10 de novembro de 2016

Bruma



Nasce a manhã branca e densa
Densa como um manto pesado e inerte
Que se impõe diante de meus olhos
E sequestra o horizonte
E os montes, e o mato
E me coloca diante do vazio
Num hiato do tempo-espaço
No angustiante nada

Até que por trás de mim
Nessa manhã branca e densa
Surgem os raios amarelos do sol
Me aquecendo as orelhas
E o manto branco e denso brilha intenso
Como emitisse agora sua própria luz 
E mansamente,
De forma muito, muito sutil
Começa uma dança lenta,
Suave, sinuosa, sensual
Com movimentos discretos
Abrindo suas tramas d’água
Revelando transparências
Como voal embalado na brisa
Enquanto desnuda
   [ À pouco ainda velados
   Agora exuberantes ]
Planos, cores, perfis
Distâncias, movimentos...
E vida


Novembro de 2016

25 de outubro de 2016

Anônima fama

Taí, pra registro histórico, das coisas que já disse a que fez mais sucesso. Tá certo que em algum momento alguém tirou o crédito que constava no rodapé da imagem, mas o anonimato redime a fama.


Meu crédito foi pro beleléu, mas eu não vou deixar de creditar o meu amigo Hernan Pimenta, que gentilmente me marcou na postagem do guerreiro Jean Wyllys no Facebook.

Aqui o link para a imagem original que, além do crédito, tá com a resolução mais bem cuidada.


Que a desgraça graceje

15 de setembro de 2016

Mataram meu vizinho



Descobri essa manhã que durante a madrugada meu vizinho foi morto de modo monstruoso. Não houve assalto, porque não havia o que assaltar. Meu vizinho foi queimado vivo e seu corpo foi encontrado carbonizado em casa. E eu, lamentavelmente, nunca soube seu nome.

Ele morava debaixo da marquise do Grande Hotel, em frente ao edifício onde trabalho. Eu o via todas as manhãs dormindo em um colchão velho entre papelões. Cumprimentei-o diversas vezes, mas jamais perguntei seu nome. Ele tinha nome, certamente, e uma história. Foi sua história, que devia ser bela e dura, porque absolutamente todas as histórias são belas e duras, que o conduziu, sabe-se lá por quê, à solidão daquela marquise, e às mãos estendidas nas esquinas atrás de algum trocado.

Ele foi queimado vivo bem aqui em frente. Foi riscado do mapa por alguém que riscou um fósforo. Assim, banal, como quem queima um saco de lixo. Mas ele era meu vizinho!

Houve alguém que ateou fogo no meu vizinho enquanto ele dormia e é aterrador que haja alguém assim, que risca um fósforo para obliterar um homem em chamas. Mas é terrível também que eu, que o via todas as manhãs, jamais tenha sabido quem ele era, nem lhe perguntado o nome, muito menos lhe estendido a mão.

Dia triste de luto e dor. Pela história do meu vizinho que jamais conhecerei, por quem ele era e nunca saberei, e por quem eu sei, miseravelmente, que sou.

19 de agosto de 2016

1998 - O ano em que iMacs voaram



Era 1998 e o Steve Jobs lançava a grande inovação da época: a primeira versão do estiloso iMac. A euforia era semelhante à causada hoje pelos iPhones, apesar de enormemente mais restrita, já que a Apple, naqueles dias, tinha um mercado muitíssimo reduzido. Mas o mundinho besta da publicidade já era afetado pela Apple Mania, e entre as agências de propaganda o frisson era perceptível à distância.

Então chegou na agência um convite da Adobe, em parceria com a Apple, para um Workshop sobre a ferramenta de sincronização de cores que eles estavam lançando, e iria revolucionar o mercado pela capacidade única de eliminar as eternas dores de cabeça dos Diretores de Arte na hora de calibrar seus trabalhos para os vários tipos de saída (impressão offset, tela, plotters, etc).

O convite trazia consigo o irrefutável apelo de oferecer o sorteio de um iMac no fim do Workshop, para os que estivessem presentes. Eu não queria ir, mas fui convencido pelo apelo. Eu não queria nem um iMac, porque já era um rabugento defensor dos PCs e nutria, com ainda nutro, um muito bem fundamentado nojo do status intimamente ligada à marca da maçã. Mas o bicho era caro e seria uma venda fácil. Convite aceito.

