2 de julho de 2007

O estranho

Eles estavam no restaurante quando o estranho chegou. Era um desses hotéis de beira de estrada, mas muito bem cuidado. Quadros, vasos e tapetes estavam dispostos de forma meticulosa, e tornavam o ambiente bastante agradável e aconchegante.

Tinham viajado a trabalho, e voltavam para sua cidade com urgência, rumo a um grande e imperdível show gospel, de uma banda internacional. Tinham participado exaustivamente da organização do evento, e criam que seria uma grande oportunidade de colheita. Nos últimos anos, ambos tinham se envolvido na igreja como nunca. Estavam presentes em todos os programas, a maioria das vezes na organização. Lideravam pequenos grupos, tinham seus próprios discípulos e passavam a maior parte do tempo na igreja. O show havia sido amplamente divulgado, inclusive em rádios e jornais seculares, e teria forte ênfase evangelística. Àquela hora, o sol já estava se pondo. O dia inteiro dentro de um carro dava aquela desagradável sensação de corpo enrijecido, com dores nas articulações e nas costas. Conversavam naquele instante, lembrando da cena que viram na estrada, sobre a decadência da raça humana.

– O rapaz estava certamente embriagado – dizia o motorista, enquanto se espreguiçava com as mãos nas costas, à altura da cintura.

– Ou drogado – completava o passageiro – mas certamente fora de si.

Lembraram da cena com um misto de pena e desgosto; quase desprezo.

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Era uma longa reta e o tempo estava claro, com o céu azul e o horizonte distante e branco. A visibilidade na estrada estava perfeita. De longe viram a pequena mancha atravessando a rua, mas movia-se devagar e cambaleante. Havia tempo bastante para ir e voltar de um lado a outro da pista pelo menos uma dúzia de vezes. Mas a mancha crescia no centro da pista, deslocando-se meio metro para frente, metro e meio para trás. A figura tomou vulto enquanto o carro aproximava-se dando a ela formas humanas.

– Cuidado – disse o passageiro, enquanto o motorista tirava o pé do acelerador por prevenção. Ainda estavam longe do homem, mas já podiam perceber seus trajes e a sujeira impregnada em sua roupa, pele e cabelos. Era um homem alto e forte, e certamente ainda estava longe dos 40 anos.

No auge dos seus anos produtivos trocando a saúde e o trabalho pelo vício e a conseqüente miséria – pensavam com um misto de pena e descaso.

Passaram ao lado dele bem lentamente, e ele os encarou nos olhos, acompanhando com a cabeça e depois com todo o corpo o movimento do carro, até as pernas se cruzarem e o corpo desabar no chão. Os dois se olharam, ambos pensando em sugerir uma rápida parada, mas não disseram nada.

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O estranho que entrou no restaurante chamava a atenção não pelo barulho que fez abrindo a porta violentamente, nem pela respiração ofegante, mas pelos trajes e paramentos que trazia no corpo. As tatuagens e piercings davam-lhe aspecto rude e agressivo.

– Conheço esse cara – sussurrou o motorista para seu colega, escondendo a boca com a mão espalmada – cresceu na igreja junto comigo. Era uma boa pessoa, mas há anos não o vejo mais lá.
O assunto da decadência humana ganhava agora novo fôlego. Desviaram a argumentação para o inacreditável fato de que alguém, tendo sido crente, pudesse tomar um outro caminho e largar a igreja. A preocupação com os rumos da humanidade era tanta que nem sequer perceberam o assunto que o estranho tratava com o atendente do hotel. Viram apenas que, depois de algumas frases rápidas, ambos saíram em direção ao estacionamento.

Os dois amigos levantaram-se e se dirigiram ao caixa enquanto conversavam. Tinham que pegar a estrada novamente para chegar a tempo ao show. Sabiam da importância de estarem presentes lá, no grupo de intercessores, para que o resultado depois do apelo fosse positivo.

Nesse instante a porta do hotel se abriu novamente com violência. O atendente e o estranho amparavam, apoiado nos ombros, um homem cambaleante.

– Ele foi assaltado, surrado e abandonado à própria morte na beira da estrada – comentou aflito o atendente diante do olhar assustado dos dois amigos.

A cena lhes era familiar. Os olhares da vítima e dos amigos cruzaram-se novamente. Enquanto era lentamente carregado hotel à dentro, seus olhos permaneciam atraídos pelo olhar ainda espantado dos crentes. Olhos nos olhos, as cabeças de ambos giravam sobre o corpo, acompanhando o movimento da vítima, até que suas pernas trançaram, mas não chegaram a cair.

Já dentro do carro, viram o homem tatuado deixando algum dinheiro no balcão, enquanto o atendente do hotel trazia água e algum alimento para o homem abandonado na beira da estrada. Mas estavam atrasados e tinham grandes expectativas em relação ao show. Muitas vidas haveriam de ser salvas lá.


Sobre esse assunto:
Missão: alegria e lágrimas
Lucas 10:25-37

Um comentário:

  1. andré7:48 AM

    Que bela contextualização da parábola do bom samaritano...
    Às vezes ficamos tão preocupados em ser "evangélicos" que nos esquecemos de ser cristãos, isto é, seguir o exemplo de Cristo. O que a parábola nos mostra é que aquele que "não está na igreja" às vezes é mais cristão do que nós!

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