16 de abril de 2021

A Trilha virou livro


A Trilha virou livro. Árvores foram cortadas pra que isso acontecesse. Em minha defesa, registro que a tiragem não é das maiores, o que reforça a ideia de que você, que como eu gosta demais do cheiro de livro novo, deveria adquirir o seu com urgência.

Gente do calibre do Carlos Bregantim, Gito Wendel e Alexandre Gonçalves garantiu que vale a pena. Eu não confiaria tanto em mim, mas quanto a eles, não há porquê desconfiar.

"A Trilha é leitura essencial para dias estranhos como os nossos, porque nos questiona, nos chacoalha e nos adverte: É preciso Esperançar". Gito Wendel - teólogo, escritor e ativista social. 
 
"A Trilha traz percepções relacionais com forte ênfase nos invisíveis, excluídos, vulneráveis que se encontra enquanto se faz uma trilha no chão da vida, sem excluir nada e ninguém". Carlos Bregantim - Mentor e escritor.
 
"Ler A Trilha é sentar à mesa de bar com o Mestre e comer comida de boteco enquanto ouve suas histórias a ponto de o lugar e a comida não fazerem a menor diferença ante a experiência mágica desse momento". Alexandre Gonçalves - Pastor, policial e líder sindical.


A Trilha é o novo lançamento da Editora Grafar.
Compre o seu agora mesmo!

Prefácios e textos de capa:
Gito Wendel,
Carlos Bregantim e Alexandre Gonçalves

1 de dezembro de 2020

O Mito no Mundo


"O [mito] se fez gente
e habitou entre nós"

A humanidade só existe a partir do mito. O que a ciência chama de revolução cognitiva, que é o que fez surgir no solo desse planeta a criatura chamada Homo Sapiens, nada mais é do que a chegada do mito ao mundo. Mito é palavra imaginada e transmitida de geração em geração. É verbo sonhado, cantado e contado.

Quando Deus escolheu uma das criaturas que vinha evoluindo a milhões de anos e soprou em suas narinas seu espírito, colocou dentro dela a angústia do simbólico, do imagético, do sonho, da narrativa. Nos tornamos então, imagem e semelhança do criador. E desde esse dia passamos a contar histórias e todas elas apontavam para o mito maior, a utopia mais profunda, a mais presente e inquietante lenda: o anseio inescapável pela redenção. E todos os povos, de todas as culturas, de todos os cantos, de todas as raças, de todas as origens, de todas as religiões narraram esse mito, cada um a sua maneira. Até o dia, o inacreditável dia, em que passou-se a contar-se a história de que esse mito maior e mais profundo rasgou o manto pesado da fantasia, invadiu o espaço e o tempo e nasceu entre nós, como um bebê na manjedoura de um canto remoto e irrelevante da palestina.

Todas as histórias de todos os mitos, todos os sonhos de todas as utopias, todas as lendas de todas as canções se adensaram, deixaram pra trás o mundo das fábulas e habitaram o frágil corpo de um bebê. Emanuel, Deus conosco. O Deus fragilizado. O Deus que redime o corpo e o santifica, porque nele habita. O Deus feito gente. O Deus que esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante à humanidade e por ela se entregando, para a ela dar esperança, força, vida, ressureição, redenção.

Nove meses antes, uma menina chamada Maria, ouviu a voz de um anjo que lhe sussurrou: alegre-se, vc dará à luz um menino, seu nome será Jesus e ele será chamado Filho de Deus. E diz o texto do livro sagrado, no evangelho de Lucas, que essa menina se encheu de alegria e cantou.

Minha oração hoje é para que esse sonho, essa lenda, esse desejo, essa esperança, esse mito que se se fez carne e habitou ENTRE nós, habite também EM nós, e em nós nasça e gere vida, e redenção. E que cada um de nós possa ter nos lábios, o mesmo canto de Maria:

Minha alma engrandece ao Senhor
Meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

1 de fevereiro de 2020

Luxos, necessidades e obrigações



Tentei desancar nossa estupidez anos atrás escrevendo uns parágrafos aos quais dei o título de Ratos. Mas o Yuval Harari explicou aqui o negócio todo e nos deixou nus.

"A busca de uma vida mais fácil resultou em muitas dificuldades, e não pela última vez. Acontece conosco hoje. Quantos jovens universitários recém formados aceitam empregos exigentes em empresas importantes, prometendo que darão duro para ganhar dinheiro que lhes permitirá se aposentarem e irem atrás de seus verdadeiros interesses quando chegarem aos 35? Mas, quando chegam a essa idade, eles têm grandes hipotecas para quitar, filhos para educar, casas em zonas residenciais que necessitam pelo menos de dois carros por família e uma sensação de que a vida não vale a pena sem um bom vinho e férias caras no exterior. O que se espera que façam, voltem a arrancar raízes? Não, eles redobram seus esforços e continuam se escravizando.

