29 de junho de 2016

Maestro Gaya

Recebi de presente da Ieda Egg uma porção de recortes da Stellinha e do Gaya. Fui separando, lendo, matutando e considerei essa matéria da Tribuna Bis bacana demais para permanecer numa gaveta. Segue então a transcrição da reportagem, com gratidão à confiança da Ieda em colocar nas minhas mãos aquilo que por anos guardou com carinho.

Sugestão: clique aqui e tenha como trilha sonora de sua leitura a Rapsódia sobre temas de Chico Buarque, com arranjos do Gaya.

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Transcrição de reportagem de Arnaldo Souteiro - 11/nov/87

Maestro Gaya:
O Brasil perde um de seus maiores arranjadores
Arnaldo Souteiro

Faleceu recentemente, em Curitiba, vítima de um derrame cerebral que o fez paralisar suas atividades há cerca de 1 ano, o maestro Gaya, um dos mais importantes arranjadores brasileiros de todos os tempos. Também compositor, pianista, regente e pesquisador do nosso folclore, Gaya desenvolveu uma brilhante carreira de inestimável valor para o enriquecimento da música brasileira. Atuou como arranjador e/ou regente em mais de cem discos de nomes como Chico Buarque, Sylvia Teles, Maria Bethânia, Paulinho da Viola, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Taiguara, Dick Farney, Maysa e Milton Nascimento, entre muitos outros. Como líder, gravou 20 LPs, compôs músicas para filmes, shows e peças teatrais, fez várias excursões pela Europa ao lado da esposa, a cantora Stellinha Egg, e teve papel destacado no lançamento da bossa nova.



Entretanto, como todo mundo já sabe que vivemos num país sem memória, desde que Gaya "saiu de cena" em 85, ele foi rápida e completamente esquecido. Tanto que a notícia de sua morte não mereceu uma linha sequer nas colunas da crítica autointitulada "especializada", preocupada somente em exaltar as produções descartáveis. Há muito não víamos tão imperdoável injustiça para com a figura de um gênio como o maestro Gaya, um artista que se tivesse nascido nos Estados Unidos seria aclamado como um Duke Ellington ou Count Basie. Na verdade, porém, se fôssemos enveredar por esse tipo de comparação, Gaya ainda seria mais fabuloso, pois jamais esteve preso a um estilo de música, caracterizando-se por um ecletismo e um senso de contemporaneidade sem precedentes.

O maestro Gaya que gravou seu primeiro LP fazendo música para dançar, em 56, esteve apto a revolucionar os padrões de orquestração com o álbum "Amor de Gente Moça", em 59, e foi o pioneiro na utilização dos sintetizadores no início dos anos 70. Incrivelmente versátil, mostrava-se capaz de, com igual categoria, fazer arranjos para discos de histórias infantis e, no mês seguinte, viajar para Polônia a fim de reger a Filarmônica de Varsóvia. Logo depois, podia perfeitamente voltar ao Brasil e preparar gravações de músicas para o carnaval. Vale frisar que, por mais inacreditável que possa parecer, cada um desses projetos era tratado por Gaya com a mesma seriedade, com seu ecletismo jamais implicando realizações superficiais.

Numa época em que a maioria dos arranjadores possuía formação extremamente acadêmica e postura conservadora, Gaya esbanjava criatividade, explorando novas harmonias e novos ritmos. Artista não convencional por exemplo, sempre esteve livre de dogmas, evoluindo constantemente. Sem a menor tendência para o "estrelismo", nunca se preocupou em deixar uma farta produção como compositor - "esse negócio de escrever 12 concertos, cinco sinfonias ou 30 sonatas nunca fez minha cabeça", ele próprio costumava dizer - preferindo colocar no papel somente aquilo que o inspirava. Nesse caso, podia ser tanto um tema folclórico como o que gerou a música "Pregão", um dos grandes sucessos de Stellinha Egg, ou a notável obra "Ostinato Tetrafônico", por ele apresentada na Sala Cecília Meirelles.

A biografia de Gaya revela-se também fascinante na parte extramusical. Nascido em Itararé, Estado de São Paulo, a 6 de maio de 1921, Lindolpho Gomes Gaya quase se tornou profissional de futebol, chegando a jogar pelo Santos, Portuguesa, São Paulo, Palmeiras e no Fluminense do Rio, time pelo qual sagrou-se, diversas vezes, campeão carioca de xadrez. Tudo isso porque, conforme declarou em entrevista exclusiva à TRIBUNA DA IMPRENSA, em 11 de setembro de 79, "naquele tempo, ninguém imaginava que se pudesse viver de música. A ideia era escolher uma profissão e estudar música como um hobby, o que me fez perder alguns anos em outras atividades. Tocava piano desde os 7 anos e, com 12, vim para o Rio estudar composição e arranjo no Conservatório de Música, mas sem maiores pretensões".



