10 de janeiro de 2018

A ceia dos covardes



Era dia de Páscoa e o Mestre estava reclinado à mesa com seu séquito de covardes. A última ceia não era um encontro de notáveis, de uma elite religiosa e moral. Era a ceia dos pecadores, dos medrosos, dos fujões, dos fracos, dos reticentes, dos que negam, dos que fogem, dos que abandonam quem amam para salvar a própria pele. E o revolucionário carpinteiro abriu a esse tipinho de gente os braços, sem restrições e julgamentos, e os convidou a todos para partilharem ali de sua vida, entregando-se por inteiro a todos eles, incluindo Judas, o mais notório dentre os traidores, que veio tornar-se boi de piranha da cristandade. Porque ali, naquela mesa, meus colegas, não se salvava um. Eram todos Judas. A única e lastimável diferença é que o Iscariotes, por ter sucumbido à vergonha e tirado a própria vida, não teve tempo de perceber em vida que já havia sido plenamente e eternamente perdoado, que fora graciosamente aceito à mesa junto com todos os demais. 

Não se engane, meu irmão. Não existe ceia de santos. Pelo menos não com Jesus. A ceia dos perfeitos, dos superiores, dos que julgam os outros do alto de sua respeitável posição, dos que batem no peito e dizem “obrigado, Deus, porque não somos como aqueles pecadores ali” - essa ceia não conta com a presença do Mestre. Essa é a ceia dos arrogantes e esses caras não se rebaixam a sentar à mesa onde Jesus está oferecendo sua carne e seu sangue.

A ceia de Jesus é a dos que dizem, prostrados: “tem misericórdia de mim porque sou pecador”. Dos que, sabendo quem são, conhecendo suas limitações, suas carências, suas falhas, seus horrores, sua mediocridade, sua canalhice, ainda assim - e por isso mesmo - querem andar com Jesus, porque carecem dele e de suas palavras de amor, perdão e graça. É a ceia dos que ouviram o convite carinhoso e desafiador - “se alguém quer vir comigo… me siga” - e, voluntariamente, fascinados pela figura cativante do carpinteiro de Nazaré, negando-se a si mesmos largaram o que tinham e o que queriam para si - que era o que os tornava infames - para segui-lo. E, ao segui-lo de mãos vazias tornaram-se parte dele mesmo - o Corpo de Cristo simbolizado na ceia, a comunidade daqueles que se parecem com Jesus porque aceitam em sua mesa o mesmo tipo de gente que ele aceitou, e com eles repartem suas vidas, e por quem, como o Mestre, entregam suas vidas.

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Foi Ariovaldo Ramos que ouvi contar a desconcertante história de um sujeito, nos EUA, que acolheu na sua casa um rapaz problemático que não tinha pra onde ir. O sujeito abriu as portas da sua casa para acolher o desconhecido e ele morou com a família até o dia em que (horror dos horrores) violentou e matou a filha do homem que o acolheu. O rapaz foi preso e condenado à morte, mas aquele  homem que o havia acolhido, o homem que havia perdido sua filha pelas mãos do indivíduo para quem abriu as portas da sua casa, decidiu perdoar o algoz de sua menina e passou a visitá-lo diariamente no presídio. E durante os anos que precederam a execução da sentença de morte, aquele homem tornou-se único amigo, confidente, conselheiro, quase um pai, do homem que matou sua filha. No dia de sua morte, aquele homem esteve com o assassino de sua filha até o último momento, e chorou amargamente durante e depois da execução. Dizem que no dia seguinte os jornais da região estampavam a manchete: "Pela primeira vez vimos um cristão de verdade".

