16 de março de 2017

A causa da fome


É impossível, para quem assiste TV, livrar-se da onipresença dos programas de culinária. Tem para todas as idades e gostos, em todos os horários. Dos mais sofisticados aos mais pé-de-chinelo. Dos mais naturebas aos mais gordurosos. Dos mais fitness aos mais fatness. Comida é o tema. Isso enquanto uma criança morre de fome a cada 5 minutos, segundo a ONU. Há um problema estrutural no nosso mundinho com o qual temos convivido pacificamente, em detrimento da morte de milhões - não por violência, não por guerra, não por nada menos que fome, ausência de comida suficiente para manter-se em pé.

“A pobreza é só a moldura, a causa principal da fome é a riqueza – de poucos, a nossa”.

Em Kampala, Uganda, 2017. Foto Tato Egg.

Quando estávamos em Kyebando, um bairro pobre de Kampala, capital de Uganda, visitamos Appoline, uma refugiada congolesa. Perguntamos onde estavam seus filhos, se poderíamos conhecê-los. "Não dá", ela respondeu, "saíram cedo pra rua, procurar comida". Nos disse isso com toda naturalidade do mundo. As crianças não vêem pra casa comer, porque não há o que comer em casa. Saem à luta, um dia após o outro, na esperança de conseguir algo.

Enquanto isso, “vivemos na era da comida. A alimentação nunca ocupou um lugar tão importante na nossa vida; o business da comida nunca produziu tanto dinheiro; nunca houve tanta comida. Nunca houve tanto alimento não comido. Não digo somente pelo desperdício – enorme – das nossas sociedades, em que mais de um terço dos alimentos acaba no lixo; o digo sobretudo por essa nova característica da comida, transformada em espetáculo”.

"Foi em 1980, revela Caparrós, que o FMI e o Banco Mundial, com o Consenso de Washington (que estipulou dez regras para o ajustamento macroeconômico dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades), convenceram os governos africanos, por meio de ameaças com a dívida externa, de reduzir a ingerência estatal em vários setores, partindo da agricultura. Colheitas reduzidas? Carestia? Nada de subvenção. Foi a condenação à morte por fome de milhares de africanos, explica o escritor. Enquanto isso, nos Estados Unidos e na Europa os governos subvencionavam os seus agricultores em cerca de 300 bilhões de dólares ao ano. (...) São esses subsídios que permitem baixar o preço dos grandes produtores e levar à falência os pequenos."

Há um problema estrutural no nosso mundinho, com o qual não deveríamos conviver pacificamente.

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Leia tudo sobre "A fome na era da comida-espetáculo" clicando aqui.
Saiba porque fomos à Uganda clicando aqui.

10 de novembro de 2016

Bruma



Nasce a manhã branca e densa
Densa como um manto pesado e inerte
Que se impõe diante de meus olhos
E sequestra o horizonte
E os montes, e o mato
E me coloca diante do vazio
Num hiato do tempo-espaço
No angustiante nada

Até que por trás de mim
Nessa manhã branca e densa
Surgem os raios amarelos do sol
Me aquecendo as orelhas
E o manto branco e denso brilha intenso
Como emitisse agora sua própria luz 
E mansamente,
De forma muito, muito sutil
Começa uma dança lenta,
Suave, sinuosa, sensual
Com movimentos discretos
Abrindo suas tramas d’água
Revelando transparências
Como voal embalado na brisa
Enquanto desnuda
   [ À pouco ainda velados
   Agora exuberantes ]
Planos, cores, perfis
Distâncias, movimentos...
E vida


Novembro de 2016

25 de outubro de 2016

Anônima fama

Taí, pra registro histórico, das coisas que já disse a que fez mais sucesso. Tá certo que em algum momento alguém tirou o crédito que constava no rodapé da imagem, mas o anonimato redime a fama.


Meu crédito foi pro beleléu, mas eu não vou deixar de creditar o meu amigo Hernan Pimenta, que gentilmente me marcou na postagem do guerreiro Jean Wyllys no Facebook.

Aqui o link para a imagem original que, além do crédito, tá com a resolução mais bem cuidada.


Que a desgraça graceje

15 de setembro de 2016

Mataram meu vizinho



Descobri essa manhã que durante a madrugada meu vizinho foi morto de modo monstruoso. Não houve assalto, porque não havia o que assaltar. Meu vizinho foi queimado vivo e seu corpo foi encontrado carbonizado em casa. E eu, lamentavelmente, nunca soube seu nome.

Ele morava debaixo da marquise do Grande Hotel, em frente ao edifício onde trabalho. Eu o via todas as manhãs dormindo em um colchão velho entre papelões. Cumprimentei-o diversas vezes, mas jamais perguntei seu nome. Ele tinha nome, certamente, e uma história. Foi sua história, que devia ser bela e dura, porque absolutamente todas as histórias são belas e duras, que o conduziu, sabe-se lá por quê, à solidão daquela marquise, e às mãos estendidas nas esquinas atrás de algum trocado.

Ele foi queimado vivo bem aqui em frente. Foi riscado do mapa por alguém que riscou um fósforo. Assim, banal, como quem queima um saco de lixo. Mas ele era meu vizinho!

Houve alguém que ateou fogo no meu vizinho enquanto ele dormia e é aterrador que haja alguém assim, que risca um fósforo para obliterar um homem em chamas. Mas é terrível também que eu, que o via todas as manhãs, jamais tenha sabido quem ele era, nem lhe perguntado o nome, muito menos lhe estendido a mão.

Dia triste de luto e dor. Pela história do meu vizinho que jamais conhecerei, por quem ele era e nunca saberei, e por quem eu sei, miseravelmente, que sou.