Uma das poucas leis férreas da história é que os luxos tendem a se tornar necessidades e a gerar novas obrigações. Uma vez que as pessoas se acostumam a um certo luxo, elas o dão como garantido. Passam a contar com ele. Acabam por chegar a um ponto em que não podem viver sem. Tomemos outro exemplo familiar de nosso tempo. Nas últimas décadas, inventamos inúmeros instrumentos que supostamente economizam tempo e tornam a vida mais fácil – lavadoras de roupa e de louça, aspiradores de pó, telefones, aparelhos celulares, computadores, e-mail. Antes, dava muito trabalho escrever uma carta, endereçar e selar um envelope e levá-lo até o correio. Levava-se dias ou semanas, talvez até meses, para obter uma resposta. Hoje em dia eu posso escrever um e-mail às pressas, enviá-lo para o outro lado do mundo e (se meu destinatário estiver on-line) receber uma resposta um minuto depois. Economizei todo aquele trabalho e tempo, mas tenho uma vida mais tranquila?

Infelizmente, não. Antes, as pessoas só escreviam cartas quando tinham algo importante para relatar. Em vez de escrever a primeira coisa que lhes vinha à cabeça, consideravam cuidadosamente o que queriam dizer e como expressá-lo. Esperavam receber uma resposta igualmente atenciosa. A maioria das pessoas escrevia e recebia não mais de um punhado de cartas por mês e raramente se sentia compelida a responder de imediato. Hoje recebo dezenas de e-mails todos os dias, todos de pessoas que esperam uma resposta imediata. Pensamos que estávamos economizando tempo; em vez disso, colocamos a roda da vida para girar a dez vezes sua velocidade anterior e tornamos nossos dias mais ansiosos e agitados."

Yuval Harari, em Sapiens.

Hierarquia social


Yuval Harari, em Sapiens, expondo nosso ridículo:

"A maioria das pessoas afirma que sua hierarquia social é natural e justa, enquanto as de outras sociedades são baseadas em critérios falsos e ridículos. Os ocidentais modernos são ensinados a desprezar a ideia de hierarquia racial. Eles ficam chocados com as leis que proíbem os negros de viver em bairros de brancos, ou estudar em escolas de brancos, ou ser tratados em hospitais de brancos. Mas a hierarquia de ricos e pobres, que autoriza os ricos a viver em bairros distintos e mais luxuosos, estudar em escolas distintas e de mais prestígio e receber tratamento médico em instalações distintas e bem equipadas, parece perfeitamente sensata para muitos norte-americanos e europeus. Mas é um fato comprovado que a maior parte dos ricos são ricos pelo simples motivo de terem nascido em uma família rica, enquanto a maior parte dos pobres continuarão pobres no decorrer da vida simplesmente por terem nascido em uma família pobre."

Mudar o mundo

Meus filhos, num passado belíssimo


Outro dia eu tava num showzinho maneiro do @paulonovaes aqui em Blumenau. Voz e violão pra umas 40 pessoas. Coisa linda. Aí o cara começou a cantar uma música que fez pra irmã, quando ficou grávida do primeiro filho. E chega o refrão, e no refrão o desejo de que o bebê venha pra querer mudar o mundo. A galera vai cantando junto o refrão, baixinho, sussurrado, e eu ali ouvindo, minha filha do meu lado, percebo de repente, com os olhos mareados, que foi assim. Meus filhos vieram e mudaram o mundo.

Assim que foram concebidos transformaram completamente meu mundo, fizeram dele um lugar incrivelmente melhor, mais alegre, mais dramático, mais intenso, mais cheio de aromas e cores, mais cheio de vida. Um mundo incrivelmente melhor. Enquanto o povo sussurrava o refrão ao meu redor - mudar o mundo, mudar o mundo - eu olhava minha filha, agora mulher, ao meu lado. Sussurrei pra ela: 'deu certo, filha, vcs mudaram meu mundo', e ganhei de volta um afago.

 Me senti compelido a registrar essa breve epifania. Um registro de gratidão. Obrigado, filhos, por mudarem meu mundo. Obrigado Sandra, por ter gerado nossos filhos e por partilhar comigo o novo mundo que ganhamos.