17 de abril de 2007

O quarto rei

Pouco sei dos seus tempos de guri. Mas sei que no início da juventude se tornou cavaleiro da tropa montada do exército. Sei também que durante uma das epidemias de tuberculose que assolou o país, infectou-se, e passou um longo ano recolhido em um sanatório, que isolava os enfermos na ânsia de eliminar o mal. Depois disso foi grande arqueiro do Palestra Itália de Curitiba (posteriormente homenageado pela AABB com um campo de futebol com seu nome). Foi também campeão de inúmeros torneiros de tênis de mesa. Mas foi definitivamente imbatível na tábua lisa e encerada do fabuloso Três reis. Lá foi mestre. Foi o quarto rei.

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No estalar dos dedos firmes, a jogadeira lançava-se convicta sobre a multidão de peças no centro do tabuleiro. Dos cantos mais improváveis espirravam peças obtusas em ângulos impossíveis sempre na direção certeira da caçapa. Vencia-nos impiedosamente com a mão esquerda, três cantos contra um. Se um dia tivesse havido uma copa do mundo desse jogo, teríamos mais um herói nacional. Invencível, levaria o país a loucura.

O jogo

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Herdei seu nome e lembro docemente daquela voz forte e teimosa dizendo, enquanto seus olhos desencontrados me procuravam, com misto de orgulho e sarcasmo – Os 'Arthures' são assim mesmo.

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Mas houve atos maiores de bravura. Maiores que todos os feitos da juventude, foram os feitos da velhice. Os passeios até a banca pra comprar um gibi para cada neto. As deliciosas e tradicionais saídas para a Batavo, comprar um chocomilk em forma de pirâmide nos sábados depois do futebol do glorioso Pobreza F. C., timão de pelada do qual ele era o técnico honorário. Os mistérios insondáveis do “móe-vidro”. Incontáveis são as horas que passei jogando basquete sozinho no quintal da sua casa. Ou tênis de mesa à noite, na garagem, com meu irmão. E quando ele aparecia por lá, quase cego, um olho apontando para cada canto da mesa, ganhava todas.

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Lindo mesmo foi ver meu filho com ele. O vigor e a empolgação com que o recebia, abraçava, conduzia para seu escritório e lá passava horas entretendo o bisneto no tabuleiro onde ainda jogava, agora com os dedos trêmulos, suas partidas de três reis. Por vezes permanecia manhãs inteiras sobre o tabuleiro, divertindo-se, como nenhum adulto poderia, com uma criança de 1 ano.

Antes de aprender a andar meu filho já fugia de casa (morávamos nos fundo do terreno do meu avô), engatinhando rumo a casa do ‘bisa’. Mantinha-se em pé apoiado na porta de vidro onde batia fervorosamente, gritando uma das poucas palavras que podia articular – Bisááá! A porta se abria rapidamente, e lá iam os dois, não se podia dizer qual deles mais feliz, em direção àquele escritório repleto de delícias e mistérios.
Espero um dia, no vértice da eternidade, alcançar a graça de me transformar em verbo. E que todos os meus amigos estejam lá [especialmente meu avô].
Ricardo Gondim (obviamente com uma inclusão minha entre []s)
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Baixe o manual do jogo em PDF aqui.

Regras, imagens e instruções para confecção do tabuleiro e peças.
Tudo elaborado pela "única autoriade do assunto", me modesto avô, Arthur Acastro Egg.

13 comentários:

  1. Tanta coisa pra comentar, meu mano... Mas agora só consigo enxugar as lágrimas.
    Que saudades bateu do nosso vôzão!
    Que vovô mais "batuta" ele foi!
    Quantas histórias, quantas lembranças boas...

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  2. André8:16 AM

    Estou aqui, com os olhos cheios de lágrimas lembrando do nosso querido vô, que usava esta palvra quase como título de nobreza, que ostentava com orgulho.
    Obrigado por este belo texto e parabéns pelo belo blog - aos poucos vou me inteirando dos outros textos e, quem sabe, deixando uns palpites.
    Dá uma saudade do tempo em que éramos crianças brincando inocentemente lá na casa do vô...

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  3. Anônimo10:45 PM

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  4. Ieda Amaral Egg Silveira9:27 PM

    Tuco:
    Ele não foi meu avô, mas muito antes de ser o seu avô já era o meu "tio preferido". E sempre dizia (provavelmente brincando) que eu era sua "sobrinha predileta". Foi mesmo um verdadeiro Rei, mantendo à sua volta , junto com sua amada Rainha, um grande séquito de amigos e agregados. Que saudade!
    Que bom reconhecer em v. um escritor, talvez um poeta, alma sensível e coração amoroso.

