acima de tudo, porém, Lindolpho Gomes Gaya foi maestro das notas e partituras. Maestro da MPB, foi como ficou conhecido o Gaya ao produzir e arranjar músicas de Caymmi, Chico Buarque, Taiguara, Sylvia Telles, Nelson Mota e muitos outros, antes de mudar-se para Curitiba e ganhar uma vaga no timão que arrasava os adversários nas manhãs de sábado.

Sua biografia é extensa e riquíssima. Mas suspeito que são poucos os que já tiveram acesso às partituras abaixo.

De Gaya e Paulo Vítola, em primeira mão para toda humanidade, nos manuscritos originais do maestro, a inédita marchinha "Camisa do Meu Coração", hino do formidável Pobreza Futebol Clube. Arranjo para dois violões e bateria.

PS: Se alguém, algum dia, gravar isso mesmo que de forma precária e imprecisa, e me enviar um audiozinho modesto, ganhará em troca minha eterna gratidão.







Mais sobre Gaya:
Aqui, aqui e aqui (especialmente a partir da página 39).

11 de dezembro de 2014

Nunca soube




Lampião

Um foco de luz surgiu no céu.

Estrela obstinada, não contentou-se em simplesmente brilhar.
Abandonou seu ninho e riscou o espaço.

Foi taxada de rebelde, criticada e mal vista pelos seus.

Mas não podia parar.

Sentia ter sido chamada para mover-se. E foi.
Vagou por muitos dias até estancar, de repente, sentindo-se vazia e tola.

Estremeceu, duvidando de sua motivação.
Quis nunca ter deixado sua casa, mas não teve coragem de voltar.

Derramou uma lágrima antes de sumir e jamais ser vista.

Nunca soube dos magos e sua peregrinação,
nem do bebê que sorveu sua lágrima, bebeu sua luz.

Conta-se que o menino cresceu luminoso como lampião
e que clareia ainda hoje, feito estrela discreta,
os passos daqueles que andam junto dele.

E a estrela nunca soube.


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Publicado originalmente no distante Natal de 2009,
agora com uma ilustraçãozinha de brinde. 

30 de outubro de 2014

Traçando o trajeto

E se por força de decreto
O sul pra fora do Brasil arremetesse
O nordeste e seus interêsse
Meu amigo sulista dileto
Arrumava minhas trôxa, discreto
Não haveria que me detêsse
Largava esse sul desafeto
E pro norte traçava o trajeto
Melhor não fosse, mas se sêsse
O meu destino era esse

Incidentalmente inspirado no poema "Ai se sêsse", de Zé da Luz e obviamente motivado nas reações exacerbadas de alguns habitantes do sul/sudeste no pós-eleição presidencial.

Caminhando faceiro com a família no interior da Bahia.

26 de setembro de 2014

Asas claras

Gosto de histórias e músicas infantis e fico contrariado quando esse termo é usado num sentido pejorativo. Histórias infantis são belíssimas e a relação com a infância gera um pulsar de vida incrível no corpo grande e peludo de um homem feito. É na infância, afinal de contas, que se desfruta do Reino dos Céus.

Uma das mais belas histórias que contei e cantei para meus filhos infinitas vezes quando pequenos, é a extraordinária luta do Jequitibá de Carangola contra um incêndio terrível que o consumiu por 11 dolorosos dias. Era um horror. O fogo crepitando, os bombeiros e escadas e mangueiras numa luta vã contra o incêndio descontrolado engolindo a golfadas o combustível daquela árvore milenar, sem uma gota de misericórdia.

Quando o broto daquele Jequitibá rasgou a terra e viu pela primeira vez o sol, o Império Inca ainda nem havia surgido. Mas fogo é fogo e árvore é árvore. As labaredas impiedosas sugaram tudo que puderam daquele gigante da floresta. Não sobrou uma folha. Os galhos secos e duros pareciam cenário de um castelo assombrado e o tronco antes viçoso tornou-se negro como uma torre de carvão. Isso até o dia em que, "numa manhã de fevereiro, o sol nas bancas de revista iluminou uma notícia". E nesse apreensivo momento entrava um violãozinho e a voz suave do Hélio Ziskind cantarolando: "O jequitibá que ardeu por 11 dias tem folhas novas. Sobreviveu!" E nessa hora meu olhos enchiam de lágrimas, eu cantarolando junto, e meus filhos mal entendendo o tamanho da minha emoção.

Era o CD infantil "O Gigante da Floresta" me apresentando graciosamente a metáfora da redenção, o mistério da vida, a essência do evangelho. "Flores novas vão abrir, sorrisos de Jequitibá, sementes de asas claras vão voar... outras histórias vão começar".




Acompanhe a história toda no CD "O Gigante da Floresta" de Hélio Ziskind.

16 de setembro de 2014

Quando viver não é o suficiente

Que esse é o ponto em que chegamos, é mais do que evidente. Que lhe joguem isso na cara como se fosse uma virtude é triste e deplorável.


Assista, antes de continuar, o vídeo acima.

O convite para a aventura que não abre mão do conforto é degradante, mas tolerável. Querem nos convencer que a vida é inseparável de um assento estofado de couro e que é possível aventurar-se sem sujar os pés de lama e a camisa de suor. Não creio, mas até engulo. Intragável mesmo, definitivamente nauseante, é argumentar, sob a segurança de freios ABS, que viver não é mais suficiente! Afinal de contas, meus caros amigos, a Amarok deixa orgulhosamente claro para todos nós que, melhor do que chegar longe, melhor do que viver, do que experimentar, é contar para todo mundo que você chegou. É a feicebuquização da humanidade. Dá pra fazer um downgrade no sistema?

Veja também:
- Queijo cremoso e o fim da humanidade
- Ratos