16 de abril de 2014

Páscoa é quarto de adolescente

É verdade que o Natal virou o feriado mais famoso do calendário cristão. Mérito maior do Papai Noel e todo aparato comercial em torno dele, é claro, além das férias que acompanham a festividade. Você me dirá que a universalização da Páscoa também é fruto de aparatos comerciais, com seus coelhos e ovos, e eu não terei como negar, mas não é isso que vem ao caso agora.

O que é preciso salientar é que é a Páscoa, e não o Natal, o Grande Evento que virou o mundo de pernas para o ar. Deus entre nós em carne e osso (o Natal), teria sido história razoável para a humanidade não tivesse ele morrido esfolado e solitário em humilhante evento público. É esse o evento que inverte tudo, que revira tudo, que descontrói tudo, que deixa tudo de pernas pro ar, feito quarto de adolescente. O nascimento do menino Deus é belíssimo e cativante. Deus nu e em farrapos na cruz é rude e revoltante.

"Salvou a outros e a si mesmo não pode salvar", é o que diziam, orgulhosos de si, os fariseus ao pé da cruz. E estavam certos. De fato não podia. A cruz não é só Deus em farrapos. É Deus fraco e sem poder. Porque se salvasse a si mesmo, seria o triunfo da força e o consequente fim de sua mensagem de graça e amor irrestritos. Se salvasse a si mesmo, condenaria a humanidade a seguir o caminho da do poder, da opressão do forte sobre o fraco. Mas o amor o colocou nessa incrível sinuca de bico: para salvar os outros, não poderia salvar a si.

O amor é o sentimento dos fracos, era argumento recorrente de Nietzsche. E ele não podia estar mais certo. Foi o amor que levou Deus à insanidade de esvaziar-se de si e, portanto, fragilizar-se por completo, tornando-se um de nós e obedecendo até a morte a voz interior que lhe dizia que a vitória do amor faria tudo valer à pena.

Sim, Cristo ressuscitou, mas só depois de haver vivido e morrido. É assustadoramente ridículo ter que afirmar o óbvio mas é, acima de tudo, necessário. Porque seguir o mestre é seguir seus passos enquanto vivo. É portanto, fragilizar-se como ele, para que triunfe o amor.

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PEDRA
Tuco Egg / Gladir Cabral

Eu era pedra e ainda sou
Eu era vidro, eu era seda
Eu era cera, cristal
Quem dera

Eu era pedra e ainda sou

Era menino, era criança
Era esperança, amor
Pudera

Eu era pedra e ainda sou

Eu era hoje, seda e cristal
criança e amor, eu era
e ainda sou

10 de abril de 2014

O brinde e o abraço

Não há no mundo nada mais belo que perdão e reconciliação. Dois homens, cabelos grisalhos, pele sulcada de rugas profundas, frente a frente, relembrando atritos passados e suas consequências e seu afastamento, depositando tudo humildemente sobre a mesa, não sem dor e horror, para despejar sobre eles o jarro do perdão e beber a taça da reconciliação, celebrada em um longo e silencioso abraço. O momento é solene e sagrado, e o pano de fundo que ninguém vê é o céu abrindo-se e despejando luz e graça embalada por desconcertante coros de anjos.

Não é à toa que Tiago afirmou ser morta a fé sem obras. Fé, do ponto de vista dos evangelhos ou, ainda melhor, do ponto de vista do protagonista dos evangelhos, não é nada mais do que uma rendição desarmada, irrestrita e incondicional ao amor. E é precisamente por isso que toda fé genuína é um passo decidido para dentro de uma floresta escura e misteriosa que esconde em si os mais belos cenários e as mais agudas dores. Alegria e dor são duas faces de uma mesma moeda - o amor.

Amor é verbo e verbo é palavra que exprime um fato, uma ação. Se não houver uma ação derivada, não é verbo, não é amor. Evidentemente todas as ações que o verbo amar exprime são essencialmente belas, mas entre todas não há maior, mais dramática e inebriante do que a ação do perdão que se desdobra em reconciliação.

