11 de junho de 2009

Negação da negação

Dia 7 de junho foi o Dia da Igreja Perseguida, criado para mobilizar cristãos de todo o mundo em favor dos irmãos perseguidos em regimes políticos mais 'fechados'. Teatro, pregação, música e histórias sobre cristãos sofredores foram a pauta do dia em centenas de igrejas por aí. A ênfase cai quase que inevitavelmente na descrição de situações reais em que cristãos são torturados para que neguem a fé. Nossa sensação de vitória sobre o mundo repousa sadicamente sobre o sangue derramado de mártires que se mantiveram firmes em Cristo até a morte (enquanto nós o negamos descaradamente dia-a-dia, com nossa solene omissão no desafio de segui-lo como agentes de amor, graça, justiça, misericórdia, perdão e paz).

Quando voltava para casa no fim do domingo, minha filha de 7 anos fez a pergunta que ninguém faz: - Se não pode negar Jesus papai, como Pedro negou?

É essa a mensagem que fica - não pode negar Jesus. É proibido. É apostasia. É despencar do céu até o caldeirão do inferno. Amamos repetir a frase de Tertuliano: o sangue dos mártires é a semente da igreja. Mas tentamos não espalhar a notícia de que para cada mártir que não negou Jesus, dezenas de cristãos permaneceram vivos por tê-lo negado e não deixaram de ser cristãos. Não quero faltar ao respeito com os mártires. Admiro sua coragem e fé. Só não quero é esquecer-me dos que, apanhando, negam seu mestre com o coração partido e entre lágrimas, diante do sangue de seus companheiros mortos. Não quero esquecer-me que esses são graciosamente acolhidos pelo amoroso Rabi que os abraça, enxuga suas lágrimas e tão somente diz: filhinho, se você me ama, cuide das minhas ovelhas.

No Japão do século XVI, entre milhares de mortes e centas de milhares de "apostasias", os Shoguns eliminaram de suas terras todo vestígio de cristianismo. Shuzaku Endo descreve* em seu romance "Silêncio" o momento em que, em meio a lágrimas, dores, morte e sangue, o padre português Rodrigues nega seu mestre pisando sobre a imagem de Cristo:


"É apenas uma formalidade. Para que servem as formalidades?", pergunta, nervosamente, o intérprete. "Siga adiante com o ato exterior de pisá-lo." O padre levanta o pé. Sente uma dor profunda. Aquilo não era apenas uma formalidade. Ele está prestes a pisar naquilo que considerava a coisa mais linda de sua vida, no que acreditava ser puro, que estava cheio dos ideais e sonhos dos homens. Como seu pé dói! Então, o Cristo em bronze fala ao padre: "Pise! Pise! Eu, mais do que ninguém, conheço a dor em seu pé. Pise! Foi para ser pisado pelos homens que vim ao mundo. Foi para compartilhar a dor dos homens que carreguei minha cruz". O padre colocou o pé sobre o fumie. O dia amanheceu. E lá, bem longe, o galo cantou."


O sangue dos mártires, no Japão do século XVI, não foi a semente da igreja, mas seu túmulo.

Enquanto isso o túmulo da igreja ocidental está sendo cavado com a sistemática negação de Cristo em favor de projetos warrenianos para uma igreja de sucesso baseado na lógica de mercado.


*Do livro Alma Sobrevivente. Sou Cristão Apesar da Igreja, de Philip Yancey.


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Veja também:
A noiva e o jardim
A loucura e o sucesso

Nossa única esperança de redenção

7 comentários:

  1. Se continuar assim, poderá ser chamado de cristão emergente. Não sei se isso é uma garantia contra uma provável apostasia, mas deixar o caminho dos warrenianos já será um grande começo.

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  2. Comecei a alguns minutos a ver o DVD de D.Bonhoeffer. E me pego novamente meditando na pergunta afinal valeu a pena? Ele mesmo tratou de evitar o martírio de muitos...

    A questão dos crentes apóstatas foram um grande problema para a igreja primitiva: será que poderiam ser readimitidos?! Isso gastou muito discurso e levou a divisões.

    Afinal Pedro também mais tarde foi martirizado... tudo tem um tempo certo.

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  3. Lou, prefiro minha parte em dinheiro.

    Roger, tô doido atrás desse filme e não encontro aqui na minha terra. Tentei por vias legais, agora vou recorrer à pirataria... tudo tem um tempo certo.

    :-)

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  4. Tuco,

    vamos ver o que posso fazer para te ajudar. Em último caso eu copio e envio via Post, mas talvez haja uma maneira de enviá-lo via internet.

    :D

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  5. Oi Tuco.
    Sou a Bruna, do curso de escritores do SESC.
    Só pra te "avisar" que visitei teu blog, e continuarei visitando. :)

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  6. Oi Bruna, valeu. Vou passar lá no seu com calma uma hora dessas.

    Roger! Se vc realmente tem como fazer isso lhe agradeço muito. Conheço umas formas legais de enviar grandes arquivos. Fale comigo por email (clica no 'tucoegg' e no 'perfil completo'). Valeu mano.

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  7. DVDs à parte, creio ser apropriada a afirmação do Brabo - cada um faz o que quer - em referência à negação de Cristo, do qual somos todos participantes, de uma forma ou de outra, num momento, num dia, ou numa vida inteira.
    Só me mantém vivo - e não morro de vergonha - a esperança de que minha negação já tenha sido esquecida pela Graça...

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