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29 de janeiro de 2016

Viver é uma viagem

Tive a honra de conhecer o Elio e seu valente veleiro Crapun no final do ano passado, e a grata satisfação de saber que o meu livro Meia Corda foi o pivô de nosso encontro. Depois, a alegria de ter, de alguma forma, feito parte do processo que culminou na publicação do seu livro, o contentamento de fazer a capa para ele e, por fim, o prazer de escrever um parágrafo para a quarta capa.

O livro é uma beleza e ninguém deveria jamais se privar do prazer de lê-lo.

A capa e o parágrafo que escrevi estão aí em baixo.

E se você correr, ainda pode fazer uma compra casada e levar O QUE SOBRA DE UMA VIAGEM e MEIA CORDA com 30% de desconto.

"Ler é uma forma de viajar. O que sobra da deliciosa viagem pelas histórias do Elio é a sensação de que soltaram-se as amarras, a convicção de que vida é um oceano que se oferece por inteiro e sem restrições, e a doce confiança de que o vento sempre haverá de soprar. Viajar é viver e viver é uma viagem. E isso o Elio sabe melhor do que ninguém."
Tuco Egg

18 de novembro de 2013

Nota de imprensa 2

Jovem é visto brincando com duas crianças no meio da rua, no bairro Água Verde. Moradores do local afirmam que o rapaz é o pai do casal de infantes de cerca 3 e 6 anos. Segundo testemunhas eles alternavam entre jogar bola, andar de bicicleta e subir em árvores.

D.A., 36 anos, morador do local, garante que os três riam o tempo todo e que algumas vezes se abraçavam e rolavam na grama da calçada. A confusão parece ter se estendido durante toda tarde. "Havia uma pipa, mas o vento não ajudou e nem chegou a ser usada", afirma R. J., que observou tudo do balcão da mercearia enquanto trabalhava.

Ainda segundo moradores, a mãe, que era também esposa do jovem suspeito, chegou no fim da tarde de bicicleta, vindo ninguém sabe de onde e trazendo algodão doce para os pequenos. "A última coisa que vimos", afirmou R. J., "foi quando a mãe mandou os irmãos para casa tomar banho e o mais velho correu na frente rindo e gritando - 'eu primeiro".

D. A. ainda afirmou ter visto o casal seguir atrás dos filhos, de mãos dadas, trocando beijinhos estalados.





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Veja também:
Nota de imprensa

27 de março de 2013

Nada

A gente nada, nada, nada... e não chega nunca.
Gif animado surrupiado do tumblr de Thoka Maer

6 de março de 2013

Ichtys da prosperidade

A vida de um cristão no primeiro e segundo séculos poderia ser bastante complicada, especialmente próximo dos centros urbanos, onde a hostilidade de uns só era equiparada a empatia de outros. Eles eram conhecidos pelo amor, é o que registra o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito pelo médico Lucas para seu amigo Teophilo, para explicar-lhe o que vinha acontecendo com aquela turba de loucos que afirmavam crer na ressurreição de um homem. Mas o amor não é coisa que se queira a não ser em poemas. Amor na vida real é o caos. O único amor permitido é aquele devotado às estruturas, às hierarquias, às disputas pelo poder, à própria imagem. Se seu amor não for desse tipo, meu amigo, sinto lhe dizer mas você será invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, lançado aos leões.

Conta-se que a partir de certo momento, os cristão passaram a tentar ser mais discretos em seus encontros, para evitar as confusões muitas vezes seguidas de morte. Um cristão em um local público, para encontrar um amigo de fé, riscava discretamente um semi-circulo no chão, com o pé. E ficava por ali, aguardando a chegada de alguém que completasse o desenho com outro semi-círculo enquanto assobiava olhando os passarinhos. O resultado traçado no chão era o de um singelo peixinho de dar inveja a muito designer gráfico ainda hoje. O termo grego para peixe era ichtys (ictus), que passou a ser também um acrônimo para Iesous Christos Theou Yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).