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Esse chamado insano para sair por aí abraçando, perdoando e convidando à mesa covardes, canalhas e traidores não é, obviamente, um chamado light para uma vida boa. É bucha. É antinatural. Chega a ser ofensivo. Mas assim é o amor que mudou o mundo. Não tem explicação, não tem lógica. É "bobagem que a gente não explica, prova um bocadinho, fica envenenado e pro resto da vida é um tal de sofrer, olará, olerê". Mas Jesus continua, num sussurro constante, convidando: “se alguém quer vir… me siga”

O problema é que vivemos dias turbulentos, barulhentos. Vivemos no horror do ruído constante. A onipresença e a urgência da comunicação nos sugou para um turbilhão de muitas vozes. A gente consubstanciou a paranóia. Materializamos a esquizofrenia. O paranóico é aquele cara que tem a sensação de ter alguém sempre ao seu lado, que ouve vozes insistentes, ameaçando, exigindo, tramando, berrando. Pois agora essa sensação se fez carne e habitou entre nós nos incansáveis dispositivos móveis e suas inesgotáveis redes sociais. E a gente não tem mais como ouvir a voz de Deus (que é a voz do amor), que sopra no silêncio e na quietude da brisa suave. Não temos como ouvir nem mais a nossa própria voz, que sussurra discreta e constante em nosso peito. Muito menos ouvir a voz do outro, do irmão, do próximo, do vizinho, de quem precisa. Assim como a mais profunda solidão se encontra no meio da multidão, é no ruído constante que habita o silêncio mais ensurdecedor.

Não é a toa que Isaías (Is 30.15) diz que nossa salvação está “no arrependimento e no descanso” (de quem sabe que é um covarde traidor, mas sabe que Jesus entrega seu corpo e sangue para covarde e traidores, numa boa), e nosso vigor está “na quietude e na confiança” (de quem sabe que carece desse silêncio tranquilo), pois só nesse lugar quieto e tranquilo é possível ouvir a voz do Amor, ouvir a si mesmo e ouvir o próximo. E é só assim, nessa condição, que a ceia de Jesus faz sentido. Só assim pode haver entre nós alguma semelhança com o Cristo. E se você é dos que, como eu, ao ouvir o convite do Mestre - se alguém quiser… - diz, entre lágrimas, “eu quero”, meu amigo, saiba, essa jornada é para que Ele seja formado em nós. Não para sermos melhores que os outros, julgando e condenando o próximo, não para sermos melhores que ninguém a não ser nós mesmos, cada dia um pouco mais parecidos com Ele, aos trancos e barrancos.

Os cristãos não deveriam ser conhecidos como os guerreiros da moral e dos bons costumes nem como os incansáveis guardiões da família tradicional, mas sim como a Comunidade do Amor, dos relacionamentos desinteressados, da aceitação, da tolerância, do cuidado mútuo. É pela liberdade, pela mutualidade, pela interdependência amorosa, pelo serviço abnegado que devemos ser lembrados. Foi essa a mais transcendente marca que Jesus deixou. Foi assim que igreja de Atos se tornou conhecida. E é nesse, e só nesse contexto que a ceia surge como símbolo, lembrança, reforço e recompromisso de quem quer colocar o corpo e o sangue de Cristo para dentro de si. Não para fazer parte de um clubinho de santos, mas para seguir os passos dele até a cruz. 

Se você ouviu o sussurro do Mestre, largou suas coisas e foi atrás do cara, abra uma garrafa de vinho, convide uns amigos e reparta com eles sua vida. Depois abra os braços, as portas, a mente, a alma, abandone os medos, os julgamentos e os preconceitos e contagie o mundo com o amor de Jesus.


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PS: Esse é o momento em que alguém cita Paulo, na primeira cartinha que ele escreveu pra rapaziada de Corinto (1 Co 11.28-31). Aquele lance de examine-se antes da ceia, com ares de juízo e condenação. Mano, faça uma oração sincera pra Deus te ajudar a entender o texto sem conceitos pré estabelecidos, depois leia o capítulo inteiro. A treta ali é uma enorme falta de educação e mesquinharia na mesa (que não era uma tacinha de vinho e uma migalha de pão ou hóstia, mas uma mesa farta). O pessoal tava doido mesmo, comendo que nem adolescente com lombriga e enchendo o caneco, voltando bêbado pra casa. É disso que Paulo está falando, amigo. É por isso que ele dá uma esculachada nos crentes. Leia lá de novo. E nunca, nunca mais queira ser santo no sentido de não ter nenhum pecadinho escondido antes de participar da ceia. E, se quiser, nunca mais participe, pelo simples fato de que você jamais será santo. Aceite-se covarde e canalha como somos e você verá que seu amor pela humanidade vai aumentar porque não haverá mais espaço para julgamentos e condenações.