Incrivelmente versátil, mostrava-se capaz de, com igual categoria, fazer arranjos para discos de histórias infantis e, no mês seguinte, viajar para Polônia a fim de reger a Filarmônica de Varsóvia




Tendo professores do porte de Newton Pádua e H. J. Koellreuter, este último sendo responsável também pela formação teórica de Guerra Peixe, Edino Kriger, Marlos Nobre e Tom Jobim, Gaya pouco a pouco foi ganhando confiança na possibilidade de seguira a "carreira de músico". Como havia treinado a chamada "transposição", isto é, o exercício de tocar em todos os tons uma mesma melodia, ele não encontrou dificuldade em conseguir trabalho como acompanhante em programas de calouros. Depois vieram os primeiros contratos como pianista e arranjador na Rádio Clube, Rádio Tupi e Nacional, quando então sentiu-se seguro para deixar o emprego de funcionário no Banco Boavista. Em seguida, formou seu primeiro conjunto para atuação nas boates Monte Carlo e Casablanca e, em 46, fez os primeiros arranjos para  RCA.

Nos anos 50, Gaya estreou como autor de trilhas sonoras nos filmes "Aí Vem o Barão" e "Tudo Azul", além de vencer o concurso de Música Popular Brasileira, patrocinado pelo jornal "O Globo" e a revista Radiolândia, com a composição "Brasil", interpretada por Jorge Goulart. Produziu durante 2 anos, para a TV Rio-Canal 13, e por 1 ano, na TV Continental, um programa no qual apresentava diversos aspectos do Brasil através de filmes relacionados com os temas das canções interpretadas por Stellinha Egg. O casal decidiu, então, excursionar pelo exterior, partindo de início para a Europa, onde a gravação de duas músicas de Caymmi, cantadas por Stellinha com arranjo de Gaya, alcançou significativa repercussão.

Viajaram por toda Europa, apresentando-se em teatros, boites e espaços ao ar livre, inclusive pelos países da Cortina de Ferro. Na Polônia, foram convidados especiais do Governo, participaram do júri do concurso instrumental da Festa da Juventude, do Congresso de Folclore, e Gaya regeu a Filarmônica de Varsóvia no Palácio da Cultura e no Teatro La Gwardia. Na União Soviética, Gaya regeu as orquestras do Teatro Strada e da Sala Tchaikowsky, em Moscou, aparecendo ainda tocando chorinhos de sua autoria no filme Folclore de Cinco Países. Na França, além de fazer arranjos para a orquestra de Ray Ventura, ele gravou dois discos e trabalhou como diretor musical do filme La Belle Aventure, estrelado por Stellinha Egg sob a direção de Robert Mariaux.

De volta ao Brasil, Gaya lançou seu primeiro LP como líder, em 56, "Em Tempo de Dança". Tocando órgão elétrico, liderando seu próprio conjunto, selecionou um repertório que estampava sua versatilidade, incluindo desde "El Dia Que Me Quieras" até "Despedida de Mangueira", passando por "On The Street Where You Live". O sucesso levou a RCA a pedir um segundo volume, e depois Gaya transferiu-se para a Odeon, lançando vários compactos e três LPs: "Dança Morena", "Boa Viagem" e o ousado "Um Brasileiro em Paris", com clássicos da música francesa como "La Vie En Rose", "La Mer", "J'Attendrai" e "C'est Si Bon" adaptados em ritmos de samba, baião, toada e chorinho.



Gaya redescreveu os padrões de orquestração de música brasileira, não só no aspecto da instrumentação, mas na abordagem total das composições




Em 59, Gaya participou do antológico "Amor de Gente Moça", gravado por Sylvia Telles com músicas de Tom Jobim. O disco tornou-se um marco da bossa-nova, principalmente devido aos arranjos inovadores de Gaya, pela primeira vez usando violinos, harpas, vibrafone e trompas num disco do gênero. Assim como Gil Evans revolucionou a "linguagem" das big bands nos álbuns de Miles Davis, Gaya redescreveu os padrões de orquestração de música brasileira, não só no aspecto da instrumentação, mas na abordagem total das composições, valorizando-as invariavelmente. "A bossa-nova era um movimento muito requintado harmonicamente, pois seus criadores tinham formação jazzística. Acontece que, desde o início da minha carreira, me interessei principalmente por harmonia e, quando a bossa surgiu, eu já estava com uma concepção harmônica mais avançada que os outros arranjadores", explicou Gaya na já citada entrevista a este colunista.

Nos anos 60, a fama de Gaya cresceu junto com a bossa nova, embora o maestro não permanecesse exclusivamente ligado a este estilo. Reconhecido como principal arranjador do período, era solicitado pelos maiores intérpretes, sem poder atender a todos os chamados. Entre os inúmeros trabalhos, destacam-se arranjos para LPs de Sylvia Telles (Sing Mr Jobim), Chico Buarque (incluindo as orquestrações originais de "Carolina", Roda Viva, Retrato em Branco e Preto), o antológico disco de Edu Lobo com Maria Bethânia, vários álbuns de Maysa, Rosa Toledo, Pery Ribeiro etc. Sem falar do encontro com Dick Farney num primoroso álbum instrumental com destaque para o demencializante arranjo de "Influência do Jazz".

