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5 de outubro de 2022

Valores Cristãos




A força da batida insistente na porta me assustou. Abri uma fresta e perguntei quem era. Um homem grande, marombado, de camisa social, calça jeans e sapatênis respondeu “meu nome é Valores Cristãos”, forçou a porta me jogando pra trás e entrou. Eu tentava, assustado, me recompor e entender o que tava rolando, mas antes que pensasse em qualquer coisa ele emendou, deixando o corpo pesado desabar no sofá:

— Soube que vc tá precisando urgente de mim. Pelas coisas que você tem dito, pelas pessoas que tem apoiado, houve um consenso geral de que vc tá precisando muito de mim.

— Sério? Rapaz, não tinha sentido falta não. Achei que a gente tava junto.

O cara endireitou a coluna, sentou na ponta do sofá, acendeu um cigarro sem tirar o olho dos meus olhos e falou com firmeza.

— Você? Junto com Valores Cristãos? Tu tá comunista, velho, que eu fiquei sabendo.

— Eita, vc fuma? — perguntei, confuso.

— Depende.

— Depende de quê?

— Do tempo, do espaço, da cultura. Já fumei muito. Até meados do século 20 fumei um monte. Depois começou a pegar mal e parei. Mas hoje, aqui, tem ninguém vendo, deu vontade.

— Mas que doidêra. Valores Cristãos não é o mesmo desde a fundação dos tempos?

— Hahaha. Óbvio que não. Tem época que não deixo ter cabelo comprido, depois só pode cabelo comprido, barba não pode, depois é obrigado, uma hora só vestido, depois pode calça, depila, não depila, joga não joga futebol, cinema pode e não pode. Teve uma época que eu dizia que a terra era o centro do universo, quem discordasse mandava queimar na fogueira. Era engraçado. Pessoal berrando enquanto o corpo ardia. Depois proibi dizer que a terra tinha bilhões de anos, evolução das espécies, essas coisas. A terra foi criada em sete dias, eu gritava. Nesse tempo já não dava pra queimar na fogueira, mas chamava de herege, excomungava, essas coisas.

— Que horror.

— Também acho. Um horror discordar de mim. Ah! Lembrei de uma boa. Todo mundo batizava bebê, daí apareceram uma chatos dizendo que só podia batizar adulto. Sabe o que fiz? Mandei afogar os caras. Em vez de fogueira, mandava matar afogado, pra aprender a não me contradizer. Criativo, né?

— Jesus…

— Quem? Bom, também não interessa. Tamos aqui pra falar de você. Você tá comunista cara. Dizem que até falou mal da Damares. E defende os gays, as feministas. Endoideceu.

— Mas, cara, que loucura. Cada hora vc é de um jeito.

— Na real eu sou de todo jeito ao mesmo tempo, sacou? Depende. Pra uns eu digo que não pode comer carne de porco ou fazer transfusão de sangue. Pra outros eu digo que isso pode, mas não pode pular carnaval ou fumar, ou beber uma cervejinha. Vou vendo o que cola com cada um e me ajeitando. Mas a grande sacada mesmo é criar uns monstros grandes e juntar todos os grupos em torno dos monstrões. O que emplacou bem atualmente é comunismo, gayzismo, feminismo, essas coisas.

— Mas, velho, isso não tem nada a ver com nada. Jesus ensinou amor, perdão, igualdade, fim de todas as diferenças e hierarquias. Ele disse pra não julgar ninguém, pra considerar o outro superior a si mesmo e…

— Ah, Jesus! Lembrei do maluco. O cara era meio comunista também.— Valores Cristãos falava olhando pra cima, num ponto qualquer do infinito, puxando da memória, enquando o cigarro ia queimando na mão apoiada sobre a coxa —  A gente conversou bastante, tentei explicar pra ele como funcionam as coisas aqui, mas o cara é birrento, cheio de sonhos, utopias. Fiquei 40 dias com ele no deserto e não aprendeu nada. Ele ainda anda por aí, mas tem pouca gente ao redor dele. A multidão mesmo anda comigo.

“É o que vc pensa”, balbuciei baixinho.

16 de abril de 2021

A Trilha virou livro


A Trilha virou livro. Árvores foram cortadas pra que isso acontecesse. Em minha defesa, registro que a tiragem não é das maiores, o que reforça a ideia de que você, que como eu gosta demais do cheiro de livro novo, deveria adquirir o seu com urgência.

Gente do calibre do Carlos Bregantim, Gito Wendel e Alexandre Gonçalves garantiu que vale a pena. Eu não confiaria tanto em mim, mas quanto a eles, não há porquê desconfiar.

"A Trilha é leitura essencial para dias estranhos como os nossos, porque nos questiona, nos chacoalha e nos adverte: É preciso Esperançar". Gito Wendel - teólogo, escritor e ativista social. 
 
"A Trilha traz percepções relacionais com forte ênfase nos invisíveis, excluídos, vulneráveis que se encontra enquanto se faz uma trilha no chão da vida, sem excluir nada e ninguém". Carlos Bregantim - Mentor e escritor.
 
"Ler A Trilha é sentar à mesa de bar com o Mestre e comer comida de boteco enquanto ouve suas histórias a ponto de o lugar e a comida não fazerem a menor diferença ante a experiência mágica desse momento". Alexandre Gonçalves - Pastor, policial e líder sindical.


A Trilha é o novo lançamento da Editora Grafar.
Compre o seu agora mesmo!

Prefácios e textos de capa:
Gito Wendel,
Carlos Bregantim e Alexandre Gonçalves

30 de outubro de 2018

A Vila e seu Diabo



Um clarão e um estrondo acordaram quase todos no pequeno povoado do interior. Aos poucos os homens saíram das casas no meio da madrugada, entre cochichos desconfiados, procurando a origem do estouro. Da janela da cozinha, Jaciara apontou na direção do Morro do Cego, de onde subia a dança sinuosa de um estranho vapor laranja resplandecido pelo luar. Destacou-se um grupo com lanternas, facões e enxadas que subiu a estrada velha na direção da luz.

Quando chegaram lá, encontraram estrebuchando no chão a estranha criatura que parecia ser a origem daquele fenômeno. Estavam todos apavorados ouvindo os rosnados constantes de uma criança cor de laranja neon, com uma longa cauda, suando à cântaros e emitindo aquele vapor que era visto desde a vila. Ela parecia estar ardendo em chamas, mas não havia ali fogo algum, calor algum. Ocorreu a Telmo, o lenhador, jogar no menino a água que havia trazido para matar a sede. A criança reagiu com um grito e um salto, caindo em pé e mostrando o rosto espantoso e aterrador para o grupo de homens, que recuou imediatamente, mantendo-se em posição de defesa, com facões e enxadas à postos.

A criança não tinha pelos e os olhos eram incrivelmente grandes, com as pupilas enormes dilatadas até deixar ao seu redor apenas um ínfimo filete branco, e projetavam-se para fora do rosto, sobrepondo-se ao local onde deveria estar a cavidade ocular. A boca era longuíssima, indo de orelha a orelha, mas, que orelha? Onde elas deveriam estar havia apenas uma estranha cavidade retorcida. Os homens permaneciam acuados, trocando olhares sem tirar a atenção da pequena criatura que, da mesma forma, os olhava a todos.

