11 de setembro de 2007

Escuridão em Calcutá

Já faz algum tempo que a figura franzina e enrugada daquela senhora me fascina. Levanta-se à minha frente como um assombroso exemplo de que é realmente possível lançar o corpo em mar aberto sem ter onde apegar-se. De forma absolutamente inconseqüente, aquela mulher ouviu o grito de “” do Mestre e arribou-se gaiola afora para desfrutar a apavorante liberdade que a privaria de toda segurança que a sensatez exige. Exemplo terrível.

Ontem, porém, através das páginas de uma famosa revista (para usuários cadastrados), essa doce senhora deu um salto vertiginoso aos mais altos degraus do meu seleto grupo de discípulos de Cristo que merecem respeito. Para escândalo de alguns e meu deleite pessoal, Madre Tereza, lá num canto escuro de Calcutá, duvidou da presença de Deus. Envolta dela, e de todo o sofrimento humano que a cercava, permaneceu somente densa escuridão. A Providência deu lugar à solene Ausência.

“Eu tenho apenas a alegria de não ter nada –
nem a realidade da presença de Deus”.

Madre Tereza de Calcutá, em carta ao seu confessor, padre Joseph Neumer.


Obviamente, do conforto de suas poltronas de madeira nobre e belos ornamentos, na segurança gélida das catedrais úmidas, padres e bispos aconselharam a moça. Pastores e diáconos não teriam feito diferente. As palavras, no entanto, não dissiparam a escuridão. Como é fácil ter fé dentro da gaiola. Sei bem como é. Solto por aí, vendo fome, miséria, dor, sofrimento, morte, medo, violência e injustiça, não há fé que agüente.

– Onde está Deus? – grita o aflito em sua agonia.

Ao invés de respostas corretas e geladas, deveríamos oferecer o calor e aconchego de nosso peito e dizer, sinceramente:

– Não sei. Mas eu estou aqui.

10 comentários:

  1. Um tamanho amor assim eu quero sentir pelo outro!
    Deus na prática!
    Que mulher, que pessoa mais admirável. Sua vida nos constrange...
    Concordo com você, ela ouviu o "xô" do Mestre,arrebentou o alçapão e bateu asas. Só isso explica tamanha coragem.
    Maravilha de post!
    Abração mano!
    :)

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  2. Putz, mais um desses posts pra fazer a gente se sentir uns porcarias...

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  3. E eu aqui, no meu poleirinho, balançando e pensando: "Acho que vou bater asas. O que vou precisar lá fora? Acho que vou levar meu notebook, escova de dentes, uns pares de sapato, né? Que mais, que mais?..." e continuo no meu poleirinho...

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  4. Foi um prazer passar por esta página encantada .

    "...Enfeitiçantes estas cores irão fazer
    Uma imagem encantada na tela aparecer..."


    Um abraço .

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  5. Anônimo10:02 PM

    Nossa como eu gostaria de ter acesso a um posts desse ante. Eu teria me calado, quando ousei falar de Deus! Que arrogância essa nossa, falar de Deus!!

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  6. Tuco,

    Obrigado por essas palavras, cara.

    Há muito não lia algo tão pungente e vivo quanto o primeiro parágrafo dessa sua preciosidade.

    Abração.

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  7. ei, cara, falou e disse, com certeza todos nós passamos por momentos em que não acreditamos que Ele esteja perto de nós... Mas às vezes é nesse momento mesmo que Ele está "trabalhando". Eu tou passando por um desses agora, barra pesada, mas hoje eu fui fazer umas compras e quando voltei, resolvi descer na praia e ficar admirando o mar. E aquela foi uma das melhores orações da minha vida, que minha encheu de confiança parar que, agora que eu reconheci que não sou nada, não posso ser nada nem nunca vou ser nada, eu possa (re)começar a andar rumo a Deus!
    abração cara, a paz!

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  8. Uns dois anos de atrasado, mas venho aqui também prestar meu respeito!

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  9. Valeu Roger. Quem merece respeito é essa senhorinha lá de Calcutá. Respeito e imitação.

    Abraço.

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