27 de dezembro de 2012

Poesia e Hollywood

E eis que, descendo do carro junto dum templo, ouvimos uma voz que nos anuncia que este é o monte em que Jesus pregou o sermão das beatitudes. E isso nos alegra e comove, embora a voz não venha de nenhum anjo do Senhor, mas do Dr. Alexandre Dothan, nosso companheiro de jornada. Minha mulher me aperta a mão. Vejo em sua face que está comovida como eu, só que seu sentimento deve ser de caráter religioso, ao passo que o meu é, digamos, de natureza poética. Ou estarei apenas jogando com palavras? Não será a religião uma forma de poesia e a poesia, bem no fundo, uma espécie de religião?

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Saímos a andar pelas ruas da cidade, à sombra de suas belas arcadas multicentenárias. Afirma-se que a atmosfera mediaval da velha Acre foi preservada. Eu não me admiraria se agora parasse toda uma caravana com seu chefe, criados e camelos à frente deste edifício que outrora foi um caravançará, e cujas abóbadas góticas parecem contar-nos estórias, como se guardassem ainda o eco das vozes de xeques, mercadores, bandidos e beduínos. [...]

Um menino árabe aproxima-se de nós e nos diz em sua língua algo que Dothan imediatamente traduz. O moleque nos quer mostrar a casa onde os americanos filmaram cenas para o filme Exodus. Verifico mais tarde, decepcionado, que esta cidade, tão empapada de história antiga e legítima, parece orgulhar-se de ter fornecido parte do cenário natural duma película de Hollywood.


Érico Veríssimo,
no seu livro Israel em abril.

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