“É um diabo”, sentenciaram alguns. Os demais concordaram assustados e recuando mais uns passos, menos Telmo, que permaneceu em sua posição com o olhar fixo na pequena figura bestial. Aos poucos foi parecendo claro que não havia no pequeno ser, apesar da aparência pavorosa, nenhuma postura de hostilidade.

“É um diabo, sem dúvida”, concluiu Telmo, “mas ainda um diabo miúdo. Se o pegarmos agora podemos domar-lhe e fazê-lo nos servir”. Depois de alguns minutos de silêncio e reflexão, os homens assentiram discretamente para Telmo, que aguardava um aval do grupo para tomar uma atitude. Assim que recebeu o aceno, o lenhador se aproximou com cuidado do pequeno diabo, estendeu-lhe a mão, e a criatura deixou-se tocar. Apesar da impressão que causava, a pele do pequeno era gelada como a água que descia do vale do Morro do Cego até a cidade.

Os homens baixaram as armas e o diabo foi levado no colo ao povoado.


* * * 


A comunidade já havia se acostumado com a presença assustadora da criatura. Durante todo aquele ano ele fizera parte do cotidiano da pequena vila. Quando fora deixado na casa de Nicolau, único que dispôs-se a abrigá-lo, o tinhoso tinha o porte de uma criança de 3 anos. Agora, doze meses depois, era do tamanho de um homem feito, mas comportava-se como um menino desengonçado.

Logo nos primeiros dias o pequeno belzebu foi trocando seus grunhidos por palavras e duas ou três semanas depois já comunicava-se com facilidade. O vocabulário, no entanto, apresentava uma estranha característica de seletividade. A criatura assimilara um amplíssimo leque de palavras ríspidas e sabia construir frases de efeito assombrosamente ofensivas, mas não conseguia encontrar formas de expressar afetos. Com olhar azedo disparava impropérios a torto e a direito, ofendendo toda sorte de habitantes da pequena comunidade. Aliás, quase toda. O pequeno destacamento de homens que trouxera o cramunhão da floresta passara, desde aquele dia, a reunir-se com frequência na casa de Nicolau. A eles a criatura não ofendia e chegava mesmo a prestar-lhes favores, ainda que com bastante discrição.

O dia-a-dia na vila não teve nenhuma mudança radical, mas pequenas coisas antes incomuns passaram a tornar-se corriqueiras. A cordialidade dos habitantes passou lentamente a dar lugar a desconfiança. Pequenos rancores encontraram lugar entre amigos de longa data. O diabo seguia disparando disparates como se portasse uma metralhadora.

Alguns membros da comunidade quiseram calar o jovem diabo, mas o grupo de Nicolau levantou-se para defender o capeta argumentando insistentemente que o que ele dizia eram só palavras, coisa dita da boca pra fora, que se poderia tolerar as palavras desde que se lhe domassem o comportamento. Mas o que houve de fato foi que aos poucos, a começar pelo grupo de Nicolau, a própria comunidade passou a acreditar nos vitupérios repetidos pelo cramunhão e os repetiam insistentemente uns aos outros.

Quando um grupo fincou o pé, exigindo o silêncio de satã em nome do bem da comunidade, o sete pele passou para um estágio de agressividade maior, e repassava ao grupo dos que o defendiam, frases de efeito que incitavam a eliminação sumária de seus opositores - e as frases eram repetidas em coro, a plenos pulmões ainda que os alvos dos gritos fossem vizinhos, amigos ou irmãos. A aldeia via-se tomada por portentoso e descontrolado alvoroço, mas uma parte dela se mantinha reclusa, evitando emitir opinião ou tomar partido.

Em poucos dias as tensões eram tantas que foi inevitável convocar a todos para uma discussão que pusesse termo ao caos. Os moradores da vila encontraram-se num fim de tarde na Praça da Fonte e entre gritos, argumentos, afrontas, ofensas e insultos decidiram por maioria eleger o Diabo como seu líder e calar a oposição usando de quaisquer que fossem os meios. O Diabo assumiu seu posto sob os aplausos da multidão e o horror da minoria dos que queriam a vila livre de satã. Enquanto a vila começava uma grande festa, cercando a minoria do voto vencido, cirandando ao seu redor e apontando-lhes os dedos, o grupo de Nicolau saía eufórico pegar os facões e enxadas para iniciar a faxina em nome da paz.

27 de julho de 2016

Ruim de luta mas bom de briga

- Sô ruim de luta, mas bom de briga - disse o velho enquanto batia o pó da roupa e secava o suor da testa. E por conta do meu silêncio e do meu olhar de espanto, continuou: - É que luta exige toda uma pensassão prévia, todo um treinamento, toda uma estratégia, toda uma aporrinhação que não me guento de passar. E nem tempo tenho pra isso tudo. Tenho boca pra encher, e preciso um dia todo correndo pra dar conta. Então deixo a luta com os meninos aí. Agora, espera esquentar a água pra ver quem vem rebentar com tudo. Quem segura os óme. Quem para os trator, ranca os tratorista pra fora. Quem para na frente da escavadeira. Quem se deita no chão. Isso é brigacêra mesmo. Tem que ter cabelo branco. A cara marcada. Porque cada marca nessa cara aqui é um fiapo a menos de paciência e uma tora a mais de coragem.

- Mas, no fim, derrubaram as casas todas mesmo - argumentei estampando o desânimo nos olhos.

- Essas aí, filho, essas aí. Mas vai ter outras. Os óme não param de derrubar. De ir jogando a gente pros cantos. Não tenho mais casa agora, mas amanhã vou ter, e depois de amanhã aparece alguém com essas entregação de posse. Entregação mesmo porque os óme quer que a gente entregue tudo. Deixam a gente no pelo. Mas pode vim. Paro na frente de novo. Até lá vou ter mais umas tantas marcas na cara. Umas tantas toras. Haja trator pra derrubar.

- E não cansa, isso?

- Cansa pra burro. Mas é assim. Viver cansa. Pra isso que serve as varanda e as rede. E a cuia de mate. E se não tem varanda tem os pé-de-sombra. Lugar pra amarrar uma rede não falta - e apontou pra trouxa onde tinha embolado o pouco que conseguiu tirar da casa antes dela ir abaixo. Foi quando reparei que era uma rede que embrulhava tudo. E o velho agarrou a trouxa com a mão firme, jogou nas costas, por cima do ombro, e saiu caminhando, sem parar de falar: - Agora é correr atrás da comida e de um lugar pra amarrar a rede. Lugar não falta. Eles que venham...

