21 de maio de 2015

Pesadas correntes


Em abril de 2008 conheci Moacir através de um pedido de socorro. Fiz o que pude naquela época para atender-lhe e lamento que não tenha sido suficiente. Do meu encontro com ele surgiram dois pequenos textos aqui no blog que republico mais abaixo, compilados em um só. Na época em que publiquei o segundo texto, Moacir ainda estava desaparecido depois de abandonar, na calada da noite, a casa de recuperação onde o havia deixado. Uma semana depois da publicação, Moacir apareceu novamente no cafofo precário que o abrigava.

Planejei visitá-lo novamente para conversar, me aproximar, me oferecer como amigo, como irmão. Não tive tempo. Seu corpo foi encontrado entre a urina, o lixo e as baratas do seu esconderijo. Fui ao velório. Foi estranho ver-lhe limpo, bem cuidado, bem trajado. Olhando para o corpo rijo lembrei da última frase que havia escrito, e chorei.




O pequeno cômodo que abriga o corpo inerte luta para manter-se em pé. A única parte da modesta casa que por pouco ainda não ruiu, permanece mergulhada em sombra. Há meses o local foi privado de água e luz, servindo apenas como precário abrigo de ratos, baratas e bêbados. O jovem que jaz desfigurado sobre colchão surrado, regado a cachaça e urina, sabe bem a que se referiu Adoniran Barbosa:

A tristeza é um bichinho
Que pra roer 'tá sozinho
E como róe a bandida
Parece rato em queijo parmesão

Sobre o banco do carro novo o corpo desfigurado do jovem movimenta-se lento e descontrolado. O caminho para a casa de recuperação é longo. Já esteve em três ou quatro. Fugiu de todas. Na última fuga, vagou a pé e descalço, durante oito dias, até chegar novamente ao rude cômodo que ele chamava de "minha casa".

A caminho da esperança, chora, xinga, grita, dorme e não consegue controlar a urina. Na casa, é recebido por anjos que viveram outrora no inferno, mas foram resgatados pelo amor e serviço de semelhantes.

É o início das dores que podem trazê-lo de volta à vida.

Mas ainda que às portas da liberdade, permanecia atado a pesadas correntes. Preso às docas, acorrentado ao cais, exalando cheiro de peixe e excremento de aves, o jovem mal conseguia abrir os olhos. A claridade do sol refletindo sobre o oceano verde azulado perfurava-lhe os olhos como lâminas afiadas. Sentia náuseas ao ouvir os sons da liberdade e sentir a imensidão do horizonte. Os anjos que o receberam transfiguravam-se diante de sua mente confusa. Eram inimigos. Gente nefasta dedicada tão somente a livrar-lhe daquilo que lhe era mais sagrado - tristeza, solidão e miséria.

Passou seis dias agarrado ao cais, com as costas voltadas para o mar, pragejando contra o sol, a água, o vento e os anjos, alimentando-se de guano, clamando pelo dia em que poderia voltar ao sepulcro fétido que lhe abrigou nos últimos anos.

No sexto dia, libertou-se. Diluiu-se e escoou pelo bueiro. Abandonou o cais sem ter experimentado o mar. Deixou os anjos, desaparecendo da vista de todos. Esvaiu pelos esgotos jubiloso, vitorioso, a caminho da morte.

4 de maio de 2015

Desenvolvimento destrutivista

Vocês me dizem que o Brasil não desenvolve
Sem o agrobiz feroz, desenvolvimentista
Mas até hoje na verdade nunca houve
Um desenvolvimento tão destrutivista





Reis do Agronegócio
Chico César

Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio
Ó produtores de alimento com veneno
Vocês que aumentam todo ano sua posse
E que poluem cada palmo de terreno
E que possuem cada qual um latifúndio
E que destratam e destroem o ambiente
De cada mente de vocês olhei no fundo
E vi o quanto cada um, no fundo, mente

Vocês desterram povaréus ao léu que erram
E não empregam tanta gente como pregam
Vocês não matam nem a fome que há na Terra
Nem alimentam tanto a gente como alegam
É o pequeno produtor que nos provê e os
Seus deputados não protegem, como dizem
Outra mentira de vocês, Pinóquios velhos
Vocês já viram como tá o seu nariz, heim?

