1 de fevereiro de 2007

Travessia montana

Araçatuba x Crista

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Conseguimos uma carona com meu cunhado. Partimos de madrugada em direção ao povoado de Matulão, em Tijucas do Sul. Subiríamos a montanha conhecida como Araçatuba e de lá caminharíamos por 5 dias entre os cumes da serra do Quiriri, até o Monte Crista, em Joinville. Os amigos Fabrício, Rogério e eu. Era agosto e o frio do inverno ainda dominava. O desejo de percorrer aqueles cumes nascera muitos anos antes. Mas somente no ano anterior é que ele passou a estar à caminho da realização, quando o colega GiancarloCover’ realizou a façanha com um amigo.

No início de 2006 tive acesso às cartas topográficas e fotos do Cover. A partir daquele momento o trajeto passou a ser efetivamente planejado. A melhor opção é sempre o inverno. Dois companheiros empolgaram-se com a idéia. Concordamos quanto ao trajeto e data da travessia.

A carona do Ricardo foi providencial. Iniciamos a caminhada às 8h30 da manhã. Caminhávamos lentamente, sentindo o peso da mochila, com mantimentos para 5 dias. Chegamos ao cume do Araçatuba às 11h30. O horizonte estava perfeito. Podíamos ver nosso destino dali a 2 dias. Seguimos em direção ao Baleia, sabendo que entre nós havia um vale profundo.

A maior parte do trajeto dessa travessia acontece em belos campos de altitude, com um visual imenso, horizonte distante e passos rápidos. Cruzaríamos apenas alguns trechos de vegetação densa, nos vales mais profundos entre um cume e outro. O sobe e desce, no entanto, seria certamente extenuante.

Na passada entre Araçatuba e Baleia chegamos à nossa primeira fonte de água. Tocamos ainda até o Moréia, onde passamos a primeira noite. A barraca foi armada no cume. Um belo jantar quente e um maravilhoso por do sol sob denso mar de nuvens foram nossa canção de ninar.

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O destino do segundo dia era a base do Imbira, logo depois do campo de pinus. Saímos a passos largos, movidos pela empolgação do céu azul, do ar puro e da bela paisagem. Trotamos rapidamente das 8 da manhã às 2 da tarde, com algumas rápidas paradas pra água e uma e outra barra de cereal. Passamos por um belo rio no vale abaixo do Moréia. O tempo extremamente seco facilitou a passagem pelo leito do rio. O volume de água era mínimo. Paramos, às 14h, em frente a um taquaral assustador. Sabíamos, por indicação do Cover, que deveríamos derivar para o oeste, antes de enfrentar as taquaras. A difícil decisão era – quanto mais a oeste?

Próximo das 14h entramos no famigerado taquaral. Lutamos bravamente contra as folhas afiadas que rasgavam nossa pele por intemináveis 5 horas - muito, mas muito mais do que esperávamos. Sabíamos que nossa libertação estava debaixo das copas de pinus, onde não há vegetação nenhuma, no fundo do vale. No auge da nossa batalha contra as pegajosas, cortantes e invencíveis taquaras, em nosso delírio libertário, víamos copas de pinus para todos os lados. Pura ilusão. A noite caiu sobre nós impiedosamente e nos obrigou a render-nos aos inimigos. Fomos agraciados ainda com um pequeno leito de rio, que nos possibilitou reabastecer os cantis e comer algo quente. Deitamos por ali mesmo, em meio às taquaras malditas, e dormimos profundamente.

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Estávamos atrasados. Mais meia hora de luta contra os bambus e chegamos aos nunca antes tão bem-vistos pinus. É uma região de plantio de árvores da ‘Confloresta’. Durante 4 horas caminhamos por estradas abertas por tratores e caminhões para extração de madeira. É a parte mais feia da travaessia. Presença humana é sempre sinal de destruição. Chegamos na base do Imbira (onde planejávamos ter dormido a noite anterior) perto do meio-dia. Dali víamos perfeitamente o caminho que fizemos pelo taquaral. Um trecho mínimo que, não fosse por aquela vegetação cruel, poderíamos transpor em meia hora.

Traçamos um objetivo corajoso. Avançaríamos incansavelmente até o campo depois do ‘marco da divisa’. Teríamos que passar a noite lá, para compensar o atraso do dia anterior. Daqui pra frente teríamos somente campo de altitude pelo caminho.