19 de outubro de 2017

O [novo] moralismo de sempre



Anote na sua agenda: de hoje até outubro de 2018 uma avassaladora onda de moralismo vai inundar as notícias e timelines do nosso país. Notícias de horrores, imoralidades, erotização nas artes e na vida vão nos bombardear. Tome cuidado, meu bem intencionado e diligente amigo cristão. Na melhor de suas intenções você será cooptado para uma guerra que não é sua, fazendo você crer que é. Não se deixe enganar. Haverá exageros, distorções, mentiras descontextualizações e algumas verdades em tudo que se dirá. Não entre no jogo, mesmo no que diz respeito às verdades. É o pior que você pode fazer pra você, pra sua fé, pros seus filhos e pro nosso país.

Isso não é novidade. Aconteceu dois mil anos atrás. Está na bíblia, já explicadinho e combatido, tudo que estamos vivendo e viveremos ainda mais intensamente nos próximos 12 meses. É tudo política. Macro política. Briga de egos. Não importa se você quer votar na Marina, no Ciro, no Lula ou no Luciano Huck. Não é disso que se trata. Trata-se da manipulação de multidões por uma agenda moralista para o benefício de gente que não tem absolutamente nada de bom a oferecer em nenhuma outra área. Por isso fomentam essa gritaria. Sem ela não seriam ninguém. Não embarque nessa. Não patrocine esse desatino.

Por favor, não se enfureça antes da hora, nem me taxe, antes do tempo, de permissivo, imoral, complacente com a obscenidade e a devassidão ou herege. Acompanhe o raciocínio um pouco mais, antes de atirar alguma pedra.

Fazia quase 20 anos que Jesus tinha passado por esse planetinha, quando Paulo de Tarso ouviu falar que a galera da Galácia estava inundando o facebook de mensagens legalistas, querendo impor uns aos outros normas de conduta de toda espécie. Estavam tentando de tudo, inclusive falando mal de Paulo, espalhando a notícia de que ele era um frouxo, um licencioso dissoluto. E Paulo ficou muito, mas muito chateado. Não pelo que falavam dele, mas pelo que falavam... e ponto. Pelo que se tornara o assunto da moçada. A preocupação de todos. Ele ficou tão aborrecido que resolveu postar um textão e marcar os gálatas. E ficou registrado pra que nós, 2 mil anos depois, pudéssemos perceber que a humanidade anda em círculos. E pra nos dar a chance de pularmos fora dessa nefasta ciranda moralista. Até porque, na pior das hipóteses, pense bem, gritaria moralista é como apagar incêndio com querosene. É um horror. É contraproducente. Você atiça o que pretende combater. Isso num pensamento raso e imediato que já poderia ser suficiente, mas é claro que a raiz do problema é ainda maior e mais dramática.

O nome bíblico desses apregoadores dos preceitos de retidão moral era judaizantes. Eles queriam enfiar goela a baixo de todo mundo as leis de Moisés, que eram acima de tudo preceitos morais e éticos de um determinado povo. Não importa, pra fins de argumentação, se são bons ou ruins, mas sim que sejam de um determinado povo.

Se você é um cristão como eu, deve ter percebido que a gente costuma ler a carta de Paulo aos Gálatas nos vendo como a turma que não deve se deixar levar pelos judaizantes, mas o momento pede outra leitura. Precisamos ver a nós, cristãos sinceros, como os próprios judaizantes, pelo menos potencialmente. Você já se pegou fazendo isso? Tentando impor o seu valor moral e ético a outro que não compactua com sua fé? Ou pelo menos querendo fazer? Mas não, meu amigo de fé, irmão camarada, não podemos permitir que isso se substancialize em nós. Não sejamos nós judaizantes dos outros, querendo enfiar goela a baixo dos demais preceitos que são nossos e não deles. Aderir a uma agenda moral é assumir o posto daqueles caras com quem Paulo estava tão furioso que chegou a desejar que fossem castrados. Não era a castração dos obscenos que, hoje, querem alguns, mas a castração dos santinhos, dos bem comportados, dos moralistas moralizadores.