Mas veio a reviravolta do terceiro século. O imperador converteu-se e a turma dos perseguidos passou a perseguir, numa inversão que faria arrepiar os pelos da barba de Cristo. Os que eram conhecidos por amar e, portanto, eram amadores (porque se armador é o que arma, que se dirá de quem ama?, diria Romerto Diamanso), profissionalizaram-se, hierarquizaram-se e desceram o sarrafo em quem não se dobrava voluntariamente e essa nova espécie bizarra de amor.

E passaram-se mil e setecentos anos de cristianismo repleto de escuridão e salpicado por alguns poucos lampejos de luz até que, lamento dizer, se foi por completo a esperança. Se ainda não foi para você, vamos conversar de novo daqui há uns anos mais. E o ichtys, outrora simbolo do amor que sofre mas não cala, cobre-se agora então, definitivamente, de novo e inexplicável significado. Já havia ouvido isso da boca de um vendedor de carros, mas agora estampa-se na página de renomado veículo de comunicação online, pela pena confusa de um jornalista desinformado, a nova e desoladora definição para o pobre peixinho. Eu o perdôo, UOL. A culpa não é sua. A culpa é do rumo torto e deprimente que tomou o cristianismo.

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21 de dezembro de 2012

Na trilha do Natal


Nostalgia é meu ponto forte. Também meu grande defeito. Pois resolvi rever os textos natalinos já publicados aqui nesse blog desde sua origem, no distante ano de 2006. Em dezembro de 2006 absolutamente nada sobre o natal foi publicado. Nos anos seguintes houve certa regularidade.

2007 | Anunciação: ... e jamais houve natal.

2007 | Naquele natal: texto do Tato meu mano querido e parceiro discreto de blog.

2008 | Calvin: ganhar um monte de presentes é uma experiência muito religiosa para mim.

2009 | Não custa lembrar: a estrela é um bebê.

2009 | Lampião: derramou uma lágrima antes de sumir...

2010 | Corre, corre Jesus: Tirarm Jesus do armário, pois chegou o Natal.

2010 | Vai valer a pena: Alguém precisa fazer o trabalho sujo.

2011 | Prenhe: o Filho de Deus era um feto.

2011 | A flor mais bela do jardim: que hoje floresce dentro em nós.

2 de agosto de 2012

Bicicleta

♫ Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado ♪
 

24 de novembro de 2011

O abraço de 'Cione

Foi o dia maldito em que Nanico instalou na sua própria boca um instrumento de tortura, um expansor de pálato, um monstro de metal que o deixou parecido com o Willie Wonka quando adolescente. Saiu do dentista apavorado com aquele emaranhado de ferro no céu-da-boca, decidido a ligar pro Bilico desertando da sua função. Mas a coisa era tão grotesca e prejudicava tanto a fala que imaginou que ele não ia entender nada ao telefone. Foi até o hospital pra cancelar pessoalmente mas, chegando lá, acabou criando coragem e meteu a cara. Foi até o quarto/camarim e, junto com seu parceiro Bilico, se arrumou, se coloriu, se 'narizou', se paramentou e foram os dois pra labuta.

Primeiro quarto, ninguém entendia nada que ele falava, a língua já toda machucada, babando que nem nenêm. Ficou o mais de canto que pôde, deixando o Bilico tocar o barco enquanto ele enchia balões. Saiu do quarto cansado e desanimado, quando aconteceu o milagre.

Era ainda o segundo quarto e um homem grandão, na casa dos 30 anos, mas com cabeça de criança pequena, o viu enquanto ainda estava no corredor. Sua expressão saltou rapidamente do susto à uma explosão de alegria. Boca escancarada, olhos brilhando. A moça que o acompanhava lhe disse: "- Olha quem veio te ver, 'Cione!". E ele lá, boca aberta, olho esbugalhado, congelado, olhando fixo pro rosto do Nanico, como que esperando um sinal, e bastou o desanimado Nanico dizer simplesmente: "- 'Cione! Meu amigo! Que bom te ver..." que o homem enorme, com coração de menino, abriu os braços, libertou o riso e respondeu, oferecendo seu mais caloroso abraço: "- Meu paiaço, meu paiaço, meu paiaço..."

