26 de maio de 2011

Verticalidades

Tente imaginar um gigantesco bloco de granito projetando-se a partir do solo verticalmente na direção das estrelas. Seis centenas de metros verticais de rocha cinza esticando-se como quem quer alcançar a lua, tocar os astros com seu cume crespo, fragmentado pela incidência incansável de tempestades magnéticas. Pense que seicentos metros equivalem a um edifício de duzentos andares. Agora tente imaginar um homem solitário no meio dessa parede gigantesca, agarrado à fendas, fissuras, buracos, cristais, reentrâncias e saliências da pedra, subindo passo a passo, mãos e pés lascados, moídos pelo atrito, pela pressão da pele na superfície áspera da rocha. Trezentos metros o separam do chão. Outros trezentos o separam do cume. E ele prossegue, metro a metro, içando o próprio corpo com passos de alucinate balé vertical. A trilha sonora para essa cena não é o eletrônico besta dos programas de TV com nomes de adrenalina radical ou coisa semelhante. A trilha, para quem assiste a cena de longe, é uma ópera! Mas para o homem agarrado ali, a trilha é o silêncio profundo soprado pelo vento gelado, rompido somente pela própria respiração calma, profunda, ofegante, arfada, extasiada, assustada, arrependida, maravilhada, apavorada, feliz, corajosa, convicta, reticente...

O horizonte desse homem é infinitamente maior do que o de alguém com os pés firmes no chão. O vazio que o rodeia assemelha-se ao infinito, a linha do tempo se rompe e o eterno envolve seus passos firmes na direção do topo.

E o homem prossegue, lentamente, passo a passo, acalentado pelo abraço terno do silêncio e da solidão profunda que o levarão ao mesmo tempo para o topo e para dentro de si. E não vê a hora de chegar lá.

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