Ha'eve Irû

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Preparávamos as malas para deixar a tribo depois de dez dias. Seria o último pôr-do-sol na aldeia. Agudos feixes de luz atravessavam o horizonte como lâminas douradas que, tendo ferido o céu, banhavam-no em púrpura lancinante e agulhavam agora meus olhos entreabertos, enebriados pela visão do crepúsculo. O calor incrível do dia era agora empurrado para longe pela brisa macia que trazia consigo o veleiro da noite e todo seu frescor. Chegava sempre assim, deslizando suave sobre o horizonte amplo do cerrado e tocando minha pele como fria e leve seda que seduz um corpo fadigado e o levanta, renova, remoça.

Ha'eve Irû havia dito que viria. Queria despedir-se. Quando nos falamos, alguns dias antes, encheu-me de alegria ao lembrar meu nome e referir-se a mim como amigo. Tinha-o em alta conta desde que nos conhecemos dois anos antes, apesar de termos convivido por pouco mais do que uma semana. Revê-lo, dias atrás, ainda que por poucos instantes, foi para mim motivo de acanhada euforia.

Quando a noite já apontava discreta atrás do último horizonte e eu ainda esperava vê-lo uma última vez, surgiu do lado oposto ao sol, à contra-luz, como que emergindo das sombras. Aproximou-se lento e discreto, como todo índio. Eles não são, como nós, chegados a euforias e despeendimentos. São em tudo circunspectos e reservados. Sorriu como sempre sorri, apertou-me a mão e, à meia-voz, disse ter me trazido um presente. Pediu-me que reunisse a família e um outro amigo, pois tinha algo a nos entregar. Nos juntamos debaixo do teto de palha de um sombrero, Ha'eve Irû à nossa frente, as últimas lâminas douradas do sol sendo engolidas pela sombra, e o ouvimos. Enquanto articulava tímido um breve discurso agradecendo nossa presença, empunhou o violão que trouxera a tiracolo e abriu um pequeno caderno escrito à mão. E ofereceu-nos seu inesperado e comovente presente - cantou para nós, em sua própria língua, um hino de gratidão a Nhandejara, o Deus Kaiowá, o Deus criador, que havia nos levado até ali, nos colocado frente a frente e misturado nossas vidas em rico e amoroso caldo humano e cultural.

Na manhã seguinte pegamos a estrada com a alma sulcada pela marca aguda e pungente daqueles dias - especialmente da última noite e seu presente terno e eterno.


Ha'eve Irû
Letra da música no caderno - dialeto kaiowá

Ha'eve Irû. Bom Amigo, em guarani.

6 comentários:

Alysson Amorim disse...

Recolha minhas lágrimas.

Rubinho Osório disse...

A vida são histórias. Quando são belas, quão boa foi a vida!!!!

Malu disse...

Que lindo...e comovente!

Malu disse...

Que lindo...e comovente!

Koch disse...

a imagem real foi deletada
(culpa minha)
mas claro a imagem na tua mente voou, decolou como sempre, para muito além, para o mais profundo da alma...
não sei se peço perdão ou fico feliz...

Tato disse...

Puxa, mano, que presente...
Precisamos nos encontrar com mais tempo, pra vocês nos contarem mais.

Abração.