11 de julho de 2016

Épico


- Grande Cléverson.
- Fala piá, beleza?
- Tranquilo.
- Me paga uma aí que tô liso.
- De novo?
- É a crise.
- Traz mais uma, Nésio!
...
- Quinta passa a tocha.
- Sei.
- Tô com umas piras aí, meu.
- Hum.
- Tem que apagar esse negócio.
- A tocha?
- Não, o Temer.
- Eu apagava a Dilma.
- Apagava logo os dois.
- O Lula!
- Tô falando sério.
- Da tocha?
- Passa na XV, debaixo da minha janela.
- Mas não tem como acertar, é longe.
- Tô treinando há um mês. Já acertei um tanto de gente.
- Devia acertar os mendigos.
- Miro nos coxinhas, que nem você.
- O coxinha que paga a tua cerveja?
- Não começa.
- Você que começou.
...
- Você tem que dar uma força no lance da tocha.
- Tá falando sério?
- Fiz uma tipo aquela. À gás.
 - Você fez uma?
- Finalmente encontrei sentido naqueles 4 anos no Cefet.
- O cara fez uma tocha à gás...
- Alguém tem que passar pela quinze, de madrugada, segurando ela pra eu treinar.
- Alguém tipo eu?
- Tô contando contigo.
- Ficar tomando banho de graça no meio da madrugada.
- É pra apagar a tocha, cara. É épico.
- Que ia ser bacana, ia.
- Ia não. Vai. Até quinta a gente pega o jeito.
- Mas tem que filmar.
- É óbvio. Vou deixar uma GoPro em cima da banca. Ninguém vê. E filmo da janela também. Não tem erro.
- Ia ser muito doido.
- Colossal.
- Homérico.
- Sem dúvida.
- Que horas?
- Às duas.
- Ôrra meu, vai ser épico.
- Certeza.

16 de novembro de 2015

O síndico e o pândego

Em um remoto condomínio de uma cidadezinha em Minas Gerais haveria eleição para síndico. Eram quatro candidatos. Um dos moradores, Marco Sá do Valle, festeiro, chegado em um rega-bofe, contumaz promotor de pândegas entre amigos, interessou-se em participar de perto da disputa eletiva apoiando, de forma honesta e justa, sem nenhum partidarismo, cada um dos quatro candidatos. Sutilmente, por trás das cortinas, distribuiu entre todos valores suficientes para produção de cartazes e ímãs de geladeira.

Simultaneamente, enquanto a campanha se desenrolava, o diligente morador redigiu novas regras, mais flexíveis, para o uso do salão de festas do condomínio, já prevendo entregá-las a quem quer que vencesse o pleito, sugerindo humildemente sua aplicação como forma de agradecimento aos favores de campanha.

E houve eleição, e houve um vencedor. O generoso mecenas procurou o vitorioso assim que soube do resultado e cumprimentou-o discretamente com a mão direita, oferecendo na esquerda a sugestão de mudança no estatuto. O aperto de mão foi acompanhando de galante piscadela e a despedida contou com um gentil tapinha nas costas.

Mas antes mesmo que o novo estatuto fosse apresentado e aprovado em reunião de condomínio, o galhofeiro Marcos Sá agendou sua primeira festa. E foi uma daquelas. A moçada bebeu tanto, dançou tanto, cantou tanto, girou tanto que, num acidente provocado por algum corpo desgovernado no meio da balbúrdia, o salão de festas pegou fogo. A chama surgiu recatada na cortina, mas como o povaréu não estava lá com o discernimento muito aferido naquela altura do festerê, logo esparramou-se por todo salão sem o menor constrangimento. Quando enfim alguém se deu conta, a labareda já estava fora de controle e foi uma correria só.

O fogo foi tão intenso que abalou as estruturas do salão e botou a construção toda abaixo. O entulho desabou sobre a piscina, que rachou-se com a violência do tombo. A água infiltrou pela laje, que começou a gemer e trincar enquanto caliça e água gotejavam no estacionamento. Alguns moradores conseguiram tirar os carros antes da laje, enfim, desabar.

O prédio permaneceu em pé não se sabe como. Os moradores ficaram aterrorizados e revoltados, querendo saber onde estava o responsável por aquele caos. O síndico foi imediatamente acionado e surgiu no meio da gritaria acalmando a multidão: calma gente, calma. Vamos aplicar no responsável - falou sem citar nomes - uma multa de pelo menos uns mil reais.

Marco Sá do Valle ouvia a zoeira do seu quarto, onde arrumava a mudança. Havia alugado um apartamento no prédio ao lado e já reservara o salão de festas para a próxima folia.

7 de outubro de 2015

O salto

Climério despencava ao chão atabalhoadamente. Arrependera-se de se ter lançado de cima do rochedo. A vida, enfim, parecia-lhe agora não tão dura, não tão sem saída, não tão desgraçada. Mas salto dado não tem volta, e sobre isso havia pensado um sem número de vezes antes de atirar-se.

Quem olhava de longe, atônito, tinha a sensação de que o movimento descompassado de braços e pernas era uma busca desesperada e vã por ter onde agarrar-se, por ter com evitar o impacto, por ter como bater asas e voar. Climério fechara os olhos e movia-se sem o menor controle, sem consciência, como se o corpo tivesse se separado da mente e tomado vida própria. Como galinha degolada correndo no terreiro.

O que lhe restara de razão flutuava num hiato do tempo em memórias doces que há muito estavam escondidas. Lembrava de uns poucos sorrisos, do beijo de uma menina cujo nome se fora, de gargalhadas de criança, suas próprias gargalhadas, dos pés descalços de Anamaria, do abraço de Gabriel. Lembrava da mãe pondo-lhe feijão no prato e do cheiro do feijão. Ah, o cheiro do feijão.

Em pleno voo Climério deu-se conta de como lhe fora doce a vida, a mesma vida que há pouco parecia um inferno. O desespero do salto lhe furtou as dores, as angústias, a solidão. O horror da queda descortinou os detalhes encantadores de uma vida desbotada e cinza, aspergindo cores e perfumes sobre o flagelo da existência.

"Valia a pena", pensou Climério logo antes do impacto. E sentiu o tapa quente da superfície da água seguido do frio intenso do fundo do rio de serra. Voltou à superfície entre gargalhadas e berrou para Anamaria: "Vem! A água tá uma delícia".

30 de julho de 2015

Por traz de cada cara lavada


Foi por acaso que Menelau descobriu que há um ângulo preciso, medido em grau, minuto, segundo e milésimos de segundo, pelo qual se pode ver a verdade escondida por traz da cara lavada de quem quer que seja. E a verdade é coisa tão intensa e vigorosa que mesmo vazando por uma falha mil vezes mais fina que um fio de cabelo, surgiu, naquele momento, tão violenta que lançou Menelau ao chão.

Theodoro Cortêz estava postado a seu lado, rijo, impassível, com o peito estufado e o olhar fixo na tapera de madeira onde Menelau viveu nos últimos cinco anos com a esposa e três filhos. À direita de Cortêz as máquinas prontas para o ataque. De dentro da casa se ouvia a gritaria das crianças e da mulher, enquanto capangas lançavam fora os poucos pertences da família. Menelau já havia dito a Jacira que não haveria como detê-los, que fizera tudo que pôde mas não tinha como brigar com gente daquele tamanho. Os móveis velhos, as roupas surradas, as panelas, os pratos, os brinquedinhos das crianças, tudo ia sendo ensacado e carregado para fora, com Jacira berrando e as crianças chorando. Menelau sentia mais dor pelo grito e pelo choro que pela casa, apesar de saber que não teria onde dormir naquela noite. Olhava a cena de cabeça baixa, humilhado, constrangido. Quando o último saco foi retirado do caminho, Menelau virou a cabeça discretamente, com os olhos cheios d'água, na direção de Theodoro. O homem mostrava agora um arrogante sorriso de vitória, e encarou Jacira e as crianças com um desprezo que beirava o nojo.

