4 de junho de 2007

A trilha

A trilha está sendo aberta passo-a-passo, vezes por força bruta, fazendo a poeira empapar no suor do corpo, vezes com naturalidade e leveza que fazem tudo parecer um sonho. Em alguns momentos cada um de nós sente estar pavimentando-a sozinho, fazemos muito mais força que o necessário, e toda a carga das pedras e areia ferem profundamente as mãos e deixam as costas tão surradas quanto uma bota velha.

Mas não é sempre assim.

A maior parte do tempo o trabalho é mecânico, repetitivo e indiferente. Especialmente nas longas e planas retas que se lançam sobre os vales e cristas das montanhas. Sei dos longos períodos de monotonia por uma consciência monocromática e distante, como se os fatos acontecessem em outra vida.

As lembranças que brotam mais vivas e cheias de cor, como fantasias infantis e contos fantásticos, são lembranças de frações do tempo, registradas quase sempre nas paradas para renovar as forças exauridas. Quando nos viramos para sentar e descansar – muitas vezes com o estranho desejo de abandonar o projeto – as paisagens que se formavam atrás de nós enquanto trabalhávamos sem que tivéssemos consciência delas, se mostram em todo seu esplendor. Vales profundos, cumes tocando os céus, gaviões cortando o vento com um assobio seco, sóis, luas e o vento gelado renovando o ânimo. São poucos minutos dentro de um cansativo dia de trabalho. Mas minutos que valem o esforço todo.

Já se passaram 10 anos desde que entramos naquele matagal sem rumo certo. Inúmeras vezes as opções se abrem como leques para nós. Optamos por um vale ou uma rampa escarpada sem a menor consciência do que encontraremos à frente, nem sempre cientes de que o importante não é o trajeto em si, mas o fato de o estarmos escolhendo e construindo juntos. Hoje mesmo não estamos certos de que os passos que estamos dando nos levarão a um local seguro ou a um oceano intransponível de gretas profundas.

De uma forma ou de outra, a motivação continua sendo quem está ao meu lado. E a esperança é que consigamos seguir caminhando cordilheira acima, juntos, pelos próximos 10 anos, e muito mais.

Um comentário:

  1. André12:28 AM

    Como já compartilhei por e-mail, me deu grande alento ler este texto. Saber que e caminhada é dura mesmo, que outros também sentem isso. Me animou e reanimou a continuar e não esquecer dos belos planos que fizemos de passar a vida toda seguindo juntos esta trilha...

    ResponderExcluir