Nanico foi lá esperando um apertão, mas não como aquele. Tente imaginar uma criança recebendo de presente, numa surpresa daquelas, o mais esperado e maravilhoso e felpudo e fofinho bicho de pelúcia do mundo. Agora imagine a criança esmagando o presente contra o peito, completamente descuidada, absolutamente apaixonada. Pois Nanico, sua boca torta, sua baba, seu falar enrolado, sua língua machucada e seu monstro de metal eram o bicho de pelúcia do 'Cione. E ele os esmagava descontroladamente feliz, borrando a pintura do rosto do ´paiaço´ com suas lágrimas sorridentes enquanto repetia baixinho no seu ouvido: "- Meu paiaço, meu paiaço..."

Depois de alguns minutos do abraço mais empolgado que recebeu na minha vida, quando 'Cione enfim soltou Nanico, o 'paiaço' percebeu emocionado que estava curado. Não na carne mas no espírito, na alma, nos sentimentos, na empolgação, no ânimo, na esperança. Nanico e Bilico cantaram, tocaram, contaram histórias e riram um bocado, mas foram interrompidos seguidas vezes pelo 'Cione abrindo os braços num sorriso frouxo e esmagando de novo seu palhaço Nanico, que a cada abraço ouvia, baixinho e suave, uma misturança de sons. No ouvido era "meu paiaço, meu paiaço, meu paiaço...", no coração "meu filho querido, por quem vivi, por quem morri, meu amado, meu amado...".


(...) Pois estive enfermo, e vocês cuidaram de mim.
Mateus 25:36

28 de abril de 2011

Feito furacão

Depois do almoço refestelou-se no sofá e sorveu os goles de sol quente que atravessavam as folhas de acerola no jardim e invadiram a janela da sala. Livro aberto, descalço, calças arregaçadas, vento suave acariciando macio os pêlos da perna. Mas o relógio girou e teve que arrumar a barra da calça, calçar o tênis e voltar ao trabalho percorrendo a Alameda Rio Branco sob céu azul até o estacionamento onde a moto descansa à sombra todos os dias. E ligou o micro e lidou com fontes, cores, formas e fotos até sentir nas costas, sem muito espanto, um vento forte que assobiava nas frestas da antiga janela de madeira. Tratou o vento sul com desdém e seguiu trabalhando, sem perceber que o horizonte entrava em luto trazendo a noite de arrasto para o meio da tarde.

Foi só quando ouviu os primeiros estampidos de raios violentos e muito próximos que se dignou a parar o que fazia e olhar pela janela. E o vento veio metido a furacão. E as nuvens raivosas arremessavam pedras de gelo em quem quer que ousasse sair às ruas. E as telhas se erguiam dos telhados e jogavam-se suicidas para todo lado, e os galhos dobravam-se temerosos e partiam e se estatelavam sobre carros e telhados e ruas e calçadas. E num rompante de terror o vento perdeu o rumo e virou-se de um lado pro outro violento, como que querendo libertar-se de amarras, debatendo-se e derrubando placas e arrancando os enfeites de páscoa da rua XV. Relâmpagos estalavam feito loucos sem parar, e um deles, mais raivoso, estampiu certeiro sobre algum ponto de crucial importância para o fornecimento de energia da cidade. E tudo se apagou enquanto o céu desabava.

Meia hora depois restavam somente os pingos sarcásticos largando-se de mansinho dos beirais. E no fim da tarde o sol apareceu sorrindo e ainda brincou de colorir toda aquela bagunça de amarelo intenso e sussurrou nos ouvidos de todos: "Nada te turbe, pois tudo passa*".  E encerrou o dia com uma beleza de fazer chorar.

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*Nada te turbe, pois tudo passa: referência à Teresa D´Avila,
surrupiada da belíssima canção do Jorge Camargo.

25 de abril de 2011

Tanta coisa

Há quem diga, peito estufado, cheio de orgulho: – Tô numa correria. Trabalhando demais. Terminei meu relatório 1h da manhã!