Altivo e presunçoso, Theodoro Cortêz lançou seu derradeiro olhar esnobe sobre Menelau. Foi quando os olhos dos dois se encontraram que ocorreu o inacreditável - Menelau foi atingido com toda força pela verdade pura que vazou instantaneamente dos olhos de seu algoz e, como fosse a rajada de um vigoroso tufão, lançou-lhe estirado ao solo. Theodoro, Jacira, as crianças e os brutamontes assustaram-se com a cena, mas só Menelau encontrara-se no lugar exato que lhe permitiu ver e absorver a verdade que vazou daquele olhar petulante. Caído no chão, esfregava os olhos e a cabeça, confuso, perplexo, assuntado, porque a verdade por trás daqueles olhos era espantosamente bela, pura, virtuosa, encantadora, sublime, nobre, inocente, amorosa, meiga e gentil. Era difícil associar tal verdade profunda ao rosto sisudo daquele homem. De onde estava, ainda atordoado, Menelau procurou novamente os olhos de Theodoro, mas viu então somente a arrogância cruel que todos viam. Compreendendo em um estalo a epifania que se lhe revelara, sentiu uma dor aguda na alma e encheu-se de compaixão. Sem tirar os olhos compassivos e mareados da face dura de Theodoro Cortêz, Menelau ergueu-se lentamente e, chorando, abraçou-o com força e sussurrou em seu ouvido: "eu perdôo o senhor, seu Cortêz, porque você não sabe quem é. Espero que um dia descubra e seja livre." E, enquanto sussurrava, molhando com suas lágrimas os ombros duros de Theodoro, viu o homem, com um movimento suave da cabeça, assentir para as máquinas, que botaram a casa abaixo.

"Essa gente aí, como é que faz" 

17 de abril de 2015

Alameda Vazia

A algibeira rota rebenta e esbugalha-se no solo frio da alameda vazia. A alameda é estreita mas vasta. Vasta ao infinito, contudo vazia de quem quer que seja.

Não há ninguém que possa ajudar o homem solitário a recolher os despojos que escaparam dos trapos velhos esfacelados. Nem álamos para sombreá-lo. A alameda é vasta, não há ninguém, nem álamos e o sol castiga. A pele dura e áspera do homem solitário rasga-se em sulcos profundos de dores profundas e em linhas secas de distantes risos incontidos.

Os despojos que tanto lhe custaram se dispersam agora no chão gelado e rolam ladeira abaixo, tomando cada um seu caminho como ratos afoitos escapando de predador faminto.

O homem solitário não reage, não se vira, nem com os olhos acompanha qualquer que seja o fragmento do que trazia há séculos alameda acima. Intuitivamente sabe que o esforço seria vão.

Então simplesmente congela seus movimentos no exato instante em que tudo se solta de si e toma outro rumo. Tão somente cerra os olhos e acompanha o som seco dos objetos despencando, rolando, se afastando em rumos dispersos e imprevisíveis, até ouvir novamente o silêncio absurdo da alameda vazia.

A algibeira é agora um trapo furado e sem sentido. Aquilo que carregava, e o valor todo que lhe fora atribuído durante a penosa jornada, já não há. Perdeu-se ladeira abaixo.

O homem permanece inerte por um instante que tange a eternidade, até que o silêncio rompe estridente a linha que anulava o tempo e, enfim, conforta o homem solitário, que abre os olhos, respira fundo e segue caminhando, agora mais leve.

31 de março de 2015

Diário de Páscoa

Transcrição de um manuscrito secreto, supostamente encontrado durante uma escavação imaginária na região da Cisjordânia, que trata dos fatos que passariam a ser conhecidos como Semana Santa.

11 de dezembro de 2014

Nunca soube




Lampião

Um foco de luz surgiu no céu.

Estrela obstinada, não contentou-se em simplesmente brilhar.
Abandonou seu ninho e riscou o espaço.

Foi taxada de rebelde, criticada e mal vista pelos seus.

Mas não podia parar.

Sentia ter sido chamada para mover-se. E foi.
Vagou por muitos dias até estancar, de repente, sentindo-se vazia e tola.

Estremeceu, duvidando de sua motivação.
Quis nunca ter deixado sua casa, mas não teve coragem de voltar.

Derramou uma lágrima antes de sumir e jamais ser vista.

Nunca soube dos magos e sua peregrinação,
nem do bebê que sorveu sua lágrima, bebeu sua luz.

Conta-se que o menino cresceu luminoso como lampião
e que clareia ainda hoje, feito estrela discreta,
os passos daqueles que andam junto dele.

E a estrela nunca soube.


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Publicado originalmente no distante Natal de 2009,
agora com uma ilustraçãozinha de brinde. 

13 de maio de 2014

Reinaldo

Era com fervor descontrolado que Reinaldo defendia suas crenças. Metia-se em toda roda de conversa sempre que de longe ouvia algo a que poderia opor-se. E opunha-se. Tinha, de fato, mais argumentos do que se poderia supor quem o julgasse pela aparência, e usava-os com tamanha ênfase que era quase impossível contestar o que fosse. Estava sempre com uma bermuda velha, desbotada, e não calçava nada que lhe escondesse os dedos grossos e encardidos nos pés, e as unhas desfiguradas. Suas camisetas, e era só camisetas que usava, eram invariavelmente ornadas com manchas ou furos de traça. Quando falava agitava violentamente os braços longos e ossudos, balançando os cabelos desgrenhados enquanto ajeitava, com um franzir do nariz, os óculos que faziam sempre uma diagonal suave com a linha dos olhos. Não gostava de futebol, mas religião e política eram os assuntos sobre os quais reinava. Conseguia descrever detalhadamente os cantos mais obscuros dos assuntos mais complexos, sempre citando nomes e datas, e fazendo referência a filósofos ou teólogos. Não havia quem o batesse em argumentos e, mesmo quando parecia a todos absolutamente certo que Reinaldo estava absolutamente errado, ninguém era capaz de demonstrar-lhe o erro.

Terrível era descobrir que Reinaldo não defendia nenhuma posição política ou religiosa. Ou talvez defendesse todas. Em determinado dia convencia alguém de que não havia outra posição aceitável que não a da esquerda, para no dia seguinte defender o contrário e convencer um outro de que era mesmo a direita a única saída. Conservador na segunda, liberal na terça, demonstrava de todas as formas e com lógica surpreendente, deixando ateus sem palavras e agnósticos convertidos, que o Jesus dos evangelhos havia de fato nascido e vivido e morrido e ressuscitado e era, portanto, o Deus encarnado. Mas na manhã seguinte convencia qualquer um que o Cristo dos cristão não havia sequer existido.

