3 de agosto de 2018

Deus e a inevitável dor de cada um



Não há empreendimento humano que não esteja inexoravelmente submerso na probabilidade – ou mesmo na fatalidade - do sofrimento. Viver é sofrer e todo mundo sabe disso. O parto é sofrimento e angústia para a mãe e o bebê. Mas é da dor da mãe e do pavor do bebê que surge a vida – e daí em diante, dor e pavor nos acompanham sempre. É evidentemente claro que ninguém haverá de passar seus dias nesse planetinha azul sem conhecer a dor e o desespero. Mesmo o mais feliz dos filhos de Deus haverá de sofrer uma hora ou outra, e não é de espantar que o sofrimento seja a mais insistente e inquietante questão que se levanta contra Deus. Se Deus existe e é bom, não haveria sofrimento. Se há sofrimento, ou Deus não existe ou não é bom. A equação é simples. Será?

A dificuldade toda se instala na ideia comum de que dissociar a experiência humana do sofrimento seja sinônimo de associa-la com alegria, com plena satisfação, com nirvana. Como se fosse sensato afirmar que a ausência de uma coisa qualquer signifique a presença de outra. É também importante lembrar que só distinguimos a alegria quando comparada com a tristeza. Ninguém jamais poderia afirmar - "estou feliz" - se não pudesse comparar essa sensação com alguma outra distinta e oposta. C. S. Lewis descreve esse dilema dessa forma:

"Meu argumento contra Deus era que o universo parecia tão cruel e injusto. Mas de onde tirei a noção de justo e injusto? Um homem não chama uma linha de torta a menos que tenha alguma ideia de uma linha reta. Com o que eu estava comparando esse universo quando eu o chamei de injusto?"

Se eliminássemos o sofrimento da experiência humana não entraríamos em um mundo feliz e cor-de-rosa mas encerraríamos a experiência humana e toda sua liberdade, e todas as suas possibilidades, e todas as suas sensações. Encerraríamos a possibilidade do êxtase pois não conheceríamos o profundo e escuro abismo que se lhe opõe.

Já argumentei em outras situações que a noção bíblica de pecado nada tem a ver com imposições de regras de um Deus mandão. O pecado bíblico fundamenta-se em um aviso de cuidado: "o ministério divino da saúde adverte, cometer [coloque aqui seu pecado bíblico favorito] fará mal a você ou a alguém perto de você, mais cedo ou mais tarde". É por isso que o pecado, no Éden, está associado ao acesso da humanidade ao 'conhecimento do bem e do mal'. E é por isso que se diz que o sofrimento é consequência do pecado. Sofrimento é dor que só encontra lugar em seres agraciados (ou amaldiçoados, dependendo do ponto de vista) com consciência - com conhecimento de bem e mal.

Não é sensato, portanto, requerer de Deus a extinção do sofrimento na nossa realidade, a não ser que estejamos dispostos a encarar a extinção da própria realidade.

Da mesma forma não é sensato julgar que, se é assim, então Deus é mau - ele deveria ter inventado realidade melhor. A não ser que lhe pareça que, de fato, viver é horrível e seria melhor não existir. É claro que nesse ponto podemos sair da teoria e mergulhar no drama existencial de quem vive um daqueles sofrimentos terríveis – sofrimentos de morte. Seria relativamente sensato para esse indivíduo julgar que nada vale a pena e desejar nunca ter nascido, ainda que, com alguma insistência, mesmo as mais terríveis dores de morte podem ser deixadas para trás. Essa é a diferença terrível entre argumentar sobre o sofrimento e vivê-lo. Os argumentos não servem pra que está sofrendo, como soube muito bem Jó, quando estava em profunda agonia entre seus amigos. Mas mesmo Jó terminou sua história refundando-a, superando a devastadora avalanche que lhe sobreveio e, no fim das contas, encontrando o Deus que ama não mais como um conceito abstrato, mas como presença viva e fonte de esperança.

Enfim, pode-se viver relativamente bem, superando os sofrimentos um a um, ou viver mal, afundando-se neles cada vez mais. Mas não se pode evitá-los. Pelo menos não por muito tempo.

Feliz daquele que num vislumbre de Eternidade, no meio da dor, consegue afirmar o que afirmou C. S. Lewis: "o sofrimento de agora, é parte da alegria de então". Toda mãe, depois do parto, percebe isso.

Um comentário:

  1. Mano, não fica muito tempo sem escrever... Abstinência bate!

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