11 de dezembro de 2021

Natal é presépio


Ontem subi num banquinho aqui em casa e me estiquei todo pra pegar, no alto de um armário, a caixa onde a gente guarda os enfeites de Natal. E saí espalhando pela casa luzinhas e presépios. Eu não tenho nada contra o Papai Noel, acho ele um fofo mas, aqui em casa, Natal é presépio.

Acho engraçado que haja na religião, quase sempre, um fascínio pelo poder. O Deus é todo-poderoso, é rei dos reis, é glória, é riqueza. Mas quando surge um bando de gente simples, do povo, esfarrapada, iletrada, espalhando a notícia de que Deus nasceu em uma manjedoura, entre os bichos e mais ninguém, sozinho, sem plateia, sem aplauso, sem reverências, toda a ideia de poder se desmonta. “Não vai restar pedra sobre pedra”, é o que diz Jesus sobre o Templo, o maior símbolo de poder do seu povo.

"A glória da utopia realizada está na anulação de todo poder e riqueza"

Tem um texto no apocalipse que fala sobre um tempo final, uma utopia realizada, onde em uma nova terra vamos caminhar sobre ruas de ouro. E nosso imaginário é tão obcecado por poder e riqueza que a gente não vê que essas ruas de ouro não são a exaltação da riqueza e do poder, mas a anulação de ambos. Na utopia realizada de apocalipse, ouro tem valor de barro, por isso tá no chão e a gente pisa em cima como quem pisa no pó. A glória da utopia realizada está anulação de todo poder e riqueza e, portanto, de todo domínio, hierarquia, opressão, jugo, desigualdade.

É por isso que meu Natal é feito de presépios. Porque o presépio é a encarnação dessa utopia - um mundo sem riqueza e poder, onde somos todos irmãos, todos iguais. Um mundo de beleza singela. Um mundo livre da ansiedade de ter, e ter cada vez mais. Um mundo imerso num sentimento profundo e delicioso não de ansiedades e desejos, mas de satisfação.

Minha oração hoje é pra que um mundo assim, nasça e renasça dentro de mim, dentro de você. Que essa utopia se realize no nosso coração e transforme nosso jeito de ver o mundo e de ser no mundo, pra que o mundo seja.

Que assim seja.

2 de dezembro de 2021

Um risco no chão


Aqui vai um textão. Desculpe, mas sinto que preciso. Escrevo com muito carinho, respeito, amor fraterno e bastante preocupação.

Há os que ainda defendem, a unhas e dentes, todo projeto do atual governo federal. A esses não tenho muito mais a dizer do que o que está no "PS" lá no último parágrafo. Se quiser, pule direto para lá.

Mas há os que estão meio assustados, achando algumas coisas um tanto estranhas, e ainda assim seguem apoiando o governo, em geral porque, dizem, o “outro lado” também não dá. O outro lado seria o Lula. É pra esses que dirijo essa carta.

Já passou da hora de perceber, aceitar, assumir algo que tá cada vez mais escancarado. Não dá pra botar o Bolsonaro e seu projeto lado a lado com ninguém. Tem uma linha clara traçada no chão, e foi o Jair que riscou. De um lado tá todo o campo democrático, com todos os seus defeitos, com direita e esquerda, com os que você gosta e não gosta. Do outro lado tem um cara sozinho com uma proposta autoritária, autocrática, perigosíssima e violenta.

Tem um risco traçado no chão e a escolha é entre democracia e bolsonarismo - que é ruptura democrática declarada, na cara dura. E é um projeto de sempre, proposto pelo cara que defende abertamente, desde sempre, ditaduras, ditadores, torturadores, eliminação sumária de opositores e de "diferentes". Um cara que é um profundo poço de preconceito, intolerância e violência. Um cara afundado no ódio e no desprezo pelo outro. Não é exagero, nem intriga, nem perseguição. É só ouvir o que ele sempre disse e segue dizendo.

Com isso em mente, é preciso entender que é ele e seu projeto que estão, entre tantos horrores, questionando urnas e STF. É preciso perceber que os argumentos estão sempre fundamentados em mentiras, desinformação, teorias conspiratórias e extremismos.

É muito importante entender que as urnas são sim auditáveis e confiáveis. É preciso estudar esse tema fora das bolhas conspiratórias. Não tem como chegar a conclusão diferente. Dá pra deixar ainda melhor? Dá. E estão sempre trabalhando nisso, de forma transparente, acompanhados por sociedade civil, jornalistas, partidos, OAB, desde que as urnas eletrônicas surgiram.