Descadeirava quem quer que fosse em qualquer que fosse o confronto, sempre com classe, sem exaltar-se, sem levantar o tom de voz.

Até o dia em que, quando argumentava sobre um assunto qualquer com um pequeno grupo de curiosos em um bar na Beira-Rio, ouviu uma voz de mulher erguer-se por trás de si. "Você está errado!" e ele virou-se imediatamente, "o que diz simplesmente não pode ser verdade". A voz brotava calma e convicta de uma boca delicadamente larga, de lábios finos e rosados. A luz da tarde, que invadia o bar pela porta da frente, refletia inclemente nos olhos cor de mel daquela mulher, e cabelos castanho claros esvoaçavam ao vento trazido pela corrente do rio. Reinaldo ficou calado, com a boca entreaberta acompanhando os movimentos suaves daqueles lábios que apresentavam argumentos completamente contrários aos dele. De fato Reinaldo não ouviu argumento algum e só percebeu que estava sendo veementemente contrariado quando a mulher calou-se e o povo todo olhou para ele esperando sua tréplica. Ele encarou os rostos fixos em si por alguns segundos e voltou os olhos para a mulher que, agora, lhe fitava com as duas mãos na cintura e o rosto levemente pendido para o lado, olhando dentro de seus olhos, aguardando sua reação. Reinaldo permaneceu imóvel por alguns segundos, até que baixou a cabeça, meteu as mãos nos bolsos e sorriu. Depois olhou para moça, acenou com a cabeça concordando com ela, e saiu caminhando lentamente, agora com um sorriso descontrolado, sentindo-se mais leve que nunca.

3 de fevereiro de 2014

Travessia

Seria um desatino cruzar aquele rio naquelas circunstâncias. O nível da água subia visivelmente e o negrume das nuvens engolia o horizonte sem sombra de saciar-se. No entanto, não havia a menor chance de voltar dali, debaixo daquela tempestade. Foram quatro dias de marcha pesada cruzando vales e selas de um relevo inclemente até chegar à margem do Khalungwa. Permanecer ali esperando o temporal dispersar seria uma possibilidade viável, se houvesse esperança de que ele fosse de fato dispersar. As notícias que vieram via rádio desde aquela manhã eram terríveis. A tempestade vinha varrendo tudo que se lhe opunha e trazendo atrás de si uma frente fria tão intensa que o número de mortos já passava das centenas. Do lado de lá, as cavernas de Rippenang mantinham a boca aberta e convidativa. Seria possível alcançá-las em pouco mais de 2 horas de passos largos e, concluímos rapidamente, era essa a única opção que tínhamos.

Em seu nível normal, o largo rio, apesar da forte correnteza, nos alcançaria somente o meio da cocha. Agora já era difícil prever. Avançando muito além do leito normal, as águas turbulentas carregavam avidamente galhos e pedras em um estrondo incessante diante de nossos olhos aterrorizados. Concluímos que seríamos inevitavelmente arrastados pela correnteza e caminhamos o máximo possível rio acima para tentar sair do outro lado perto da clareira que permanecia em nossa memória desde que cruzáramos o rio pela última vez, cinco anos atrás. Precisávamos evitar ao máximo ser arrastados muito abaixo, para encontrar a margem oposta antes da garganta rochosa que funcionaria como contrafortes de um castelo impenetrável condenando-nos à morte. Cerca de quinhentos metros nos separavam das paredes de rocha e o tempo que perdíamos subindo o rio para nos distanciarmos delas, era o tempo precioso em que o volume de água não cessava de erguer-se e esparramar-se pelas margens ampliadas desse rio esfomeado.

Abrimos as mochilas rapidamente e esvaziamos o máximo que pudemos, mantendo dentro delas somente itens de emergência uma muda de roupa seca bem embalada e alguma comida. Corremos entre tropeções e escorregadas com os olhos vagando entre o leito do rio ao lado, as nuvens negras à frente e a garganta rochosa abaixo, e já sentindo as primeiras gotas pesadas de água ferir os olhos. Budheng ia à frente e decidiu em um momento rápido que alcançara o ponto de sua travessia. "Eu vou aqui", berrou numa mistura de ousadia e horror, e virou à direita lançando-se perpendicularmente ao rio com convicção e fúria. Estanquei apavorado, acompanhando meu colega com os olhos e sem saber se ia atrás ou aguardava para acompanhar seu desempenho. A força da água que berrava em seus tornozelos derrubou-o duas vezes antes mesmo de alcançar os joelhos. Quando chegou à cintura, um galho enorme emaranhou-se à ele derrubando-o definitivamente. Ainda não estava nem perto do meio do rio. No meio da turbulência era possível ver seus braços debatendo-se freneticamente na tentativa desesperada de conduzir o corpo à margem segura a tempo. Com as ondas altas formadas pela turbulência das águas, perdi o galho e o amigo de vista. No instante seguinte me vi caminhando na direção da outra margem esforçando-me ao máximo para manter os pés firmes no solo rochoso enquanto a água tentava varrer-me com ela. Mantive os olhos firmes rio acima, tentando livrar-me dos troncos e galhos que vinham carregados pela correnteza. Um tronco fino e pesado martelou com força meu joelho e mergulhei nas águas turvas pela primeira vez. Dali em diante foram vários mergulhos, um seguido do outro, entre passos largos e tropeções. Cada tombo seguido de goles de água barrenta e açoitado pela angústia de erguer a cabeça e respirar, a agonia de firmar os pés no chão firme e lançar o corpo à frente e o desespero de ver os contrafortes de rocha aproximando-se enquanto a outra margem ainda permanecia assustadoramente distante.

Ainda consegui ver Budheng erguendo-se à salvo na margem oposta antes de afundar mais uma vez e bater violentamente a cabeça em um bloco de pedra no fundo do rio. Mal tive tempo de alegrar-me por ele. Senti somente o solavanco violento e ouvi o barulho seco do impacto. Não houve dor. No instante seguinte mão conseguia mais perceber se estava dentro ou fora da água e isso parecia não fazer nenhuma diferença. A pancada livrou-me instantaneamente de toda ansiedade e medo. Por um longo e doce momento, sentia como se estivesse flutuando na escuridão silenciosa e calma do espaço, ou nas profundezas abissais do oceano.

Cruzar o rio naquelas circunstâncias, definitivamente, fora um desatino.

19 de dezembro de 2013

A face do Deus vivo

Era noite fria e chuvosa. Estava de joelhos, cabeça baixa, tenso, no beco escuro de uma viela sombria. Encheu-se de coragem, ergueu os olhos do chão e encarou, enfim, a face do Deus vivo, que chorava. Desviou os olhos com vergonha, lamentando dolorosamente ter passado tantas vezes ao seu lado sem vê-Lo, sem estender-Lhe a mão, sem saber que estava ali, nu e coberto de chagas.

- Busquei-o em tantos templos - falou, reticente.