Vocês me dizem que o Brasil não desenvolve
Sem o agrobiz feroz, desenvolvimentista
Mas até hoje na verdade nunca houve
Um desenvolvimento tão destrutivista
É o que diz aquele que vocês não ouvem
O cientista, essa voz, a da ciência.
Tampouco a voz da consciência os comove
Vocês só ouvem algo por conveniência

Para vocês, que emitem montes de dióxido
Para vocês, que têm um gênio neurastênico
Pobre tem mais é que comer com agrotóxico
Povo tem mais é que comer, se tem transgênico
É o que acha, é o que disse um certo dia
Miss Motosserrainha do Desmatamento
Já o que acho é que vocês é que deviam
Diariamente só comer seu "alimento"

Vocês se elegem e legislam, feito cínicos
Em causa própria ou de empresa coligada
O frigo, a múlti de transgene e agentes químicos
Que bancam cada deputado da bancada
'Té comunista cai no lobby antiecológico
Do ruralista cujo clã é um grande clube
Inclui até quem é racista e homofóbico
Vocês abafam mas tá tudo no YouTube

Vocês que enxotam o que luta por justiça
Vocês que oprimem quem produz e que preserva
Vocês que pilham, assediam e cobiçam
A terra indígena, o quilombo e a reserva
Vocês que podam e que fodem e que ferram
Quem represente pela frente uma barreira
Seja o posseiro, o seringueiro ou o sem-terra
O extrativista, o ambientalista ou a freira

Vocês que criam, matam cruelmente bois
Cujas carcaças formam um enorme lixo
Vocês que exterminam peixes, caracóis
Sapos e pássaros e abelhas do seu nicho
E que rebaixam planta, bicho e outros entes
E acham pobre, preto e índio "tudo" chucro
Por que dispensam tal desprezo a um vivente?
Por que só prezam e só pensam no seu lucro?

Eu vejo a liberdade dada aos que se põem
Além da lei, na lista do trabalho escravo
E a anistia concedida aos que destroem
O verde, a vida, sem morrer com um centavo
Com dor eu vejo cenas de horror tão fortes
Tal como eu vejo com amor a fonte linda
E além do monte o pôr-do-sol porque por sorte
Vocês não destruíram o horizonte... ainda

Seu avião derrama a chuva de veneno
Na plantação e causa a náusea violenta
E a intoxicação de adultos e pequenos
Na mãe que contamina o filho que amamenta
Provoca aborto e suicídio o inseticida
Mas na mansão o fato não sensibiliza
Vocês já não ´tão nem aí co´aquelas vidas
Vejam como é que o ogrobiz desumaniza

Desmata Minas, a Amazônia, Mato Grosso
Infecta solo, rio, ar, lençol freático
Consome, mais do que qualquer outro negócio
Um quatrilhão de litros d´água, o que é dramático
Por tanto mal, do qual vocês não se redimem
Por tal excesso que só leva à escassez
Por essa seca, essa crise, esse crime
Não há maiores responsáveis que vocês

Eu vejo o campo de vocês ficar infértil
Num tempo um tanto longe ainda, mas não muito
E eu vejo a terra de vocês restar estéril
Num tempo cada vez mais perto, e lhes pergunto
O que será que os seus filhos acharão de
Vocês diante de um legado tão nefasto
Vocês que fazem das fazendas hoje um grande
Deserto verde só de soja, cana ou pasto

Pelos milhares que ontem foram e amanhã serão
Mortos pelo grão-negócio de vocês
Pelos milhares dessas vítimas de câncer
De fome e sede, fogo e bala, e de AVCs
Saibam vocês, que ganham "cum" negócio desse
Muitos milhões, enquanto perdem sua alma
Que a mim não faria falta se vocês morressem
Saibam que não me causaria nenhum trauma

Que a mim não faria falta se vocês morressem
Talvez enfim a terra assim encontrasse calma

Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio
Ó produtores de alimento com veneno

28 de abril de 2015

Os mais batutas - 2014

Me peguei por algum motivo besta olhando a barra lateral deste insistente blog, que ainda acredita ter mais valor que as mídias sociais sejam quais forem, e percebi, atônito, que a relação duvidosa e arbitrária dos textos mais batutas de cada ano estava incrivelmente desfalcada do décimo quarto ano deste eletrizante século.

E já estamos em maio de 2015.

Antes que acumulem-se duas listas inócuas consecutivas, relaciono abaixo os mais interessantes rabiscos do ano que enterrou Gabriel García Marques, Ariano Suassuna, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro, Manoel de Barros, mas deixou de pé o Sarney que está escrevendo outro livro.

Remanso

O primeiro comunista

A lista

Capim estrela

O universo inescapável do comum

Páscoa é quarto de adolescente

O brinde e o abraço

Coisa esquisita no ar

Amigos de montanha

A ausência do Deus presente

24 de abril de 2015

Chuck Norris e a Bíblia

Tenho um amigo bastante improvável. Já tivemos algo em comum: ambos subíamos montanhas e subimos juntos muitas delas. Mas o tempo passou, as montanhas ficaram para trás e restou-nos apenas, como fio que contém as miçangas da amizade, o passado. Tudo que diz respeito ao presente parece nos colocar em posições opostas. E meu amigo é daqueles que gosta de contrariar publicamente, expor sua opinião e desmontar os argumentos que se opõe à ela. É um lutador. Sempre foi. Desde os tempos de montanha, quando se enfiou em roubadas que sempre almejei e nunca alcancei, simplesmente porque não tenho essa gana, essa birra toda que caracteriza meu amigo.

