18 de fevereiro de 2019

O Caminho é um só, mas são dois



Texto base: Mateus 21 a 23
na versão A Mensagem (E. Peterson)

Enfim, depois de três anos de peregrinação, chegou a hora de Jesus ir pra Jerusalém colocar os pontos nos is. E ele é direto, curto e grosso. Na narrativa de Mateus, já chega virando o templo do avesso e botando o pessoal que fazia daquele lugar seu mercado, seu ganha pão, seu ambiente de intrigas, conchavos e barganhas, pra correr. Ele esculhamba todo mundo e todo mundo vaza com o rabo entre as pernas. Furiosos, planejando vingança, mas com o rabo entre as pernas. E eis que depois de séculos o templo se encontra vazio e silencioso. Há dentro dele o espaço que não havia, que há muito havia sido usurpado pelos vendilhões. E, aos poucos, meio sem jeito, vão entrando aqueles que, há séculos, lá não podiam entrar. Cegos, aleijados, rejeitados, impuros, malcheirosos, maltrapilhos, esfarrapados. E Jesus está ali, do lado de dentro, com um sorriso amoroso e braços abertos, convidativos, recebendo cada um, e a cada um curando.

Pense nesse lugar, meu amigo, tente imaginar isso, criar uma imagem mental - como estava, como está agora. E imagine que, nesse ambiente de cura, agora entra um bando de crianças, brincalhonas, sorridentes, livres, correndo de um lado pro outro gritando e cantando "salve o Filho de Davi!". E o templo que era ruído, barulho, intriga, fuxico, negócio, ansiedade, preocupação, frieza, medo, se converte em ambiente de cura, alegria e liberdade. Em casa de oração. Porque, pra Jesus, oração é ambiente de cura, alegria e liberdade. E vice-versa.

Mas a história continua. Não pode parar ali, porque o pessoal do templo volta e ocupa o espaço de novo, sempre. "Tá vendo essa zoeira?", perguntam pra Jesus os caras do templo, indignados. Eles enxergam tudo ao contrário. Pra eles, cura, alegria e liberdade é zoeira, é barulho que eles não toleram. Eles são moralistas, ritualistas, negociantes da fé. Mas Jesus não engole seco, mete bronca mais um vez ("da boca das crianças é que sai o perfeito louvor!") e sai, pra voltar no dia seguinte.

Na saída da cidade, indo pra Betânia, faminto vai até uma figueira viçosa, folhada, mas não encontra nela fruto algum. E seca a árvore com uma triste frase sussurrada.

É domingo, o primeiro dia da última semana de Jesus antes da cruz. Sexta estará pendurado no madeiro, sangrando até a morte.

Nos três dias seguintes, o homem de Nazaré segue pegando pesado. Cada manhã sai da casa de seus amigos em Betânia e vai ao templo. E toda manhã bate boca com os homens do templo. "Os ladrões e as prostitutas vão entrar no Reino antes de vocês". "Meu Reino será tirado de vocês e entregue a outros". "Os distintos convidados não quiseram vir ao jantar, pois agora os convidados, os que terão lugar à mesa, são a ralé das esquinas sujas da cidade". E vai subindo o tom até chamar os caras, na frente de todo mundo, olhando no olho deles, de impostores, mentirosos, estúpidos, arrogantes, um estorvo para o Reino, etc, etc.

Mas no meio dessa confusão toda ele para um instante, vira as costas pros do templo, e fala com o povão: "Tomem cuidado com a hipocrisia desses caras do templo. A Lei de Deus é comida e bebida, mata a fome, sacia, alegra e nutre, mas esses caras fazem dela um fardo pesado que nem eles mesmos carregam. Só querem ser bajulados. Querem poder. Querem comandar e manipular. Querem governar. Empurrar goela abaixo de vocês seu moralismo barato. Não caiam nessa. Não se submetam a ninguém. E jamais queiram ser como eles. Não 'se achem'. Sejam humildes, servos humildes. Porque se você estiver satisfeito em simplesmente ser você mesmo, terá vida plena".

Ah, ser eu mesmo. Isso basta.
Nem mais, nem menos.
Mas, quem sou? Será que sei?
Será que alguém sabe quem é?

Se na última semana de vida Jesus me provoca a ser eu mesmo, três anos antes, no início da sua vida pública, a proposta parece ter sido outra: "se alguém quer me seguir, negue a si mesmo, tome sua cruz, e venha". Que confusão. Ser eu ou negar a mim?

Parece que sou dois.
Há um eu que precisa ser achado.
E um outro eu que precisa ser deixado pra trás.