E o Deus vivo, tossindo e gemendo, secou as lágrimas com a manga de camisa surrada que era seu manto, tocou-lhe a face carinhosamente e sorriu.

- Eu sei, meu filho. Eu sei - sussurrou ofegante, beijando a face do peregrino com Seus lábios murchos, e o fez repousar em Seu peito.

Aos pés do Todo-poderoso o peregrino depositou humildemente um cobertor, uma térmica de café e um pão caseiro quentinho. E cearam juntos sob o coro de anjos que dançavam ao seu redor.

7 de outubro de 2013

No inferno [11]


11.

Abud aproveitou o que pôde da geladeira, depois refestelou-se no sofá e procurou algo interessante na imensa TV da sala de estar. Zé Augusto teve um dia corrido mas conseguiu resolver pouco do que pretendia. Estava confuso, e ter deixado Abud sozinho em sua casa começou a parecer-lhe uma imensa estupidez. Voltou bem mais cedo do que programara e encontrou Abud dormindo no sofá, com uma bandeja de bolachas, queijos e pipoca no chão e uma garrafa de vinho vazia na mesa de centro. Vê-lo em casa já foi um alívio, pois temia não encontrar nem o acidentado nem alguns objetos de valor. Comeu alguma coisa na cozinha e foi tomar banho. Quando apareceu novamente na sala, Abud já acordara e lia uma das revistas espalhadas no balcão da TV.

"Passou bem o dia?", perguntou Zé Augusto enquanto olhava para os restos de comida e pegava a garrafa de vinho na mão.

"Maravilhosamente bem", respondeu Abud, sem nenhum constrangimento. "Quase já não sinto dor. E você, aproveitando bem o inferno?"

Zé Augusto franziu a testa e, olhando fixo para Abud, respirou fundo e sentou-se na mesa de centro, segurando firme a garrafa de vinho com a mão esquerda, enquanto o indicador direito deslizava girando na boca da garrafa. "Que raio de inferno é esse? Aqui vai tudo bem. Não tenho do que reclamar. Mas passei o dia com imagens estranhas pipocando na cabeça. De quartos escuros, vielas estreitas, cheiro de mofo. Aquilo tinha muito mais cara de inferno que isso."

"Você já passou por momentos ruins aqui, Zé. O inferno é assim. Te dá um gás pra você ficar todo empolgado, depois desce o cacete quando você menos espera" e enquanto falava ia mordiscando alguns pedaços de queijo que sobraram na bandeja. "Você pode passar mais um tempo aqui nessa piração, todo feliz com seu sucesso, mas vai chegar a hora em que os dias e a badalação passarão voando e, se tudo correr bem, só lhe restará o quarto cinza" e levantou caminhando na direção da geladeira, Zé Augusto acompanhando com os olhos.

"Se tudo correr bem? O inferno é o quarto cinza, cacete. Não isso aqui. É só eu tomar cuidado para não ir para naquele quarto."

"É aí que você se engana", continuou Abud com a cabeça enfiada dentro da geladeira, "o quarto cinza é sua salvação. Mas não adianta nada eu tentar convencê-lo disso. Sei que parece um absurdo. Já disseram uma vez que é loucura pra quem não crê, pra quem não vê, pra quem não percebe", e tirou da geladeira um pote de azeitonas. "Sua visão da realidade agora está distorcida, contaminada por esse inferno onde você se meteu. Mesmo nos momentos em que você finalmente se percebe numa roubada e acaba querendo algo diferente para si, não consegue ver a beleza que há do lado de fora. Para você é cinza e escuro lá e aqui é festa. Mas isso é uma percepção afetada, distorcida, contaminada. Além disso, você ainda não conseguiu se livrar do medo de perder o que tem aqui. Enquanto esse medo não sumir, o quarto cinza seguirá sendo cinza aos seus olhos."

"Então não é cinza aos seus? Eu lembro de já ter tido medo do inferno em uma ou outra ocasião, mas já não tenho mais faz tempo."

"Tem muita gente com medo de ir para o inferno, mas é sempre daquela caricatura religiosa de inferno cheio de diabos vermelhos e tridentes. O avesso do inferno é o amor e amor encerra o medo. O seu problema, Zé, é o problema da humanidade. Não o medo de ir pro inferno, mas o medo de deixá-lo, de ter de abrir mão dele. É só o que tenho a dizer por enquanto, Zé. Daqui pra frente é contigo. Estarei no quarto cinza se você voltar pra lá." Abud levantou-se, encheu a mão de azeitonas e saiu mancando, ainda doído pelo atropelamento.



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3 de outubro de 2013

No inferno [10]


10.

Abud se lançou cansado sobre o sofá da sala.

"Ô rapaz. Peraí. Você está todo sujo de sangue."

"Dá um tempo Zé. Você acabou de me atropelar. Estou quebrado. Tá doendo um bocado."

"E porquê não me deixou levá-lo ao hospital?"

"Deixa eu tomar um banho e a gente conversa."

A primeira reação de Zé Augusto ao ver aquele sorriso ensanguentado no chão ao lado de seu carro, foi apavorar-se. Parecia um psicopata, uma cena saída de algum filme de suspense. Pensou em entrar no carro e abandonar o corpo ali. Olhou rapidamente em volta procurando alguma testemunha mas não havia ninguém no seu raio da visão. Ligaria para emergência, mas não ficaria ali ao lado daquele doido. Chegou a entrar no carro, mas antes de bater a porta o sorriso desvairado do atropelado pareceu-lhe familiar. "Vai me deixar aqui, Zé?", perguntou o moribundo ainda estatelado no chão e sem tirar os olhos de Zé Augusto. A voz, por fim, era inegavelmente familiar. Soube que conhecia o homem, apesar de não lembrar-se exatamente de onde. Desceu novamente do carro, ajudou-o a sentar-se e buscou a toalha que usava na academia e ficava sempre no porta-malas, para estancar o sangue. Quis levá-lo ao hospital, mas o homem se recusou. "Me leva para sua casa, Zé. Me deixa ficar por lá. Você ainda não lembra de mim? Esqueceu do Abud, o cara que veio lhe resgatar do inferno?"

Inferno? Foi uma pergunta inquietante. Era um assunto familiar. Zé Augusto era um cético sarcástico, um agnóstico despreocupado. Já havia em algumas ocasiões temido a possibilidade de um dia amanhecer entre fogo e enxofre, mas tratou de convencer a si mesmo que não valia a pena levar um medo desses à sério. Permaneceu por alguns minutos parado, em pé, ao lado de Abud, vendo o homem limpar-se, estancar o sangue, arrumar a roupa.

"Vamos Zé. Me ajuda aqui."

Cuidadosamente ajudou Abud a entrar no carro, mancando e gemendo, e voltou para casa. Apesar de não lembrar exatamente de onde, sabia que conhecia aquele sujeito estranho e intuía ser alguém de confiança. Ofereceu-lhe toalhas, roupas limpas e chuveiro. Enquanto ele tomava banho saiu para o escritório deixando um bilhete na mesa da cozinha: "A geladeira está cheia. Sirva-se e descanse um pouco. Estarei de volta no fim da tarde."