Um longo trecho de descida nos levou a um revigorante leito de rio. Cantis cheios, cara lavada, e caminhamos a passos largos, já completamente fatigados, em direção ao marco da divisa. Nossa rota não passa exatamente pelo marco. Deixamos as mochilas no caminho e corremos até a divisa para algumas fotos. A essa altura, caminhar sem mochila é quase como voar. Que delícia. Novamente de mochila nas costas, retomamos o rumo com destino aos campos onde planejamos pernoitar.

Chegamos lá sob a luz da lua cheia, às 19h30. Barraca, jantar, e boa-noite. O Fabrício e o Rogério resolveram dormir ao relento. Eu, por conta da sinusite que estava combatendo à base do antibiótico, achei mais prudente entrar na barraca.

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O quarto dia seria longo. Teríamos que dormir o mais próximo possível do Crista, para não perdermos o ônibus na BR no quinto dia. Conseguíamos visualizar o Morro da Antena, por onde passaríamos. Seguimos naquela direção. O vento fortíssimo fazia com que o capim parecesse com o mar agitado. Víamos as ondas nos contrafortes dos morros ao redor.

Chegamos ao Antena às 10h. De lá avistávamos, bem abaixo de nós, a ‘Fazenda Quiriri’. Passamos ao lado da sede e subimos mais uma pequena serra. Acompanhamos toda ela pela sua crista, rumo ao leste, até descermos por uma crista transversal ao sul. De um pequeno cume, avistamos finalmente nosso destino final – o Crista.

Empolgado por aquela visão do paraíso, descambamos em direção à Pedra do Urubú, no que seria a última grande subida antes da longa rampa que dá acesso ao Crista. No Urubu, com o Crista quase me chamando pelo nome, fui tomado por uma sensação de êxtase. Durante longos minutos, leve como uma pena por ter abandonado a mochila, louvei a Deus pela beleza da sua criação. Obra divina, sem sobra de dúvida, tudo aquilo.

Novamente com os pés no chão e a mochila nas costas, descemos a deliciosa rampa em 4 horas. Às 19h estamos estarrados no chão plano e aconchegante do crista, logo abaixo do seu imponente ponto culminante.

A empolgação do momento ainda deu gás para um ataque ao cume. À luz de lanternas caminhamos para lá eu e o Fabrício, enquanto o Rogério preparou nosso último jantar. Não conhecíamos a trilha e chegamos apenas a um ante-cume. Mas valeu a pena. A visão das luzes da cidade de Joinville sob a lua cheia era maravilhosa.

A noite estava tão perfeita que a barraca nem saiu da mochila. Sopão delicioso e uma derradeira noite sob o céu estrelado. No dia seguinte estaríamos de volta à civilização.

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O nascer do sol foi quase inacreditável. Passamos alguns belos momentos da mais pura contemplação, boquiabertos com a beleza do momento. Depois, tratamos de ‘rolar morro abaixo’. A descida do Crista é interminável. Passamos por uma bifurcação perto da base e seguimos o caminho que o instinto indicou. Por vários momentos tivemos a sensação de estarmos no caminho errado. Paramos algumas vezes para conversar sobre a possibilidade de voltar. Mas tocamos em frente, graças a Deus.

Às 11h saímos da densa floresta atlântica que nos encobriu por toda a manhã e nos deparamos com o belo rio que passa no sopé do Crista. Um belo banho e um rápido lanche e estávamos prontos pra encarar a BR.

Mais 4Km de estrada de chão e pronto. Às 12h40 pegamos o ônibus para Joinville, e de lá para Blumenau.

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O trajeto é espetacular. As paisagens são de tirar o fôlego. Com horizonte bem claro se pode ver todo o litoral do Paraná e boa parte do litoral norte de Santa Catarina. As baías de, Paranaguá, Guaratuba e Babitonga destacam-se ao leste. Forçando os olhos, você consegue perceber a ilha do Cardoso, no sul de São Paulo. A beleza dos campos de altitude não fica para trás. E, evidentemente, a companhia de bons parceiros como o Fabrício e o Rogério fazem todo sofrimento valer a pena.

Todas as fotos da travessia, bem como localização, distâncias e demais informações técnicas estão aqui.

Um comentário:

  1. fala tuco!
    grande empreita hein??
    me deixou com vontade tb...lidos lugares...já andei no araçatuba e na regiao do quiriri...mas a travessia completa é show demais!
    excelent a apresentação tb.
    parabéns!
    grande abraço

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