Em 65, Gaya atendeu ao convite de Aloysio de Oliveira para preparar um LP tipo exportação, para o selo Reprise, nascendo daí um de seus melhores trabalhos. Recrutando músicos como Eumir Deodato, Oscar Castro Neves, Maurício Einhorn, Jorginho e Edison Machado, ele gravou arranjos jamais superados de temas como "Berimbau", "Chuva" e "Preciso de Você". Entretanto, o álbum, que até hoje está em catálogo no States, foi lançado por alegadas "razões comerciais" com o nome de Tom Jobim na capa. Mais uma injustiça, mas Gaya nem se importava e seguiu em frente dedicando-se aos Festivais Internacionais da Canção. No I FIC, fez a maioria dos arranjos dos 36  finalistas, atuou como regente nas três etapas das partes nacional e internacional, e acabou levando o prêmio de "melhor arranjador" por "Saveiro", a grande vencedora na interpretação de Nana Caymmi.

Nos festivais seguintes, continuou trabalhando intensamente, aproveitando o sucesso de suas orquestrações para gravar dois LPs como líder para a Philips: "O Grande Festival" e "Os Maestros Premiados" (dividido com Rogério Duprat). Também na Philips, registrou a belíssima "A Grande Valsa Brasileira" e fez arranjos para discos de Nara Leão ("Pede Passagem" entre eles). De 68 a 78, ocupou o cargo de diretor musical da Odeon, supervisionando dezenas de gravações, assinando arranjos para Paulinho da Viola (de sucessos como "Sinal Fechado", "Foi um Rio Que Passou em Minha Vida", "Guardei Minha Viola"), Alaíde Costa, Evinha e inúmeros outros, além de atuar como regente para Egberto Gismonti em várias faixas do álbum "Carmo", Milton Nascimento e Som Imaginário.



O respeito do meio musical por Gaya era tão grande que mesmo outros arranjadores como João Donato solicitavam sua contribuição.




O respeito do meio musical por Gaya era tão grande que mesmo outro arranjadores como João Donato solicitavam sua contribuição. Em certo discos, seu trabalho até superava o do intérprete principal, valendo como exemplo o LP "Enluarada Elizeth", no qual colocou lado a lado "Melodia Sentimental" de Villa Lobos e uma seleção de sambas da Mangueira. Nesta gravação surpreendeu a todos quando disse não ter preparado arranjo algum para a música "Demais", de Jobim, pois achava que Elizeth deveria cantá-lo à capela. Gaya assinou ainda os arranjos do último disco de Mário Reis (em 71, com clássicos de Sinhô e Ismael Silva), Maysa e Carlos Galhardo, mas só veio a produzir pela primeira vez em 79, idealizando o LP "João Dias Interpreta Adelino Moreira". Quando os shows no Canecão exigiam uma grande orquestra, Gaya era chamado, e assim participou dos espetáculos de Elizeth, Amália Rodrigues, Maysa e o que reuniu Chico e Bethânia.

A medida em que ia se afastando dos estúdios, dedicava-se mais aos shows com Stellinha Egg, percorrendo todo o Brasil, de 75 a 79, com o espetáculo "Andanças". Isto dava a chance de ouvirmos o talento de Gaya como pianista, em arranjos notáveis como o do "Samba De Uma Nota Só", que extasiava a plateia. Como compositor andava experimentando o politonalismo, que considerava um "ovo de Colombo". Infelizmente, não chegou a colocar tais ideias num disco que apenas começou a preparar e seria o primeiro desde "Super Bem" (em 69) e "Gaya" (em 70, um marco da utilização de sintetizadores no Brasil). Seus últimos arranjos foram para o grande amigo Taiguara (que acompanhou desde sua estreia no I FIC, com "Não Se Morre De Mal De Amor") e para João Gilberto (em "Canta Brasil", encerramento do disco com o Especial feito para TV).

A partir de 85, os problemas de saúde agravaram-se, surgindo uma deficiência circulatória associada a enfisema pulmonar. Gaya e Stellinha mudaram-se para Curitiba, onde ela nasceu. E lá ele faleceu, esquecido pelo meio musical ao qual dedicou sua vida. Sabemos que será difícil isso acontecer, mas aproveitamos para sugerir que algumas das várias gravadoras às quais Gaya esteve associado relance seus melhores discos ou organize uma coletânea com seus arranjos.

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Biografia completa do Gaya aqui.
Mais do Gaya nA Trilha, aqui.
Mas ainda do Gaya, nessa página do Facebook.

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