11 de julho de 2026

Tua presença vai me transformar

 Ah, essas playlists.

Lavando a louça, dia desses, ressurgiu diante de mim essa canção do Gerson Borges (no link do texto ou abaixo). 

Na primeira estrofe, fui tocado por uma beleza redentora.
Nas seguintes, por um estranhamento. 

Explico.



Parte 1. A beleza
Só de estar em tua companhia 
Meu coração já começou a mudar 
Passei a ver aquilo que não via 
Tua presença vai me transformar 

A presença de Deus muda a gente. Esses momentos em que, no meio do zumzumzum da vida, dos ruídos constantes e estressantes (incluindo, aqui, o zumzumzum dos 'eventos de falar de Deus' que, no fim das contas, são, acima de tudo, eventos), damos de cara com o silêncio tocante da Presença que transforma. 

Aí vem a segunda e terceira estrofes. 

Parte 2. O estranhamento 
E quando eu te buscar 
Eu vou me desligar 
Desta Cidade Morta 
Desta Humanidade torta 
Quero ser alguém que ora
Que na vida te adora
Quero ser alguém profundo
Que não ame este mundo 

Que dicotomia é essa? – foi a primeira coisa que me veio à mente. 

Há décadas essa dicotomia me incomoda. Essa divisão entre eu e eles. Entre sagrado e profano. Uma divisão elitista, origem de tanta sobreba religiosa, de tanto julgamento e condenação ao longo de toda a história do cristianismo. 

Uma dicotomia que, já no primeiro século, incomodava também Paulo de Tarso, que saía escrevendo carta pra tudo quando é lado combatendo essa distorção da fé que deveria se fundamentar em Cristo, combatendo o tal do gnosticismo – o pensamento platônico radicalizado, nascido de um sopão de crenças, uma mistura amalucada de pensamento grego, misticismo oriental e judaísmo com a então recém chegada 'fé cristã'. 

Se para Platão o mundo físico era uma cópia imperfeita do mundo do pensamento ou do espírito (mundo ideal), para os gnósticos o mundo físico era mais que imperfeito – era essencialmente mal. 

E, desse gnosticismo, damos um salto para o moralismo angustiante da igreja de hoje, que soma àquela sopa de crenças a nova religião universal – a riqueza tipo ostentação do capitalismo consumista edônico do século 21. E está feita uma suruba incompreensível de moralismo que condena a carne com a expressão mais pornográfica de perversão – a grana, a performance, o sucesso. 

Fiquei remoendo esse negócio, esse atrito entre a beleza da primeira estrofe e o estranhamento da segundo. E lembrei de uma coisinha simples que aprendi lá na adolescência, nas minhas tentativas de me entender com a fé: a gente tem que ler o evangelho contra nós mesmos

Parte 3. O reencontro 
Lembrei que a bíblia deve ser lida sempre contra eu mesmo. 
A cidade morta é a cidade que habita em mim. 
A humanidade torta é o desumano que habita em mim. 
Perenemente. Potencialmente. Como constante pulsar latente. Pronto a eclodir. 

Se eu quero ser alguém que não ame esse mundo… que mundo é esse que não devo amar, se não o mundo que se forma e reforma o tempo todo dentro de mim, que me afasta do outro e me volta para o eu mesmo sempre? 

Eu mesmo que é diferente do eu em Deus.
“O bem que eu quero eu não faço mas o mal que não quero, esse faço”

Essa disputa existe sempre dentro de mim. Não é à toa que Jesus diz coisas aparentemente conflitantes como: se alguém quer me seguir, negue a si mesmo, tome sua cruz, e venha (Mt 16.24) e “se você estiver satisfeito em simplesmente ser você mesmo, terá vida plena” (Mt 23.12). 

A gente não pode nunca esquecer da importantíssima diferença entre o eu em Deus, a forma como fui feito (“eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Sei disso muito bem” - Salmo 139.14) e o eu mesmo, o eu construído, cheio de máscara, de pose, de falsidades impostas por moralismos doentios, por exigências sociais das mais diversas. 

É óbvio que isso não é lecença para um ‘vale tudo’. A moral é uma virtude humana. Paulo sabia disso mas, ao falar sobre isso, estabelece qual é a régua: “Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Contudo, não usem a liberdade para dar ocasião à carne, mas sirvam uns aos outros por meio do amor. Pois toda a lei se cumpre em um só mandamento: 'Ame ao seu próximo como a você mesmo'” (Gl 5.13).

É ao mesmo tempo simples e gigante. Não regrinhas morais impostas, as a régua do amor.

Aí, devidamente reencontrado com o Evangelho, a primeira parte da canção, que já era fofa, se renova e ganha outra direção – a direção do próximo: 

Só de estar em tua companhia 
Meu coração já começou a mudar 
Passei a ver aquilo que não via 
Tua presença vai me transformar 

O que a Presença muda no meu coração?
O que ela me faz ver, que antes estava oculto? 
Eu sou transformado em quem? Em que direção? 

Sozinho no silêncio do meu quarto eu me coloco diante de Deus: Mas, quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Seu Pai, que vê em secreto, o recompensará (Mateus 6:6). 

E Ele me ouve: “Amo ao Senhor, porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas” (Salmo 116).   

E me devolve para a vida, para o cotidiano, para o chão da existência, o pó da estrada, o atrito dos corpos, o suor e a dor, para o medo, a angústia, a dúvida, a ansiedade, a raiva, o cansaço. 

Mas… com um novo coração e um novo olhar. 

Um olhar de quem reconhece, inclusive, que a companhia de Deus não se dá só no silêncio do quarto. Também lá, mas não só lá. A companhia de Deus está também na companhia do outro. No abraço, no afeto, na lágrima, na risada, no acolhimento, nas mãos estendidas, na partilha. No tempo reservado e doado ao outro, ao convívio, longe do celular, das mídias antissociais. 

Ver a perfeição, a beleza e a grandeza de Deus no outro, do jeitinho que o outro é, com todas as suas imperfeições, é que me faz mais profundo, que me afasta do mundo – esse mundo que julga, que condena, que isola, que divide. 

Aí sim, a companhia de Deus me transforma em alguém mais parecido com Jesus.

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