Quando finalmente se abraçam homens que por anos nem se falavam, desce do céu o Reino anunciado pelo carpinteiro.

Perdão e reconciliação é a mensagem central do homem/Deus que deu o passo resoluto e definitivo para dentro da floresta escura do amor e nos chamou a todos para segui-lo em loucura semelhante. Perdão e reconciliação são ato de fé, ação do amor, que arrebenta a frieza de um mundo rancoroso e derrama luz e graça.

E isso tudo começa com Deus anunciando através do carpinteiro de Nazaré que Ele mesmo derrama perdão e reconciliação incondicional, que Ele mesmo, o Santo, o Justo, ao contrário do que anunciam por aí seus pretensos representantes atrás dos púlpitos, em momento algum permite que pecado, qualquer que seja, o demova de sua intenção maior e irrestrita de abraçar e perdoar sempre e de novo... e de novo. Dizer, como disse Paulo em uma de suas cartas, que Deus não leva em conta os pecados dos homens, equivale a dizer que Ele, o Eterno, está pouco se lixando para meus pecados, meu amigo, e, muito pior, me convida a fazer o mesmo em relação aos pecados de terceiros. Isso, evidentemente, não no sentido de que ninguém deve preocupar-se com o mal que meu pecado faz a mim mesmo ou a quem é atingido por ele. O assunto aqui é perdão e reconciliação. Você fez o quê? Disse o quê? De novo? Ok, tudo bem, venha aqui que quero te dar um abraço.

O abraço - perdão e reconciliação - de Deus precede e prescinde arrependimento e é terrível saber que, não bastasse assumir tamanha insanidade para si, o criador parece sugerir que façamos o mesmo. Estamos longe disso, eu sei, mas é esse o Reino que foi proposto. E é por isso que não é loucura afirmar que [1] só não entra no Reino quem não quer e [2] haverá de haver muitos que de fato não querem.

Para entrar no reino será preciso submeter-se à nudez e ao despojamento de quem perdoa e é perdoado.



Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não lançando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação.
Paulo, escrevendo pra rapaziada de Corinto.

13 de março de 2014

A parte maior e melhor

"Eu sei de muito pouco. Mas tenho a meu favor tudo o que não sei e – por ser um campo virgem – está livre de preconceitos. Tudo o que não sei é a minha parte maior e melhor: é minha largueza. É com ela que eu compreenderia tudo. Tudo o que eu não sei é que constitui a minha verdade."
 
Clarice Lispector

8 de março de 2014

Facebook entre aspas

O Paulo Brabo disse, no prefácio do "Igreja Entre Aspas", que se aspas são quatro paredes, nenhuma igreja deveria estar entre elas. Meu amigo Tihh Gonçalves parece ter gostado do livro a ponto de criar uma página no Facebook pra ele. Fiquei lisonjeado. Se interessar entre lá, curta a página e aproveite pra trocar ideia, elogiar, reclamar, divulgar, indicar ou meter o pau.


E se quiser adquirir um exemplar, peça na Livraria Grafar que é garantido.

28 de fevereiro de 2014

A lista

— Cara, mas a bíblia é muito doida. Fica falando de graça, perdão e reconciliação, de um Deus amoroso e tal. Mostra Jesus perdoando todo mundo, a torto e a direito, com aquela frase tipo, "alguém te condenou? eu também não te condeno" e essas coisas todas. Aí, do nada, aparece uma lista de condenados, gente que não pode entrar no Reino de Deus. Tem de tudo lá, mentiroso, ciumento, fofoqueiro e sei lá mais o quê. É uma loucura isso.