Há um eu que sou. Que fui feito. Que é imagem e semelhança do criador. Que é sublime.
Há um outro eu que foi sendo feito. Que é fruto da história, da soma dos relacionamentos, dos traumas da infância, da autopiedade, da necessidade de me sentir aceito. Um eu feito de cicatrizes e máscaras. De cascas de ferida e maquiagem.

O chamado para negar a si mesmo é o mesmo que diz seja você mesmo. A jornada do discípulo é, antes de tudo, para dentro de si, pra livrar-se de si mesmo e encontrar seu eu.

Se o Reino de Jesus é o reino do amor, do perdão, da graça, do acolhimento, do abraço, ele precisa ser realizado para o lado de dentro. "O Reino está dentro de nós", diz o rabi da Galileia. Aquilo que recebo de Cristo, devo entregar a mim mesmo, na busca interior de quem eu sou em Cristo.

Seguir Jesus para o lado de dentro.

É nessa jornada de busca interior, onde vou me encontrando no meio dos escombros e, aos poucos, me aceito, me perdoo, me acolho e me amo, que o templo interior se transforma. Somos templo, morada de Deus, e Jesus continua querendo tirar de dentro de cada templo os vendilhões que ocupam o espaço e impedem que surja o ambiente de cura, alegria e liberdade.

O que há dentro de mim? Quem são meus vendilhões? Quais são meus medos e ansiedades, as marcas e feridas que me levam a cobrir-me de máscaras, maquiagens e escudos? Essas perguntas precisam de silêncio e tempo para serem respondidas. Silêncio e tempo diário, frequente, porque o chamado é para um caminho interior sem fim, uma jornada de aprofundamento lento, gradual e constante. É uma trilha estreita, não uma via expressa.

Negue a si mesmo para encontrar-se.
Negue a si mesmo para encontrar seu eu-em-Deus.
Para saber quem é.
Faça disso sua caminhada de fé diária, silenciosa e paciente.
Uma caminhada sua com Deus.
Uma caminhada sua em Deus.

Mas tem também a figueira. Não se pode esquecer da figueira.

Na história de Mateus, assim que o templo se transforma em cura, alegria e liberdade, Jesus seca uma figueira viçosa que não dava frutos pra deixar claro que caminho pra dentro não basta em si. Caminho interior não faz sentido sem fruto. Fruto que serve de alimento pra quem está de passagem.

Quem quer me seguir, negue a si mesmo e venha.
Mas são dois caminhos. Um pra dentro e outro pra fora.

Se o caminho interior gera um ambiente de cura alegria e liberdade em mim, o exterior deve gerar o mesmo ao meu redor. Se fui aceito, perdoado, acolhido e amado por Deus em Cristo, e se agora me aceito, me perdoo, me acolho e me amo, ou vou pelo menos aprendendo a ser assim comigo mesmo, preciso entregar ao próximo o que recebi. De graça recebeste, de graça dai. Não é peso de ordenança, mas fruto de gratidão. Não é condição pra nada, não há nenhum tipo de troca - tenho que fazer pra receber - porque o que recebi veio antes de tudo, de graça, incondicionalmente. E assim, a figueira viçosa e grata estende seus frutos incondicionalmente a qualquer passante. A quem está próximo, ao alcance. De forma incondicional e generosa. Não importa que frutos são. Podem ser pequenos e secos nessa estação, mas se prossigo na caminhada pra dentro e pra fora, eles haverão de vir um pouco maiores e suculentos um dia. Cada estação dá seu fruto, às vezes maior ou menor, mais ou menos suculento, mais ou menos saboroso. Mas está ali e deve ser oferecido aos passantes. Precisa estar à disposição.

O caminho interior vai do "si mesmo" ao "eu-em-Deus".
O caminho exterior vai do "si mesmo" ao próximo.
Um não existe sem o outro. Se não andarem juntos, a figueira seca.
São irmãos siameses.

Minha oração são duas. Se puder e quiser, clique nos links e ore comigo.

A oração do caminho interior:

Poema em Linha Reta + trecho de Tabacaria - https://www.youtube.com/watch?v=8bvULIeonek&feature=youtu.be

A oração do caminho exterior:

Stenio Marcius - Confissões de uma Figueira - https://www.youtube.com/watch?v=Qdkms4P-KZ4

--------------


POEMA EM LINHA RETA
[com trecho de Tabacaria no final]
Álvaro de Campo (F. Pessoa)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história
Para provar que sou sublime.