E o STF, meu amigo, não é perfeito, mas não é em lugar nenhum do mundo. Agora, a estrutura, o funcionamento do que temos aqui, está absolutamente de acordo com o que temos de melhor nas experiências democráticas de todo mundo. Não há nenhuma anomalia bizarra aqui. É só estudar o tema com cuidado, fora das bolhas conspiratórias de desinformação. A gente pode reclamar de decisões, elas não são matemáticas, tem muitas variáveis, vai ter sempre jurista que concorda, jurista que discorda, mas tá tudo dentro da normalidade democrática.

Entenda, é preciso!, que atacar urnas e STF é terrível! Terrível porque está nas cartilhas de todos os aspirantes à ditadores. Desestabiliza dois dos mais importantes pilares da democracia. O objetivo é gerar discórdia, confusão, caos, pra, uma hora ou outra, questionar a própria democracia, romper com ela e instalar um modelo autocrático que não tem a menor chance de ser bom (o terceiro pilar é o jornalismo, que não por acaso também é atacado pelo nosso aprendiz de ditador). É um projeto de caos e discórdia com o objetivo de tomar o poder. E pior, armando gente radicalizada e assumindo que, se preciso, as armas devem ser usadas. Usadas contra quem? Contra seus irmãos, pelo amor de Deus, veja isso! Contra mim, meus filhos, seus filhos, sei lá. Contra qualquer um que se oponha. 

Ninguém que se proponha seguidor de Jesus de Nazaré pode apoiar isso. Ninguém. Porque tem um risco traçado no chão, e um dos lados é violência e morte.

Desculpe mesmo pelo textão, mas tenho dormido mal, sofrido pra burro, orando e chorando pelo que tenho visto, pelos rumos que muitos estão tomando, e por ver parte importante da igreja se deixando levar pelo caminho do horror.

Tem um risco no chão. Foi Bolsonaro que riscou e passou sozinho pro lado de lá. O lado da violência, do caos, das armas nas mãos dos civis combinadas com a proposta já muitas vezes verbalizada de eliminação de oponentes (“e se morrer uns inocentes não tem problema, guerra é assim” – J Bolsonaro).

Tem um risco no chão e passou da hora de decidir. Esse próximo ano vai ser um horror. Será preciso se posicionar. Quanto antes melhor.

PS: Tenho sugerido a muitos que se afastem das mídias sociais, dos canais de youtube, dos grupos de whats, das bolhas de opiniões formadas e passem um período só relendo os evangelhos e orando. Desintoxicando das tantas informações e relembrando o caminho do amor em Cristo. E, de coração e mente abertos, pedindo direção do Espírito Santo nesses tempos. Porque tem uma linha riscada no chão que, desde o fim da ditadura, não se via. Uma linha terrível. E será preciso escolher.


Em amor fraterno, Tuco Egg.

Imagem:
"Jesus quebrando o rifle"
Gravura de Otto Pankok (1893 - 1966)

16 de abril de 2021

A Trilha virou livro


A Trilha virou livro. Árvores foram cortadas pra que isso acontecesse. Em minha defesa, registro que a tiragem não é das maiores, o que reforça a ideia de que você, que como eu gosta demais do cheiro de livro novo, deveria adquirir o seu com urgência.

Gente do calibre do Carlos Bregantim, Gito Wendel e Alexandre Gonçalves garantiu que vale a pena. Eu não confiaria tanto em mim, mas quanto a eles, não há porquê desconfiar.

"A Trilha é leitura essencial para dias estranhos como os nossos, porque nos questiona, nos chacoalha e nos adverte: É preciso Esperançar". Gito Wendel - teólogo, escritor e ativista social. 
 
"A Trilha traz percepções relacionais com forte ênfase nos invisíveis, excluídos, vulneráveis que se encontra enquanto se faz uma trilha no chão da vida, sem excluir nada e ninguém". Carlos Bregantim - Mentor e escritor.
 
"Ler A Trilha é sentar à mesa de bar com o Mestre e comer comida de boteco enquanto ouve suas histórias a ponto de o lugar e a comida não fazerem a menor diferença ante a experiência mágica desse momento". Alexandre Gonçalves - Pastor, policial e líder sindical.


A Trilha é o novo lançamento da Editora Grafar.
Compre o seu agora mesmo!

Prefácios e textos de capa:
Gito Wendel,
Carlos Bregantim e Alexandre Gonçalves

1 de dezembro de 2020

O Mito no Mundo


"O [mito] se fez gente
e habitou entre nós"

A humanidade só existe a partir do mito. O que a ciência chama de revolução cognitiva, que é o que fez surgir no solo desse planeta a criatura chamada Homo Sapiens, nada mais é do que a chegada do mito ao mundo. Mito é palavra imaginada e transmitida de geração em geração. É verbo sonhado, cantado e contado.