No fim do textão de Paulo, já no capítulo 5, o apóstolo começa a atar as pontas soltas depois do longo e nervoso desabafo da carta. Ele alerta a rapaziada pra não dar vazão às tempestades das emoções e desejos e não ficar feito cão e gato, num bate-boca horroroso, numa perseguição sem fim, "devorando uns aos outros", destruindo-se mutuamente. Ao contrário, diz Paulo, "sirvam uns aos outros em amor porque toda lei se resume num só mandamento: Ame o seu próximo como a si mesmo". Tem um padrão moral? Tem. É o amor. É claro que a aplicação desse padrão é complexa, e Paulo dá uma dica sobre ela nos versículos 19 a 21 da carta. Tranquilo, creia nisso, abrace isso, viva isso. Mas, ainda conforme Paulo, "cada um examine os próprios atos", cuide de si, olhe pros seus botões "sem se comparar com ninguém" e, consequentemente, sem fazer da acusação da libertinagem alheia seu grande objetivo de vida, pois "cada um deverá levar a própria carga". E, prossegue o cara que saiu do arraial cristão pra falar de amor e graça nos ‘museus’ do mundo, "não cansem de fazer o bem, porque é isso que importa", é essa nossa agenda, é essa nossa missão. Não fazer uma mobilização contra a [nova] imoralidade de sempre, mas "enquanto temos oportunidade, façamos o bem a todos".

Agora, se a carta aos Gálatas não basta pra lhe fazer desistir da cruzada moralista que estão armando pra jogar em cima de nós, lembre-se de Jesus. Lembre que o filho do carpinteiro viveu numa palestina romanizada. Saiba que o Queermuseu era um convento de freiras diante dos bacanais, das casas de banho, da submissão sexual dos meninos aprendizes aos seus mestres, das sacerdotisas de Afrodite. Lembre-se que Jesus passou mais de uma vez por Cesaréia de Filipe, o maior centro pagão do Israel antigo. Lembre-se que, depois de batizado, Jesus escolheu deliberadamente viver em Cafarnaum, a Galiléia dos gentios, o lugarzinho mais mal falado entre os judeus desde os tempos de Isaías. E lembre-se que, no meio dessa balbúrdia, Jesus não iniciou nenhuma campanha moralizante, apontando o dedo, horrorizado e escandalizado, para os pecadores promíscuos que se espalhavam por todo canto. Ao invés disso, Jesus ganhou fama de pecador por viver entre pecadores, derramando incondicionalmente amor, perdão e cura sobre quem quer que fosse, e só perdendo as estribeiras diante de religiosos, gente de conduta ilibada, pessoas de bem e seus discursos acusatórios.

Paulo sabia disso tudo melhor que ninguém. Era, afinal de contas, cidadão romano e fariseu. Mas um dia deu de cara com um clarão que o fez cego para que pudesse ver. E quando, no meio da escuridão, viu o que vinha fazendo e percebeu que era ele mesmo um impositor de moral escandalizado com a liberdade de outros, lhe caíram as escamas dos olhos de tal maneira que, no finalzinho da carta aos Gálatas, já meio impaciente com esse onda moralizante que enfeitiçou a moçada, e ciente de que Jesus não tinha nada a ver com isso, concluiu: “sem mais, que ninguém me perturbe, pois trago em meu corpo as marcas de Jesus”.