-------------------


CONFISSÕES DE UMA FIGUEIRA
Stênio Március

Ele veio a mim
Procurando por frutos, veio a mim
Estendeu Sua mão
Percorreu minhas folhas, meus ramos
Nada encontrou
Foi tão triste, mas nada encontrou
Mal podia acreditar
O sol bateu e eu me escondi
A chuva em mim e eu me encolhi
Terra boa nas minhas raízes
Mas eu não frutifiquei
De que me vale tantas folhas
Vistoso verde, inútil e belo
E agora o que é que eu vou dizer
Tive tudo e nada fiz

Ele me falou
Eu retorno na próxima estação
Abandona o egoísmo
Ninguém é o fim de si mesmo
Olha ao teu redor
Tanta gente faminta ao teu redor
Alimenta a multidão
Senhor eu vou me expor ao sol
Às chuvas quero me entregar
Nunca mais assim inutilmente
Ocupar o meu lugar
Eu vou fincar minhas raízes
As águas puras procurar
Quero carregada me encurvar
Com meus frutos Te adorar

12 de fevereiro de 2019

Os mais batutas - 2017 / 2018

Como a tradição é sempre maior que o bom senso, insisto na agora inadequada tarefa de relacionar os mais batutas de A Trilha. Inadequada porque outrora escrevia muito e uma seleção era bem vinda, mas agora escrevo pouquíssimo e a seleção é de todo desnecessária.

Mas, como estamos carecas de saber, tradição não exige necessidade.

Abaixo a lista das 10 melhores publicações de 2017 + 2018 que são, perceba o ridículo, tudo que foi publicado no período.

- A causa da fome
- No horror do ruído constante
- Meio dia
- O novo moralismo de sempre
- A ceia dos covardes
- Poente
- Deus e a inevitável dor de cada um
- #EuSouEles
- A vila e seu diabo
- O Natal que ninguém vê

Se for alguma espécie de presidiário com acesso a internet ou coisa parecida, lutando com alguma forma insana de tédio, clique aqui para ver todos os mais batutas desde 2007.

11 de fevereiro de 2019

O agronegócio matou Abel

Cain and Abel - Leonetto Spada (atribuído) 1612-14 [ clique para ver maior ]


Eu estava na sala de espera de um consultório médico e entre uma dezena de revistas enfadonhas descansava um livrinho interessante, repleto de artigos curtos, ideais para quem aguarda uma consulta, com o intrigante título As maiores invenções da história, ou algo bem parecido. Cada artigo era escrito por algum estudioso, pesquisador, phD e coisa do gênero. O sujeito dava seu palpite sobre a invenção mais emblemática e em seguida defendia sua tese.

O primeiro falava da corrente elétrica, o segundo do telégrafo, o terceiro da prensa e por aí ia. Pelo que se vê, demorou bastante para eu ser atendido. Mas foi ótimo, porque lá pelo quinto ou sexto artigo, me deparei com esse inesperado vaticínio: a invenção das invenções, aquela que virou o mundo de pernas pro ar, de acordo com Colin Tudge, pesquisador do Centro de Filosofia da London School of Economics, foi o arado.

Eu lembro de viajar por dois ou três dias inteiros pelo interior do Brasil em diferentes direções. De Blumenau a Amambai, no Mato Grosso do Sul. Ou até Nobres e Cáceres, no Mato Grosso. Ou ainda pra São Borja, no Rio Grande do Sul. De cima abaixo, o oeste brasileiro é um desolador oceano de soja, pasto e alguns outros commodities. Foram vários os pequenos aviões despejando agrotóxicos que nos sobrevoaram em cada um desses trajetos. Em Jangada e Rosário Oeste cheguei a chorar quando vi emas silvestres correndo naquela horrenda monocultura verde, fugindo da descarga de um desses aviões agrícolas.

Pois isso tudo me veio a mente enquanto lia o artigo de Tudge, além, é claro, de uma série enorme de reportagens denúncia sobre a antropofágica volúpia insana e insaciável do agronegócio brasileiro.

Tudge diferencia a agricultura das atividades de pequena escala, chamadas de pastoralismo e horticultura. Diz, como quem se espanta, que Linconshire, na Grã-Bretanha, ficou entregue a carneiros por dois mil anos, mas agora é cereal e batata de ponta a ponta. Se percorresse os 2 mil quilômetros entre São Borja e Nobres teria um colapso. A horticultura e o pastoralismo de outrora, afirma Colin Tudge, davam conta de suas pequenas comunidades deixando a paisagem mais ou menos intacta. Mas aí veio o arado.