Quando Deus escolheu uma das criaturas que vinha evoluindo a milhões de anos e soprou em suas narinas seu espírito, colocou dentro dela a angústia do simbólico, do imagético, do sonho, da narrativa. Nos tornamos então, imagem e semelhança do criador. E desde esse dia passamos a contar histórias e todas elas apontavam para o mito maior, a utopia mais profunda, a mais presente e inquietante lenda: o anseio inescapável pela redenção. E todos os povos, de todas as culturas, de todos os cantos, de todas as raças, de todas as origens, de todas as religiões narraram esse mito, cada um a sua maneira. Até o dia, o inacreditável dia, em que passou-se a contar-se a história de que esse mito maior e mais profundo rasgou o manto pesado da fantasia, invadiu o espaço e o tempo e nasceu entre nós, como um bebê na manjedoura de um canto remoto e irrelevante da palestina.

Todas as histórias de todos os mitos, todos os sonhos de todas as utopias, todas as lendas de todas as canções se adensaram, deixaram pra trás o mundo das fábulas e habitaram o frágil corpo de um bebê. Emanuel, Deus conosco. O Deus fragilizado. O Deus que redime o corpo e o santifica, porque nele habita. O Deus feito gente. O Deus que esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante à humanidade e por ela se entregando, para a ela dar esperança, força, vida, ressureição, redenção.

Nove meses antes, uma menina chamada Maria, ouviu a voz de um anjo que lhe sussurrou: alegre-se, vc dará à luz um menino, seu nome será Jesus e ele será chamado Filho de Deus. E diz o texto do livro sagrado, no evangelho de Lucas, que essa menina se encheu de alegria e cantou.

Minha oração hoje é para que esse sonho, essa lenda, esse desejo, essa esperança, esse mito que se se fez carne e habitou ENTRE nós, habite também EM nós, e em nós nasça e gere vida, e redenção. E que cada um de nós possa ter nos lábios, o mesmo canto de Maria:

Minha alma engrandece ao Senhor
Meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

1 de fevereiro de 2020

Luxos, necessidades e obrigações



Tentei desancar nossa estupidez anos atrás escrevendo uns parágrafos aos quais dei o título de Ratos. Mas o Yuval Harari explicou aqui o negócio todo e nos deixou nus.

"A busca de uma vida mais fácil resultou em muitas dificuldades, e não pela última vez. Acontece conosco hoje. Quantos jovens universitários recém formados aceitam empregos exigentes em empresas importantes, prometendo que darão duro para ganhar dinheiro que lhes permitirá se aposentarem e irem atrás de seus verdadeiros interesses quando chegarem aos 35? Mas, quando chegam a essa idade, eles têm grandes hipotecas para quitar, filhos para educar, casas em zonas residenciais que necessitam pelo menos de dois carros por família e uma sensação de que a vida não vale a pena sem um bom vinho e férias caras no exterior. O que se espera que façam, voltem a arrancar raízes? Não, eles redobram seus esforços e continuam se escravizando.

Uma das poucas leis férreas da história é que os luxos tendem a se tornar necessidades e a gerar novas obrigações. Uma vez que as pessoas se acostumam a um certo luxo, elas o dão como garantido. Passam a contar com ele. Acabam por chegar a um ponto em que não podem viver sem. Tomemos outro exemplo familiar de nosso tempo. Nas últimas décadas, inventamos inúmeros instrumentos que supostamente economizam tempo e tornam a vida mais fácil – lavadoras de roupa e de louça, aspiradores de pó, telefones, aparelhos celulares, computadores, e-mail. Antes, dava muito trabalho escrever uma carta, endereçar e selar um envelope e levá-lo até o correio. Levava-se dias ou semanas, talvez até meses, para obter uma resposta. Hoje em dia eu posso escrever um e-mail às pressas, enviá-lo para o outro lado do mundo e (se meu destinatário estiver on-line) receber uma resposta um minuto depois. Economizei todo aquele trabalho e tempo, mas tenho uma vida mais tranquila?

Infelizmente, não. Antes, as pessoas só escreviam cartas quando tinham algo importante para relatar. Em vez de escrever a primeira coisa que lhes vinha à cabeça, consideravam cuidadosamente o que queriam dizer e como expressá-lo. Esperavam receber uma resposta igualmente atenciosa. A maioria das pessoas escrevia e recebia não mais de um punhado de cartas por mês e raramente se sentia compelida a responder de imediato. Hoje recebo dezenas de e-mails todos os dias, todos de pessoas que esperam uma resposta imediata. Pensamos que estávamos economizando tempo; em vez disso, colocamos a roda da vida para girar a dez vezes sua velocidade anterior e tornamos nossos dias mais ansiosos e agitados."

Yuval Harari, em Sapiens.