2 de setembro de 2022

Engolindo o Caroço


Eu já tinha escalado uns 30 metros sem achar a primeira proteção. Fiz uma ou duas costuras em chumaços de taquaras enraizadas na parede vertical de granito. Agora havia encontrado um pequeno platô onde podia sentar. Montei uma parada de três pontos numas taquaras. Meu irmão subiu e decidimos procurar mais uns metros acima, dessa vez o Tato na ponta da corda. Mas a coisa ficou cabulosa demais. Já tínhamos, há muito, passado do ponto. O Tato desescalou até o platô, rapelamos nas taquaras pro chão e abandonamos a parede. Estávamos, soubemos depois, no lugar errado. A via Caroço da Esfinge ficava bem mais a esquerda.

Agora, depois de 28 anos, fazíamos o mesmo trajeto, dessa vez munidos de caprichadíssimos croquis de trilha e via. Na primeira tentativa, levávamos um rabisco feito por um amigo, de memória, num guardanapo de papel.

O mundo gira. A coisa agora não é mais tão mambembe quanto já foi. E nós ganhamos um pouco mais de bom senso junto com os cabelos brancos.

Ainda assim, nem tudo são flores. Apesar de uma escalada sem grandes percalços, nos perdemos no tempo. Coletamos algumas informações que nos levaram a prever umas 5h escalando. Escalamos 9h. A noite caiu e os rapeis tiveram que ser feitos de noite. Minha lanterna, a mesma que levei 28 anos atrás (mas com pilhas novas!), encerrou sua carreira no final do segundo rapel. Dali pra frente fiquei no escuro. Mas o Tato ia na frente e montava a parada. Eu só precisava descer na direção da luz da cabeça dele lá em baixo.

Confesso que o nível da canseira foi gigante. Descemos a Noroeste nos arrastando. Mas chegamos na base 16h depois da partida. 11h na parede, entre subir e descer. 5h na trilha, levando em conta uns 40min perdidos na base da Esfinge antes de começar a via.

Engolimos o Caroço que há 28 anos tava engasgado na garganta.

PS1: Deixo aqui registrada minha eterna gratidão à boa alma que deixou presas fitas refletivas nas paradas de rapel. Esse cara merece um beijo.

PS2: Esse texto merecia ser mais poético, porque fazer essa via 28 anos depois junto com meu parceiro, amigo e irmão foi pura poesia. ♥️

PS3: A história original da Caroço tá no meu livro que vc acha no site da @editoragrafar 😉 

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