11 de outubro de 2007

Estar

Ao longo da história do cristianismo, a música sempre refletiu a teologia do seu tempo. Nos tempos do cristianismo bélico da reforma, um belo hino que se cantava tinha essa piedosa estrofe:

"Somos os poucos eleitos do Senhor
Que todos os outros sejam condenados
Há espaço suficiente para você no inferno
Não queremos um céu abarrotado"

Estrofe de um hino batista calvinista
[Timothy George - Teologia dos Reformadores - 1994 - pg 231]


Hoje em dia, se você entrar em uma livraria evangélica e dedicar uma pequena fatia do seu precioso tempo para escutar os CDs mais vendidos (peça ao vendedor que os indique), poderá perceber, não sei se rindo ou chorando, o que está rolando por aí.

Até mesmo boas músicas são, graças ao imaginário popular, alvo de interpretações negativas. Um bom exemplo é a frase de uma interessante canção que diz: “meu maior desejo é estar onde Jesus está”. A frase tem seu valor. Pode sim, ser encarada com nobreza. O problema está na definição e conotação. No imaginário popular cristão, estar onde Jesus está é "estar na igreja", no encontro, na campanha, no mover, na visão. O símbolo maior da presença do Cristo ressurreto é o torpor do corpo que vibra em um êxtase de emoções descontroladas, no meio das músicas/mantras cristãos que alimentam a congregação.

Mas esse dificilmente seria um lugar onde Cristo estaria. Pelo menos não parece o tipo de lugar que ele freqüentou em carne e osso.

Na verdade, a proposta de Jesus foi outra. Ele não queria que nós estivéssemos onde ele está, mas que ele estivesse onde nós estamos. Pode parecer uma diferença sutil, mas não é. É absolutamente essencial. Porque, afinal de contas, nós fazemos nossos amigos e inimigos, mas foi Deus quem fez nosso vizinho. E é ali, com nosso vizinho, com quem está do nosso lado a cada momento, a cada instante, que Jesus deve estar presente e fazer a diferença.

Está todo mundo careca de saber que o lugar predileto de Jesus era entre os fracos, pobres, cansados, pequeninos. Ele declara ousadamente que é entre esses que nós deveríamos estar, como tão bem observou aquela andarilha das mercês.

Mas nós queremos mesmo é a glória.

2 comentários:

  1. Que mensagem importante. É isso mesmo. Aliás, os reformadores tinham nisso um ponto central de sua pregação - a questão da vocação. Por isso é que eles fecharam os mosteiros. Achavam que não adiantava se isolar do mundo para ser santo. Achavam também que não havia separação entre clero e leigos. Ou seja, cada cristão tem que exercer sua fé aonde está, seja como professor, médico, carpinteiro ou advogado. E não apenas como monje, bispo, teólogo ou pastor.

    O hino que aparece no livro do Timoty George com certeza não é do tempo dos reformadores, mas posterior ao início do século XVII, quando se consolidou a doutrina da dupla predestinação também conhecida imprecisamente como calvinismo. Segundo esta doutrina Deus escolheu, antes da fundação do mundo, uns para serem salvos e outros para se perderem. E o sacrifício de Cristo seria apenas em favor dos predestinados.

    Está idéia não aparece claramente em nenhum dos reformadores, mas apenas em gerações posteriores, entre calvinistas ingleses principalmente. Mas estes cantavam apenas salmos, jamais "composições humanas". Só começaram a cantar hinos em meados do século XVIII.

    Acho que o Thimoty George fez alguma lambança histórica, mas preciso conferir no livro para ver a explicação que ele dá...

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  2. Você definiu com muita clarezaa o que eu sinto com relação à "igreja" que vivemos. Eu já não posso mais fazer parte disso tudo, vivo um conflito doloroso por querer estar entre irmãos que já tenham lido aquela partezinha da Palavre que diz:
    "Cristo 'em nós'..."

    Enfim...bendita internet1
    Bendita rede que nos reúne apesar de.
    um abraço
    (:o)

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