Me dei conta desse horror quando li o tuíte (sim, eu tenho uma conta no twitter) de um amigo, todo garboso, piando no meio da madrugada pro mundo inteiro saber: “Terminei por hoje. Vou descansar um pouco porque amanhã cedo tem mais”.

Eu confesso que cada hora-extra me invade a alma como um punhal. Me desnuda o corpo e expõe minha vergonha. Horas-extras, relatórios noturnos, reuniões de final de semana, almoços e jantares de negócio, enviados diretamente do inferno, são a mais frequente e miserável causa  dos desencontros que fazem do homem moderno essa ilha maldita de solidão e morte.

- Desculpe – falei dia desses pra um grande amigo – mas não consegui fazer aquela visita que já venho prometendo a tempos. Não deu tempo cara. Tô numa correria.

E assim vamos levando.

Foi mal vó, não deu pra ir no seu aniversário. Desculpe maninho, mas não consegui parar pra te dar aquele abraço quando nos cruzamos por acaso na rua. Perdão colega, mas não deu pra atender o telefone, nem pra responder seus emails. Foi mal gente, não deu pra ir no jantar que vocês organizaram. Desculpem todos. Tô com tanta coisa pra fazer.

3 de março de 2011

A coletividade do absurdo

É assim. Você está no seu canto, na boa, feliz, satisfeito, barriga cheia, realizado, pronto pra alugar um filme e comer pipoca. Aí chega a notícia, enviada pelo site de compras coletivas onde você fez seu cadastro, de que está aberta para compra a promoção 'tal', por um preço pra lá de ótimo. Imediatemente paz, felicidade, satisfação e realização escoam pelo ralo do consumo. Ansiedade, desejo, cobiça e aflição (mesmo que moderadas) assumem seu posto, disfarçados de oportunidade.

E 'vambora' comprar o que não compraria e não teria feito falta.

Da minha parte, resisto o quanto puder e opto por nem saber das oportunidades imperdíveis perdi.

20 de janeiro de 2011

DEZ

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De um projeto do SESC saiu o livrinho. Dez autores, entre contos e poemas. Deve ser possível encontrar nas bibliotecas do SESC pelo Brasil. À venda em lugar nenhum.

12 de novembro de 2010

As sandálias de Tereza

O Roger, incansável promotor de desordem do blog Teologia Livre, vem citando alguns textos do sensacional livro Maravilhosa Graça, do Yancey.  Um dos textos citados fala sobre um encontro entre Madre Tereza de Calcutá e Bill Clinton, debaixo das nuvens cinzas de um assunto tenebroso que virou tema de campanha presidencial no Brasil - o aborto.

O que me chamou a atenção no discuso da mulher franzina que assombrou o mundo com o poder de sua fraqueza, foi quando, referindo-se às mulheres dispostas à prática do aborto, declarou:  "Dêem esses filhos para mim. Eu os quero. Eu cuidarei deles." Madre Tereza é, para mim, sempre um adorável constrangimento.

O Rubinho, no entanto, nos lembrou que o buraco é mais em baixo e que, obviamente, "dar os bebês para a madre não seria uma solução viável, certo? Então, não seria solução!".

Está certo o Rubinho, como de costume. O problema é complexo mesmo, e a Madre jamais o resolveria. Mas isso não esmorece o fato de que a coragem da mulher é de doer. Cada um "antiabortista" militante deveria assumir a mesma responsabilidade que a Madre assumiu. A mesma disposição. Mais que disposição, a mesma atitude, visto que Madre Tereza recebeu muitos milhares de crianças em Calcutá, colocou alguns milhares em lares adotivos e cuidou de outros milhares nos orfanatos da Ordem das Missionárias da Caridade.