— O que gera tanta confusão é o histórico, meu velho. A gente tá imerso em dois mil anos de cultura cristã. O ocidente todo está. Não tem um que se escape. Dois mil anos de rituais, doutrinas, hierarquias e medos. A gente já lê a bíblia condicionado. Até ateu faz assim, porque cristianismo não é só religião, fé, crença; cristianismo é cultura ocidental. O que nos chama a atenção é o que a igreja oficial gritou do alto dos púlpitos esse tempo todo. E a mensagem oficial é política. Tem a ver com controle de massas, com jogos de poder, com grana, com vaidades de todo tipo. Os dois mil anos de discurso oficial nos tornaram cegos para o fato mais assombroso da mensagem bíblica. O que não somos mais capazes de ver é que a bíblia é toda ela subversiva. Mas é um livro inserido na história e que precisa ser lido entendendo esse vínculo profundo de cada parte dela com o tempo em que foi escrito. A lei de Moisés era um grito de justiça e igualdade atravessando a opressão das lanças e escudos da idade do bronze. Séculos depois os profetas levantam a voz relendo a lei sobre novos olhos, reinterpretando a lei e confrontando reis e sacerdotes. "Misericórdia quero e não sacrifícios", é a reformulação do grito da lei para uma nova geração. Jesus lendo Isaías na sinagoga é o novo grito, agora encarnado, agora definitivo.

— Mas a lista de condenados é posterior a Jesus.

— É verdade. Mas veja bem. A história da bíblia é a história das interpretações humanas a respeito da revelação discreta de Deus na alma confusa do homem. Primeiro Abraão, depois Moisés, depois os profetas, cada um reinterpretando e resignificando a mesma mensagem de graça, perdão, reconciliação, de um Deus amoroso, como podia, a seu tempo. Aí vem Jesus, o Emmanuel, o Deus conosco, a encarnação desse Deus que vinha sendo interpretado durante toda história. Depois de Jesus, começa tudo de novo. Novas interpretações e resignificações dessa mensagem, com a diferença que, agora, a mensagem é observável, tem carne e osso. Mas as reinterpretações prosseguem. Paulo e Tiago, por exemplo, reinterpretam-se a tal ponto que um parece contrariar o outro às vezes. Lutero queria tirar a carta de Tiago da bíblia porque ele reinterpretava e resignificava Paulo. Mas mais do que isso, Paulo reinterpreta e resignifica a si mesmo em diferentes situações. Num momento somos todos iguais e já não há judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher - coisa que é subversão ainda hoje, imagine na época - em seguida as mulheres devem se calar porque não é bom que falem em público.

— Mas e a lista?

— Não há uma lista de condenados, amigo. Pelo menos não como você imagina. Você lê como se houvesse porque lê a partir da cultura cristã de dois milênios. Para Jesus a coisa é simples. O Reino de Deus é como um rei que queria cobrar as dívidas dos seus súditos, é o que diz aquele contador de histórias. Porque, não custa lembrar, a bíblia é essencialmente um livro de histórias, e histórias tem muito mais a dizer do que doutrinas a ensinar. O Reino é como um rei que, para cobrar uma dívida, chama um súdito sabendo que o que ele deve é muito maios do que jamais poderia pagar. É o reino de um rei que vê o súdito olhar nos seus olhos desesperado porque sabe não ter como pagar, e crê que há uma pena natural para quem não paga. Mas é, acima de tudo, o reino de um rei que com voz mansa e olhar amoroso derrama graça, perdão e reconciliação sobre o devedor. Anula o débito. Já não há nada a ser pago. Assim é o Reino de Deus, é o que afirma Jesus em sua parábola. Acontece que o súdito perdoado também tem alguém que deve a ele, e a história prossegue. E do ponto de vista desse súdito, perdoar não é algo aceitável. Ele aceita o perdão, mas não perdoa. Receber e admissível, mas oferecer é ofensivo. O sujeito manda prender seu credor e executar a dívida. Mas o reino é lugar de perdão, graça, amor e reconciliação. Essa é a mensagem. É lugar de perdão e graça mútuos. Basta ao discípulo ser como o mestre é o mesmo que dizer basta ao súdito agir como o rei. A sua confusão, amigo, é entender que a lista de condenados indica gente que não pode entrar. Não é isso que indica a lista. O ambiente do Reino é perdão, graça e amor. Essa é a atmosfera, o ar que se respira nesse Reino. Esse é o reino sussurrado em toda bíblia, de capa a capa. A lista não indica quem não pode. Indica quem não quer.