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30 de setembro de 2013

No inferno [09]


09.

A luz foi menos intensa naquela manhã. Zé Augusto tinha a sua frente não um único banco e uma única muda de roupa, mas um quarto espaçoso e um guarda-roupas razoavelmente grande. Estava confuso e tonto. Sentia como se tivesse despertado de um longo sono, depois de uma noite de muita bebida. Uma ressaca daquelas. Saiu do quarto cambaleando. Encontrava-se no andar superior de uma ampla sala de estar. Desceu as escadas segurando firme no corrimão e foi à cozinha preparar um café. Sentia-se em casa. A geladeira estava cheia. Serviu-se de algumas frutas, duas fatias de pão e café instantâneo com leite. Com a barriga cheia já se sentia muito melhor. Tomou uma ducha fria, vestiu-se com a primeira roupa que encontrou no armário, pegou a pasta que estava sobre a mesa da cozinha e foi até a garagem. No para-brisa do carro descansava um bilhete adornado com três corações mal desenhados à caneta: "A noite foi ótima - me liga". Não conseguia lembrar de nada sobre aquela noite, nem imaginar quem teria deixado o bilhete, mas sorriu discretamente e entrou no carro. Sabia que tinha assuntos urgentes à resolver. Tentava lembrar-se do conteúdo dos contratos pendentes, das reuniões anteriores, dos acertos com os moradores, do acordo com o governo do estado que comprometeu-se a garantir a remoção das famílias. Sabia que precisava ter tudo pronto, engatilhado, para iniciar a demolição e as obras antes que houvesse tempo de um recurso por parte de algum dos desalojados. Quando a porta da garagem abriu e a luz do sol lhe feriu os olhos, foi imediatamente fulminado com flashes de memória confusa. Via um quarto cinza, um loteamento fantasma de casas iguais, garoa, frio e um homem gritando seu nome pelas ruas. As imagens iam e vinham enquanto Zé conduzia o carro para a saída do condomínio onde morava. Acenou para o guarda na recepção e seguiu na direção de seu escritório. Vivia em um bairro nobre de uma grande capital. Fazia esse caminho todos os dias, inclusive finais de semana. Lembrava-se dos detalhes do percurso, das curvas, das praças, dos viadutos, dos restaurantes que frequentava. Passou em frente ao L'Ambroisie e lembrou-se imediatamente da noite anterior com Isabela. Olhou furtivamente para o bilhete que jazia sobre o banco do passageiro, sorriu, mas era difícil concentrar-se no que quer que fosse por causa das imagens estranhas que lhe vinham à mente como fotografias velhas em preto-e-branco. Foi desperto do instante de confusão pelo susto do solavanco e do som seco e grave que resultaram do impacto em seu para-choques. Freou o carro a tempo de ver o corpo que rolava sobre seu capô esparramar-se no chão ao seu lado. A rua estava vazia. Desceu do carro e tentou cuidadosamente analisar a situação do homem. Sem que fosse preciso tocá-lo, ele virou-se lentamente, gemendo e sujo do sangue que escorria da testa e das mãos. Olhou nos olhos de Zé Augusto com o rosto franzido de dor, e riu.

"Eu esperava encontrar-lhe aqui Zé. Só não achei que fosse tão rápido nem tão dolorido", falou mostrando os dentes brancos machados de sangue.



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26 de setembro de 2013

No inferno [08]

08.

Já era noite e aquele lugar resfriava até os ossos. Os vapores condensados saíam quentes pela boca acompanhando as palavras e a respiração. Pelas paredes escorriam gotas de água que deixavam o quarto ainda mais gelado. Zé Augusto sentou-se na cama desarrumada, Abud puxou o banco para perto e sentou-se também.

"Se aquilo é o inferno, Abud, você estava fazendo o que lá? Eu via você sempre por ali, me olhando de rabo de olho. Como é que você estava lá? Como é que veio parar aqui?"

"Esse é o meu trabalho Zé. Entrar no inferno pra tentar tirar alguém de lá. Nós saímos procurando, vagando, olhando nos olhos da rapaziada, vendo se encontramos alguém variando, alguém que mesmo estando lá, mete de vez em quando o nariz para fora. Alguém que com os olhos pede socorro, mesmo que não saiba ainda de quê quer ser salvo. Quando encontramos alguém, a gente cola no cara, segue ele, vai tentando descobrir onde ele está quando sai fora, quando ainda tem algum momento de lucidez no meio daquela confusão toda."

"E o momento de lucidez é isso aqui? Eu tô nessa merda? Isso é melhor que aquilo?"

"O seu momento de lucidez é esse aqui. Mas não é o mesmo pra todo mundo. Mesmo o inferno, cada um tem o seu. Eu já tive o meu, Zé, e me tiraram de lá. E não tinha nada a ver com o seu. Meu inferno era um templo. Uma igreja enorme. Tinha cruz, bíblica, pregação, evangelismo, batismo, tudo que você pode imaginar."

"No inferno?"

"No meu sim. Eu vivia aquele negócio todo entusiasticamente. Fiz uma bela carreira lá dentro. Tornei-me bispo, liderava multidões, cativava todo mundo com um discurso poderoso. Consegui um programa de TV, publiquei montes de livros. Falava de Jesus o tempo todo, de Deus, de amor. Era um discurso belíssimo. Mas era tudo voltado para meu próprio umbigo. Uma corrida para o sucesso ministerial. Abria a bíblica seletivamente, montava minhas mensagens com recortes de textos salpicados de todo canto. O discurso estava pronto, era só pesquisar textos compatíveis com o discurso, que era sempre de poder, de sucesso, de glória, de vitória."

"Estranho isso."

"No fundo, Zé, os infernos são sempre os mesmos. A aparência exterior é que muda. O meu inferno não era tão diferente do seu. Só mudava o cenário. É sempre assim. O cenário muda, mas é a mesma essência. É uma correria para si mesmo. E é tão si mesmo que, via de regra, é um lugar de absoluta solidão. Você lembra de alguém lá? Pode citar alguém pelo nome?"

"Rapaz, é tanta gente. Já tentei lembrar de nomes, mas não consigo."

"Multidão e ninguém são a mesma coisa."

"Mas ninguém por ninguém, aqui também estou sozinho."

"Estava, Zé. Agora você tem Abud" e uma gargalhada ecoou no quarto escuro.

"É. Já é alguma coisa. Mas, sinceramente, não sei se posso trocar aquilo tudo por isso daqui. O negócio lá parecia ir muito bem. Acho que eu estava crescendo e mais cedo ou mais tarde alguém acaba aparecendo, se aproximando, tonando-se amigo."

"Será? Até agora, a única coisa que você tem são flashes confusos na memória."

"Flashes confusos mas empolgantes. Com grandes perspectivas. Com futuro promissor. Tenho certeza que se eu vivesse aqueles momentos de fato, se estivesse consciente quando o dia claro está acontecendo, conseguiria fazer contatos, amigos, sei lá. E não precisaria abrir mão daquele luxo todo."