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  5. lourdes12:11 AM

    No dia do falecimento do vô, a Pati me falou:"Mãe, não sei como êle foi como pai, mas como avô e bisavô não teve outro igual" Concordo com ela pois desde que chegaram os netos êle dizia com muito orgulho, de boca cheia a quem perguntasse sua profissão:AVÔ.
    Curtiu os netos e bisnetos o quanto êle pode. Lembra das idas à Loja Murici com um bando de crianças para comprar presentes todo dia 20 do mês? Fui com vcs uma vez...que loucura...e êle pacientemente esperava todos escolherem seus brinquedos. Bem, eu não tive coragem de ir a segunda vez.
    Que saudade do velhinho...êle foi muito meu amigo, cumplice, confidenciávamos muitas coisas e eu sinto muita falta dele aqui nesta casa.
    Que legal, filho, você ter escrito esta merecida homenagem para êle

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  6. Dilma ALvim11:39 PM

    Tuco, Que grande satisfação e alegria ler esta homenagem ao nosso amado e inesquesível Tio Arthur. Ele marcou a vida de todos que tiveram o privilégio de , não sómente conhecê-lo, mas também conviver.
    Pessoa ímpar. Um romântico e apaixonado marido, companheiro e admirador de sua amada Aladia.
    Autêntico em tudo que falava e fazia.
    Sua casa sempre foi "uma porta aberta"para todos que o conheceram, não é mesmo?
    Homem íntegro, um tio querido, cheiroso, sempre.
    Tenho saudades de sua presença, de sua voz forte e linda, dos hinos que cantava,....Tenho saudades.
    Que bom que voce o trouxe mais perto de nós através de seu gesto amoroso. Voce me surpreendeu. Deus o abençõe.

    Dilma Alvim

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  7. Paulo Roberto de Andrada Werner12:08 AM

    Me lembro de que várias vezes tive a oportunidade de ir com meu saudoso avô Fernandino Caldeira de Andrada até a casa do Dr. Arthur, se não me engano na rua Carlos de Carvalho, sendo que as conversas eram infindáveis, mas eu tinha prazer em ouvir as histórias da Igreja, do Hospital Evangélico, e outros assuntos.
    Hoje, conversei com Wilson Schmidt, genro do também saudoso Augusto Klopffleisch, marceneiro de "mão-cheia" e que produzia como ninguém mesas e pedras de Três Reis, e que eram minuciosamente examinadas pelo Dr. Arthur com um paquímetro. Segundo o Schmidt, só o Seu Klopffleisch tinha condições de enfrentar o Dr. Arthur e fazer uma partida parelha.
    Ontem fui presenteado com algo que me fez recordar dos personagens acima citados, "herdei" uma mesa oficial de Três Reis feita em jacarandá, e que está há mais de 50 anos na minha família. Podem ter a certeza de que todas as vezes que jogar, estarei reverentemente fazendo uma homenagem a estas pessoas que de alguma forma marcaram momentos da minha infância.

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  8. Fer CArone11:11 PM

    Sou filha do Edmir Carone de Campinas e me lembro muito bem de quando íamos a Curitiba e via o Sr Arthur jogar 3 reis. FANTÀSTICO!!!! Tenho minha mesa até hoje e todas as férias ela é motivo de nos reunir. Ele nos deixou essa herança :)

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  9. Paulo Roberto e Fer CArone, que alegria lê-los e saber que vcs conheceram meu avô e sua performance incrível nesse jogo inusitado. Segundo meu humilde avô, os 3 melhores eram, nessa ordem: 1. Orlando Osty; 2. Arthur Egg; 3. Kloppfleisch.
    Obrigado por comentarem.

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  10. André eu gostaria de obter as regras deste jogo que aqui chamamos de peteleco , já tentei baixa-las do link que vc postou mas não obtive sucesso.

    Começei a jogar este jogo a um ano; e pelo exercicio mental e de estratégia que ele proporciona, fiquei realmente viciado.
    Queria as medidas da mesa, peças, e as regras.

    Se por acaso houver possibilidades de vc me enviar via e-mail eu agradeço.

    Sou natural do Rio Grande do Sul e só vim conhecer o jogo em São Paulo, onde jogo aos finais de semana na casa de um amigo.

    Grato

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  11. à proposito o e-mail é sacuga@gmail.com

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  12. Anônimo1:40 PM

    Meu nome é Ulisses Bruder Júnior. Conheci a primeira pessoa da família Egg em julho de 1965, o Tato, me conduzindo numa Kombi para os alojamentos do Congresso de Umpismo em Curitiba. Nessa época uma de minhas lembranças mais vivas foram os sonhos com nata das padarias da cidade, e o saudoso Antoninho Godói se atrapalhando com o nome do Governador no culto de abertura (ou encerramento?) do Congresso - só na terceira vez saiu Ney Aminthas de Barros Braga. Mais tarde, estudando em Curitiba por dois anos, conheci a família toda, porém sem muita intimidade - só da igreja. Alguns anos depois (73/75) já morando em Florianópolis meu cunhado Gerson Assenheimer também fanático pelos Três Reis marcou com o "seu Arthur" uma noitada de partidas em casa dele. Muita hospitalidade e - sem dúvida alguma - uma destreza inimaginável aos iniciantes como eu nessa época. Tenho um tabuleiro - eu mesmo construi - e as pedras foram feitas em Curitiba, muito provavelmente pelo Sr. Kloppfleisch. Muita saudade, respeito e admiração pelo "seu" Arthur.

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  13. Oi Ulisses.

    Legal saber que conheceu meu avô e meu pai, o Tato. Se vc visse o Tato hoje, levaria um susto! Ele tá igualzinho ao 'seu' Arthur :-).

    Abraço.

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