A Madre também argumenta que "se aceitarmos que uma mãe pode matar até mesmo o seu próprio filho, como podemos dizer às outras pessoas para não se matarem umas às outras?".  Não concordo com esse pensamento (mesmo tendo sido citado como irrefutável em um comentário ao artigo do Roger). É simplório, genérico e transversal aos fatos e as peculiaridades de cada caso. Mas não tenho como não dobrar-me diante da coerência de uma mulher que, crendo como crê, assume para si a responsabilidade da sua crença.

Taí o soco no estômago. Eu creio em uma porção de coisas bonitas e louváveis que seriam capazes de transformar o mundo em um lugarzinho mais batuta, mas sou um covarde, indigno de desatar as sandálias dos pés de Tereza.


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Veja também:
Escuridão em Calcutá

4 de novembro de 2010

Sustentabilidade de consumo

Dia 29 de outubro de 2010.

Gerência Geral

Carta Circular nº 1001

ASSUNTO: Sustentabilidade do Consumo

Pelo bem de um mundo sustentável, o Deus Mercado concede às indústrias a graça de produzir artefatos que utilizem matéra-prima reciclada, porém não abre mão de que o montante produzido seja comercializado com urgência e aos milhões - quanto mais melhor.

Para tanto, exige propaganda massificada, usando os mais variados meios, especialmente aqueles que dão ao consumidor a ilusão de estar participando ativamente de um processo consciente e sensato de decisão de compra, chamados mídias sociais.

Estabelece também que os termos, 'sustentabilidade', 'ecológico' e 'verde' devem ser exaustivamente repetidos em toda peça publicitária e todas as convenções de venda e marketing, mesmo que seja evidente que a intenção única é alavancar vendas e aumentar o consumo tanto quanto possível - quanto mais melhor.
Qualquer menção à uma vida mais simples, pautada na diminuição do consumo, em viver com menos, no incentivo à produção de bens robustos e duráveis, na crítica aos modismos, todos eles criados tão somente para tornar obsoleto aquilo que ainda funciona muito bem, incentivando assim o aumento do consumo, deve ser reservada àquela revistinha bonitinha da editora Abril, a ser sempre comercializada em conjunto com a Cláudia e a VIP.

Fica definido, por fim, que somente o ser-humano possuidor de muitos bens - quanto mais e mais luxuosos melhor - será considerado feliz, ficando à cargo de todos o desejo eterno de possuir aquilo que ainda não possuem e depositar em um ponto futuro toda a esperança de descanso, desfrute e deleite pessoal, desde que saboreado sozinho sobre um luxo de poltrona em forma de concha e diante de uma TV 3D de 51 polegadas.


Atenciosamente.
D. M.

22 de abril de 2010

O terceiro Sarau

Lembra daquele Sarau? Foi mais ou menos assim.



Se você não tem paciência ou tempo para 10 minutos de vídeo, tente ver as fotos clicando aqui.
Agora, se você tem paciência e tempo de sobra, encare os 30 minutos de vídeo aqui.

Mais infos sobre esse e os outros Saraus, no blog saraufacamolada.blogspot.com.

29 de março de 2010

Capucho de algodão

Nos dias de hoje, é proibido envelhecer. E é para isso que estão aí os cosméticos, as plásticas, as academias, as vitaminas, os hormônios, os botox, as lipos, as tinturas, a moda. Não, não. Essas coisas estão aí para gerar renda, lucro, grana, bufunfa. Mas a motivação dos clientes é, a todo custo (e às vezes paga-se muito caro), evitar a velhice. Se não for possível evitar o mal, pelo menos a aparência do mal deve ser extirpada. Uma boa aparência (leia-se, uma aparência jovial) já é mais do que suficiente para a sociedade de fachada em que vivemos.

Cresci em contato íntimo, carinhoso, profundo e amoroso com gente velha de verdade. Já falei de todos eles aqui no blog. Velhinhos simpáticos de cabelo inda mais branco que o capucho do algodão'. Talvez seja a influência desses velhinhos que parecem ter saído de livros infantis que me tenha feito amar os cabelos brancos. Tenho a sensação sincera de serem eles uma coroa que o tempo dá aos nobres para provar-lhes a bravura diante de todos. Ostentá-los deveria ser motivo de honra. Fazem par perfeito com as rugas, sulcos de história, trincheiras de sentimentos, marcas de alegria e dor que o tempo imprime na face como o manto vermelho que cobre o corpo do rei.