O negócio aconteceria na sala de conferências do Grande Hotel Rayon, na Visconde de Nacar. Não sei em que condições o tal hotel se apresenta hoje mas, no final do século passado, era lugar novo, cheiroso e chique. O hall de entrada enfileirava, e colocava à disposição de todos, cinco iMacs e suas cores maravilhosas. E fazia-se fila para tocá-los. Mas o convite era para um Workshop, e lá estávamos nós, nos acomodando nas cadeiras estofadas do sofisticado estabelecimento. Acontece que logo que o representante da Adobe começou a falar já ficou evidente para todos que o assunto era técnico até o nível do absurdo. Parecia uma palestra de física quântica, cheia de espectros de cores e suas profundidades, números pra todo lado, gamas, gráficos, esquemas e equações. E a platéia, importante frisar, era quase toda composta por Diretores de Arte de agências de propaganda. E, caso você não saiba, esses caras são letrados no nível básico. O máximo que já leram são as duas primeiras frases do Lorem Ipsum, e até hoje não perceberam que o texto não está em português, porque tudo que lêem parece mesmo com lorem ipsum dolor sit amet. Números, meu Deus, se tiverem mais de dois dígitos são imediatamente interpretados como rabiscos incompreensíveis. Em 15 minutos, aqueles que permaneciam acordados começaram a debandar. E eu ia contabilizando as saídas e pensando nas chances cada vez maiores de ganhar o iMac.


Houve um belo momento de refrigério, para consolo de todos, com os deliciosos canapés do cofee break, mas durou pouco. Os 150 que chegaram no saguão do hotel às 20h, já estavam reduzidos a cerca de 50. Voltamos à tortura lancinante do parlatório e pelo menos mais 20 saíram antes do final. Eu havia ligado o modo proteção de tela e resisti com bravura hercúlea até o último round.

E veio, enfim, o grande momento. Éramos pouco mais de 30 surrados sobreviventes aguardando o sorteio com o rabinho abanando. O palestrante puxou um nome, mas era um dos desertores. Veio um segundo, terceiro e lá pela quarta ou quinta tentativa saiu o Fulano de Tal, e alguém berrou no meio da galera:

"Eh! Peraí, peraí. É meu amigo, ele foi no banheiro. Vou chamar", e saiu correndo porta afora, sob os protestos dos ficantes.

"Não vale!" "Não pode!" "Tinha que estar presente!" "Dançou!" "Pega outro!" "Próximo!".

E o clamor do povo apelava para a letra inflexível das regras. Dura lex, sed lex. O palestrante puxou o nome de Cicrano e, já de primeira, encontrou o felizardo presente no recinto. O homem pulava que nem criança sentindo-se redimido dos horrores da horas anteriores, quando no meio da euforia, Fulano de Tal surge ofegante e sorridente, ainda abotoando o botão da calça. E acontece que Fulano era um lutador, um brasileiro desses que não desiste nunca. E começou a clamar por justiça, apelando para a impossibilidade de negar os apelos do ventre que o arrancaram do recinto justamente no momento decisivo. Mas clamavam sozinhos ele e o amigo, contra todos os demais. Percebendo-se sem a menor chance de reverter a situação, Fulando de Tal lançou aos ares, a plenos pulmões, toda uma riquíssima qualidade de impropérios enquanto deixava os presentes observando em silêncio a desgraça alheia.

Pois foi quando a situação parecia resolvida que ouviu-se os ruídos de plásticos e vidros e metais como que se espatifando no chão e, entre os ruídos, a voz de Fulano disparando mais uma rajada de obscenidades, mostrando que, apesar de Diretor de Arte, o sujeito tinha um vocabulário generosamente amplo. Evidentemente a galera toda correu para o hall de entrada do anfiteatro ainda a tempo de ver o voo do último iMac antes deste juntar-se aos cacos dos demais espalhados pelo chão de mármore do Grand Hotel Rayon. Pessoal da Apple achou bastante deselegante a atitude do Fulano e, além de berrar daqui outra sorte de palavras torpes, saiu correndo atrás do camarada, pedindo auxílio dos seguranças do Hotel, no que foram prontamente atendidos. E a galera ficou ali na entrada do Grande Hotel, vendo Fulano correndo no meio da Visconde de Nacar sendo perseguido pela Apple e por seguranças brutamontes, imaginando que a angústia daquele workshop horroroso foi, enfim, no frigir dos ovos, amplamente recompensada.

Nos meses que se passaram, em qualquer lugar de Curitiba onde houvesse mais de dois publicitários, o assunto era o mesmo. Fulano de tal não foi mais visto em lugar algum. Surgiram inúmeras versões de desfecho para história e, até onde sei, ninguém nunca soube qual delas aproximava-se mais da verdade.