"Você já fez isso, Zé. Já viveu aquilo tudo consciente. Foi justamente aquela consciência que o tirou de lá, que o trouxe ao quarto escuro do poente. Você parou aqui porque já não suportava aquilo, porque sua consciência o trouxe para fora." Essa frase pareceu fazer sentido para Zé Augusto. Num instante sentiu de fato já ter vivido aquilo e soube que estava cansado, que já não suportava. Mas no instante seguinte creu estar delirando e aferrou-se novamente à ideia de que precisava voltar e viver aquela vida intensamente. E que seria bom. Seria maravilhoso.

"Não posso fazer nada por você além de estar por aqui, Zé. Voltar lá é fácil. O problema é que acaba chegando um momento em que você será engolido por aquela euforia e não cairá mais em si no poente. O dia vai virar e você ficará por lá. E não sei se encontro você de novo. Você pode tomar novos rumos, novos caminhos e tornar-se inacessível. É um risco alto."

"Eu vou de novo, Abud. Preciso ir. Esse quarto cinza me dá arrepios" e, enquanto falava, bocejou, ajeitou-se na cama, e dormiu.



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23 de setembro de 2013

No inferno [07]


07.

Era uma manhã diferente. A cabeça de Zé Augusto estava a ponto de explodir. Sentou na cama, nu, e ficou olhado as roupas limpas sobre o banco. Sabia que algo diferente tinha ocorrido, mas não conseguia agora lembrar o quê. Ficou sentado com os braços esticados apoiando o peso do corpo na beira da cama, tronco levemente deslocado à frente, ombros na altura das orelhas, testa franzida e olhos fixos nas roupas ao lado da cama. "Abud", balbuciou a palavra, tentando entender como ela havia parado em sua boca. "Abud, Abud...", continuou repetindo enquanto procurava na memória de onde vinha esse nome, mas não encontrou nada. Vestiu-se caminhou para a luz.

Acordou zonzo no quarto cinza. Os flashes de memória eram especialmente festivos. Recostou-se na cama e fechou os olhos para desfrutar das lembranças. Não se incomodava nem um pouco com a umidade e o mal cheiro do quarto. Parecia feliz simplesmente por lembrar-se, ainda que de maneira confuso, das loucuras do dia que passou. Queria dormir logo e voltar para lá.

"Zé! José Augusto!" Abud caminhava pela rua monótona e fria berrando e tentando ouvir alguma resposta. Temia que Zé Augusto não respondesse e que não o encontrasse mais. Sabia estar perto de sua casa. Passou uma longa e solitária noite, e um dia monótono e depressivo, aguardando o entardecer. Quando o sol já estava suficientemente baixo, começou a gritava com força enquanto caminhava naquele lugar estranho. "Responde Zé! Vem pra fora. É Abud, lembra? Nossa conversa de ontem?"

Um último fiapo de luz invadia a casa embolorada pela fresta da porta entreaberta quando uma voz distante se fez ouvir. Zé espremeu os olhos tentando usa-los para desvendar os sons. Abud? Quando enfim ouviu seu nome e percebeu-o também escrito em garranchos nas paredes descascadas do quarto frio, sentiu novamente o cheiro desagradável e percebeu o mofo, o bolor e a decrepitude do quarto. Os flashes cessaram e lembrou da noite anterior. Correu para fora: "Abud? Cadê você rapaz? Abud! Abud!" "Zé?", Abud ouviu os gritos vindo de suas costas. Virou-se e viu um vulto no meio da rua, 500 metros a sua frente. "Tô aqui Zé", e correu na sua direção.

A empolgação do abraço pegou os dois de surpresa. Soltaram-se e se olharam, um esperando a reação do outro. O sorriso sutil na boca de ambos eliminou os receios e voltaram ao abraço. Um longo abraço.

"E agora Abud, vamos pra onde?" "Pra sua casa. Seu quarto fedorento. Era esse o lugar que eu estava procurando." "Fazer o que ali, velho? Eu quero é sair desse beco infinito e cinza. Desse fim de mundo onde o sol se esconde todo dia, mas nunca nasce." "Eu já te disse, Zé. Teu problema não é esse lugar. Teu problema é o outro. É o lugar claro, iluminado e festivo que você visita diariamente. Lá é o inferno, aqui não." "Mas lá é mil vezes melhor que aqui, cara. Você pirou." "Entra no quarto, Zé. Senta na cama e vamos conversar."



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19 de setembro de 2013

No inferno [06]


06

"Eu é que preciso de sua ajuda agora Zé. Você precisa me levar até sua casa. O lugar onde você acorda todas as manhãs. O quarto iluminado da alvorada, ou o quarto escuro do entardecer. Precisamos chegar lá, nem que isso leve mais alguns dias."

"Eu sei de onde vim Abud. É só correr em linha reta, sentido oposto ao poente. Acho que caminhei duas horas até a esquina onde nos encontramos. É só andar duas horas de volta." E saíram os dois em silêncio, na noite escura, pela rua monótona e cinza, procurando por uma casa entre as milhares de casas idênticas que ladeavam a avenida. Não havia relógio por ali e, portanto, seria preciso imaginar o tempo passando enquanto os passos ligeiros e decididos iam ecoando nas paredes das casas.

Zé Augusto caminhava apreensivo, olhando repetidas vezes para Abud, tentando entender quem era ele, como o havia encontrado, o que fazia nas suas memórias, mas o homem simplesmente seguia em frente, em silêncio. Tentou formular perguntas, mas começou a sentir-se tonto e confuso e os flashes estranhos da memórias do dia voltaram a estalar na sua mente. Abud percebeu algo, agarrou-o firme pelo braço e seguiu conduzindo-o. "Vamos Zé. Toca em frente. Não é hora de lembrar de nada." E apressaram o passo, enquanto uma garoa fina começava a cair no meio da noite escura e fria. "Zé, presta atenção. Você vai acabar apagando, vai acordar no mesmo quarto claro de sempre, vai sair do quarto e ser engolido pela luz. Quando a luz cegá-lo por completo você terá entrado no lugar onde nunca deveria ter entrado. E vai ser uma loucura, Zé. Você sabe. O trabalho, os contratos, as festas, a grana, as mulheres, aquele monte de gente em volta, puxando o saco, sorrindo sempre. Aquilo é o inferno Zé. Não aqui. Lá. É só não voltar mais cara." A voz de Abud ia se afastando enquanto os flashes de memória inundavam a mente de Zé Augusto. Ele tentava ouvi-lo, tentava concentrar-se na rua, nos passos rápidos, nas casas monótonas, na garoa, mas sentia frio e um frio cada vez mais intenso. As gotas finas da madrugada pareciam agora agulhas incandescentes, queimando e rasgando sua pela em linhas finas e profundas. E os flashes eram mais intensos e reais. E eram secos, e alegres, e festivos. E havia o sol, e as ruas eram claras e uma brisa refrescante soprava sempre. Zé sentia-se lá e as feridas causadas pela garoa eram curadas pela brisa morna da memória. E havia gente por todo lado, correndo em sua direção, festejando enquanto gritavam: "ele voltou, ele voltou."



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