Faz um ano que fios brancos começaram a me aparecer sorrateiramente nas têmporas e no cavanhaque. Fios de prata sinalizando discretamente que o menino é um homem. Chegará o dia que me cobrirão a cabeça por inteiro, mostrando ao mundo que o homem é um rei. Nesse dia, a sabedoria divina há me me fazer esquecido, incontinente e fraco, para que eu jamais saiba quem me tornei, até ouvir meu novo nome diretamente da boca do Pai.


'inda mais branco que o capucho do algodão'
Frase usada por Elomar Figueira na belíssima canção 'Cantiga do Estradar'


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O velhinhos dA Trilha:
Arthur | Aladia | Ica | Aci
Nativos da Ilha de Santa Catarina
Arthur em vídeo/depoimento sobre Stelinha Egg

19 de março de 2010

Danças e folguedos

Sexta-feira que vem é dia de abraçar o ócio com gosto, em meio a muita música, poesia, contos, crônicas, pinturas, desenhos, danças e folguedos. Embalados pelo som de Roberto Diamanso e a sanfona arretada de Cézar do Acordeon. Estão todos convidados.

Se de alguém eu me compadecia
Não tinha tempo, não podia, eu não chorava
Me despedi dos foliões da alegria
E trabalhava, trabalhava, trabalhava

(...) cansado em meio a esse frenesi
Quase sem tempo de ouvir, alguém me recitou

Pra que acordar cedo e dormir tarde?
Pra que comer o pão com tanta dor?
Se aos que Deus ama ele dá o pão enquanto dormem (...)
____________________________
Trecho de "Olho dágua das flores",
de Roberto Diamanso

Largue tudo. Deixe tudo pra trás. Caso contrário, não venha depois me dizer que não avisei.

Tudo sobre o Sarau aqui.

Veja também:
Te cuida dos alçapão
Uma sexta feira

8 de fevereiro de 2010

A terra é plana

Na solidão da ilha de Patmos, o velho João viu a terra ficando plana. Literalistas como Tim LaHaye acreditam do fundo do coração que isso acontecerá como descrito, com a mão de Deus, no fim dos tempos, aplainando o maravilhoso relevo do nosso planetinha. E o cara ganha um bom dinheiro escrevendo livros sobre isso. Eu, como um velho montanhês apaixonado por escarpas rochosas, espero sinceramente que isso jamais aconteça, apesar da amostra prévia que tivemos aqui em Blumenau em novembro de 2008.

É preciso lembrar, no entanto, que nos tempos de João a principal consequência nefasta de um relevo acidentado era o isolamento dos povos. Locais e pessoas tornavam-se inacessíveis, senão a duríssimas penas, por conta das ondulações vertiginosas da superfície do planeta. Para visitar a tia doente, um homem deveria cruzar vales e montanhas, desafiar colinas e desfiladeiros, em dias e dias de caminhada fatigante e perigosa. Evidentemente, de um outro ponto de vista, esse mesmo problema poderia tornar-se uma proteção contra ataques de exércitos pouco amistosos. Mas essa questão não vem ao caso agora. Quero me concentrar no problema da comunicação, da acessibilidade.

Há poucos dias uma austríaca que vive na China fez contato comigo. Ela escreveu um livro em inglês, que foi ilustrado por um filipino e será traduzido para o chinês. Procurava então alguém para fazer o projeto gráfico do livro e achou que este brasileiro aqui do sul cairia bem. Para facilitar meu trabalho, uma amiga de Manaus traduziu o original para o português.

Pense bem meu amigo. Em duas parcas semanas, Áustria, Estados Unidas, China, Filipinas e os dois extremos do continental Brasil se envolveram de alguma forma em um mesmo projeto, quase como quem senta numa mesa para conversar. A terra é plana! E o melhor de tudo, não foi preciso destruir as serras e cordilheiras.