Uma das discussões que tivemos começou com a redução da maioridade penal, projeto que lamento existir e contra o qual me posiciono com uma veemência que me é rara, e terminou com uma comparação tão comum quanto equivocada dessa lei com o Deus sanguinário que habitaria as páginas do Velho Testamento. Meu amigo sabe que sou cristão, desses que leem a Bíblia, fazem oração e se reúnem com outros para compartilhar as incertezas da fé. Ele, evidentemente, é um ateu militante. Acontece que, para defender seu argumento favorável à redução da maioridade frente a um cristão, ele apelou para um dos mais improváveis argumentos, tão improvável quanto nossa amizade: se sou crente e tenho um bíblia toda sublinhada na minha mesa de cabeceira, devo ser favorável à redução da maioridade penal, porque a bíblia (pelo menos a maior parte dela, o chamado velho testamento) seria um "livro que tem sangue no zóio" e apresentaria um "deus mais vingativo que qualquer Chuck Norris". Me parece que a infeliz bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala) no congresso concorda com meu amigo.

"Um deus mais vingativo que qualquer Chuck Norris"

A comparação com Chuck Norris é culpa minha. Já havia usado contra ele o argumento de que a justiça que todo mundo quer foi apreendida nos filmes de ação de Hollywood. 87% da população brasileira é favorável à redução, dizem algumas pesquisas. É muito Chuck Norris, penso eu. A justiça que a imensa maioria quer fundamenta-se no roteiro base de qualquer daqueles filmes, e são milhares, em que o mocinho, no final, todo arrebentado, dispara um tiro certeiro na cabeça do vilão medonho e, no mesmo instante, somos todos inundados de profundo sentimento de alívio e paz. Justiça foi feita. Está tudo bem. Vamos dormir.

Meu amigo disse que o Deus do Velho Testamento é mais vingativo que Chuck Norris e sei que existe uma série de versículos que atestam esse pensamento. Argumentei que é preciso avaliar o texto dentro de seu contexto histórico, de como a sociedade resolvia as coisas na época em que o texto foi escrito. E foi nesse momento que chegamos no ponto mais interessante da discussão, que foi também o instante em que, covardemente, pulei fora dela. É que esse negócio de discutir em pequenos e rápidos argumentos nas áreas de comentários de facebuques e coisas afins me dá um desânimo incrível. Mas resolvi usar o espaço obsoleto desse blog para organizar meu pensamento. O argumento de meu amigo para se opor à minha defesa de que o texto deve ser analisado dentro do contexto foi: "Que deus é este que escreve um livro que era para ser um guia para as pessoas e no entanto requer que as pessoas para entendê-lo façam verdadeiros cursos? Não seria mais justo ser direto?". É realmente curioso que para entender a bíblia o interessado precise ser um doutor em teologia e saber grego e hebraico. E meu amigo está certo, caso o interesse de alguém seja entender a bíblia. É um livro complexo pra caramba, escrito por cerca de 40 autores diferentes em um período provável de 1600 anos sendo que os livros mais antigos têm entre 3 e 4 mil anos de idade. Alguém quer entender essa parada sem estudar?

"Que deus é este que escreve um livro que era para ser um guia para as pessoas e no entanto requer que as pessoas para entendê-lo façam verdadeiros cursos?"

Entretanto, a questão da qual não quero me desviar, é que existe um evidente distinção entre entender a bíblia e ser um seguidor do rabi judeu que inaugurou o que, bem posteriormente, passou a ser chamado de cristianismo. Existem, aliás, dois pontos que, apesar de amplamente utilizados, são incrivelmente falhos no argumento apresentado por meu amigo. Pelo menos do ponto de vista da fé cristã, ou seja, a fé que deriva do judeu chamado Jesus de Nazaré. Primeiro, supor que deus escreveu um livro. Segundo, que o livro foi escrito para ser um guia. O próprio conceito de 'um livro' já é um tanto equivocado, umas vez que a bíblia é uma compilação de cerca de 70 manuscritos (66 para os protestantes, 73 para os católicos), mas beleza, até dá para tratá-la como um livro feito de livros. O que não dá é para imaginar que um discípulo de Jesus é um cara chamado para seguir um livro escrito por Deus, mesmo que esse livro seja o livro que todo cristão tem (ou deveria ter) na sua mesa de cabeceira, todo gasto, anotado, sublinhado.