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PS: Abaixo, a fala de Paulo sobre o padrão moral muito bem reinterpretada por Eugene Peterson na sua Bíblia A Mensagem, com grifos meus (desnecessário lembrar que nada na bíblia é lista de acusação do outro, mas deve ser lido contra si e dentro do contexto mais amplo):

"todos conhecem o tipo de vida de uma pessoa que só quer fazer o que bem entende (sem nenhuma moral limitadora): sexo barato e frequente, mas sem nenhum amor; vida mental e emocional detonada; busca frenética por felicidade, sem satisfação; deuses que não passam de peças decorativas; religião de espetáculo; solidão paranoica; competição selvagem; consumismo insaciável; temperamento descontrolado; incapacidade de amar e ser amado; lares e vidas divididos; coração egoísta e insatisfação constante; costume de desprezar o próximo, vendo todos como rivais; vícios incontroláveis; tristes paródias da vida em comunidade."

Já a vida livre e leve de quem entendeu o amor e a graça incondicionais de Deus em Jesus, fazem brotar "afeição pelos outros, uma vida cheia de exuberância, serenidade, disposição de comemorar a vida, um senso de compaixão no íntimo e a convicção de que há algo de sagrado em toda criação e em cada pessoa. Nós nos entregamos de coração a compromissos que importam, sem precisar forçar a barra, e nos tornamos capazes de organizar e direcionar sabiamente nossas habilidades.

10 de julho de 2017

Meio-dia



Dia desses eu era um menino
Corria, brincava e virava herói
Um instante depois
Me casei numa manhã de sol
A contraluz
E a sombra do nosso beijo
Se projetava sobre um casal de velhos
De mãos dadas no banco da igreja
Nessa mesma manhã nasceram meus filhos
E meus avós fecharam os olhos
Se guardando no silêncio da espera
Numa mesma manhã
Uma festa, um abismo, uma ponte
Sob o mesmo gracioso e impassível raio de sol
Agora é meio-dia
As crianças cresceram
Nossa sombra se foi
Recolheu-se em nós
E o sol já se deita ao poente
Que será dessa tarde?

Tuco Egg - 2017

10 de abril de 2017

Os mais batutas - 2016

No espantoso ano em que multidões foram às ruas contra a corrupção da esquerda dominante mas conformaram-se como cordeirinhos à corrupção neoliberal. No horripilante ano em que armou-se um esquema para estancar a sangria, com Supremo, com tudo. No nauseante ano em que o esquema consubstanciou-se diante dos olhos de todos, sem nenhum rubor. Nesse triste e desanimador ano, ainda deu pra escrever alguma coisinha e publicar nesse espaço ocioso.

Abaixo, the best of 2016.

- Aldeia global

- Ruim de luta mas bom de briga

- O vertice

- Extermínio

- A polarização desancada

- Porque não fui às ruas (esse texto me causou dor de cabeça suficiente para publicar uma resposta, uma espécie de 'panos quentes', aqui)

- Rodrigo Hilbert leu "O Capital"

- Redimido pela beleza


E, apesar de tudo, estamos em 2017, o ano em que esse blog completa uma década.

5 de abril de 2017

No horror do ruído constante

A praça de alimentação de um shopping center já foi a mais perfeita alegoria da ruidosa realidade desse nosso tempo. Mas nós somos hábeis em aperfeiçoar a tragédia.

O assombro de uma praça de alimentação, evidentemente, jamais residiu no alarido barulhoso e constante daquele ambiente hostil. Como de costume, a verdade não se apresenta nas aparências mais vistosas. O assombro esconde-se na visão plantada na mente de Simond e Garfunkel, 50 anos atrás. Dez mil pessoas, talvez mais, reunidas, mas falando sem dizer, ouvindo sem escutar, escrevendo canções que vozes jamais compartilharam. E ninguém ousava perturbar o som do silêncio.

Pois a encarnação vertiginosa da canção encontrou espaço perfeito nos ambientes virtuais e seus dispositivos móveis. Como em um passe de mágica conseguimos, em um mesmo ambiente e instante, ampliar simultaneamente o ruído e o silêncio. A humanidade todinha reunida, falando sem dizer, ouvindo sem escutar.

Há uma gritaria desconcertante no planeta, e é no horror desse ruído constante que habita o mais canceroso silêncio.




The Sound of Silence: letra e tradução