[...] os agricultores do arado pegam a natureza pelo cangote e curvam-na à sua vontade. A flora nativa é reduzida ao solo nu, um mero substrato. A paisagem original não importa. Muitos eruditos sugeriram que a expulsão de Adão e Eva do Éden representa os primórdios da agricultura em larga escala. [...] Creio que o assassinato de Abel por Caim é simbólico do início da agricultura pelo arado: aquele que retalha o solo mata o gentil pastor. Os autores do Gênesis reconhecem claramente a importância disso. Para eles, o revolvimento do solo, a obliteração da paisagem do próprio Deus, era blasfêmia. O solo sulcado é de fato a marca de Caim.

E cá estamos nós, na beira do apocalipse climático, vendo o pecado do Gênesis ainda retalhando a terra enquanto, sem piedade, derrama sangue humano. O agronegócio matou Abel, e segue matando.

14 de janeiro de 2019

Rio alado


Foto de Michael Weidner - Unsplash


Se é verdade que há
Plantado em cada homem
O sonho louco de voar
    Quero voar como rio
Que nasce no oceano profundo
Cresce, vigoroso e turbulento
com os vapores densos da floresta
Corre ao contrário de tudo
Do avesso, de pernas pro ar
E deságua, generoso e violento
No sertão de Guimarães
    Quero ser rio alado
Que dá força e vida à vastidão interior
E arranca do que seria deserto
A abundância de vida, aromas e cores
Do cerrado

---
Tuco Egg - 2019

. . . Saiba mais sobre Rios Voadores [e porque precisamos exigir, do governo e do agronegócio, nada menos que desmatamento ZERO] clicando aqui.

23 de dezembro de 2018

O Natal que ninguém vê

Imagem: Nativity, de Grechetto [ veja os detalhes em tamanho realmente grande aqui ]

Numa noite fria do inverno palestino uma estrela surgiu no céu. Era o mesmo céu visto por uma multidão, mas ninguém percebeu a estrela a não ser os misteriosos magos do oriente. Talvez fossem seguidores de Confúcio ou Buda. Talvez taoistas ou hinduistas iogues, dármicos, vedantas, védicos ou bhaktis. Eram essas as religiões do oriente à época e os caras eram magos do oriente, meus amigos, e o cristão tradicional tem que engolir essa parada a seco. Eles viram e ninguém mais viu. O que os fez ver? Por que só eles?

Aos pastores de ovelhas nos arredores de Belém, Deus enviou um coral inteiro de anjos, porque só a estrela os caras nem teriam visto. E ainda assim, gente do céu, um coral de anjos cantou numa silenciosa noite de um pequeno povoado e só os pastores viram, só eles ouviram. Irrelevantes pastores do turno 3. O que os fez ver? O que cegou os outros? Não tinham ouvidos pra ouvir?

Quase dois meses depois o Deus bebê foi levado ao templo como manda o figurino. José e Maria vieram caminhando, trazendo o menino no colo. Mais um casal, entre tantos, vindo apresentar um bebê no templo, ignorado por todos, cumprindo as regras de Moisés. E a galera lá, indo e vindo, carregando ofertas, conversando, fofocando, falando mal de alguém como acontece no salão de todos os templos desde que se ergueu o primeiro.

E eis que surge, sabe-se lá de onde, um velho e uma velha, já com um pé na cova, esgualepados e esquecidos. O velho, louvando a Deus, pega o menino entre risos e lágrimas por ter visto o que ninguém viu. E a velha ao lado cantando feito doida sem tirar os olhos de um bebezinho insignificante entre tantos que todos os dias passavam por ali. Como eles viram? Como souberam? Por que ninguém mais viu?

Não é a toa que Jesus diz que nele “se cumpriram as escrituras”, enquanto lê no texto de Isaías que o messias veio para “restaurar a vista aos cegos”.

Ah, menino da manjedoura, quero estar entre os que vêem. Cura meus olhos. Tira a venda. Arranca as escamas. Quero ver aquela estrela entre milhares. Quero ouvir o canto dos anjos que cantam sempre, sem parar, dia após dia ao meu redor. Quero ouvi-los de novo e sempre. E que a estrela e os anjos me conduzam à simplicidade da estrebaria. E quando você passar ao meu lado, ah! menino Deus, que não passe despercebido, que eu o reconheça e que jamais o perca de vista.


- Não deixe de ouvir, em oração, a trilha musical perfeita para essa publicação: Estrela, estrela - Vitor Ramil.



Tuco Egg | 2018