As religiões tem seus livros sagrados que servem de guia, sem dúvida. A Torá do judaismo, o Alcoorão do islamismo, o Vedas, o Bhagavad Gita e mais alguns do hinduísmo e assim por diante. Oficialmente a bíblia deve aparecer como livro sagrado e guia do cristianismo, mas essa é uma ideia que não passava na cabeça do sujeito que propôs essa nova e inusitada jornada de fé que cristalizou-se nisso que hoje conhecemos como cristianismo. A proposta do Cristo era ser ele nosso guia, não um livro, seja qual for. Moisés reuniu um bando de apátridas, apontou para Javé e redigiu a Torá. Maomé teve uma visão, apontou para Alá e redigiu o Alcoorão. Jesus apontou para si e não redigiu bulhufas. Não tivesse sido ele o suprassumo do amor, da humildade e de tudo aquilo que se pode ainda hoje chamar universalmente de virtude, teria de ser considerado, por aquilo que disse acerca de si, o rei do arrogantes e prepotentes ou um completo demente, mestre dos desvairados.

"A proposta do Cristo era ser ele nosso guia, não um livro, seja qual for"

Para alívio dos que não querem estudar teologia, aprender grego e hebraico e sair por aí compreendendo todos os detalhes da complexa bíblia cristã, a fé proposta pelo Cristo não exige nada disso de ninguém. "Se alguém quer vir atrás de mim, pegue sua própria cruz e me siga. Eu sou o caminho. Basta ao discípulo ser como o mestre." São palavras assim que saem da boca do rabi que ousou resumir a lei toda em uma só - a lei do amor. Seria evidentemente menos comprometedor aprender grego e hebraico do que seguir Jesus, e talvez por isso os teólogos estudem tanto ou eu mesmo faça tantas anotações nas páginas gastas da minha bíblia. Isso não é uma desculpa para parar de lê-la ou para desprezá-la, é claro. Não jogue sua bíblia fora. É um livro belíssimo e riquíssimo. Tem absolutamente tudo a ver com nossa cultura e lê-la é ler parte de sua própria história, já que todo o mundo ocidental está irredutivelmente submerso em suas páginas. Ela é repleta de sabedoria, beleza e poesia. Jamais esqueça, porém, que há sim um guia a ser seguido, mas não é um livro e sim uma pessoa. Que a Palavra de Deus não é outra senão o Verbo encarnado em Cristo. Se é terrível para você ler aquele livro todo, atenha-se a leituras e releituras simples e dedicadas das cerca de 20 páginas de um dos evangelhos. É o suficiente para transformar e comprometer sua vida inteira. "Terrível coisa é estar sozinho com o Novo Testamento", dizia Kierkegaard. Se depois quiser ir além, e eu o aconselho que vá em frente, mas filtre tudo que ler nas tramas resultantes da leitura dedicada do evangelho e não restará espaço para Chuck Norris.

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Eu lhe recomendo ler tudo que Kierkegaard tinha a dizer sobre a leitura da bíblia na parte de sua Provocação sarcasticamente intitulada Morte aos Comentaristas.

17 de abril de 2015

Alameda Vazia

A algibeira rota rebenta e esbugalha-se no solo frio da alameda vazia. A alameda é estreita mas vasta. Vasta ao infinito, contudo vazia de quem quer que seja.

Não há ninguém que possa ajudar o homem solitário a recolher os despojos que escaparam dos trapos velhos esfacelados. Nem álamos para sombreá-lo. A alameda é vasta, não há ninguém, nem álamos e o sol castiga. A pele dura e áspera do homem solitário rasga-se em sulcos profundos de dores profundas e em linhas secas de distantes risos incontidos.

Os despojos que tanto lhe custaram se dispersam agora no chão gelado e rolam ladeira abaixo, tomando cada um seu caminho como ratos afoitos escapando de predador faminto.

O homem solitário não reage, não se vira, nem com os olhos acompanha qualquer que seja o fragmento do que trazia há séculos alameda acima. Intuitivamente sabe que o esforço seria vão.

Então simplesmente congela seus movimentos no exato instante em que tudo se solta de si e toma outro rumo. Tão somente cerra os olhos e acompanha o som seco dos objetos despencando, rolando, se afastando em rumos dispersos e imprevisíveis, até ouvir novamente o silêncio absurdo da alameda vazia.

A algibeira é agora um trapo furado e sem sentido. Aquilo que carregava, e o valor todo que lhe fora atribuído durante a penosa jornada, já não há. Perdeu-se ladeira abaixo.

O homem permanece inerte por um instante que tange a eternidade, até que o silêncio rompe estridente a linha que anulava o tempo e, enfim, conforta o homem solitário, que abre os olhos, respira fundo e segue caminhando, agora mais leve.