20 de junho de 2007

Hocus-Pocus

Pouco depois do grande salto que transformou o cristianismo de subversivo e perseguido em religião oficial do Estado Romano, o latim tornava-se a linguagem popular de todo o império. A igrejas cristãs já haviam sido agraciadas com suntuosos prédios e rígida estrutura de poder e liturgia. A ceia cristã já havia perdido suas caracerísticas de celebração coletiva e tomado ares místicos. No sacramento da eucaristia o ministro proferia ritulisticamente, em latim, as palavras "hoc est corpus meun", que significa "este é o meu corpo". Alguns creditam a Ambrósio de Milão (339-397 d.C) a origem da crença na transubstanciação do pão e do vinho. Segundo ele, a simples pronúncia das palavras liturgicas convertia, como que por magia, o pão e o vinho no corpo e sangue de Jesus.

Corpo de quem?
O termo ganhou força e solidificou definitivamente seu status de mágico, devidamente transfigurado, como de contume nessas complexas evoluções linguísticas.

A origem já caiu no esquecimento. O significado já não têm a menor importância. A definição já não faz sentido. O que importa mesmo, com o passar do tempo, é a conotação.

"Porque eu não sei. Só sei que aquele padre levantava um pão e um caneco pro céu, falava um 'hocus-pocus' e pronto, tava feita a magia!"

2 comentários:

  1. É verdade, meu mano. Transformamos uma verdade fantástica numa fantasia mentirosa.

    Deus nos ajude.

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  2. André10:21 PM

    Corrigindo uma imprecisão: o latim já era a língua popular do império muito antes. Por outro lado, nunca tornou-se a língua popular na região oriental onde posicionou-se o antigo império de Alexandre. Nesta região, que incluía a Grécia, atual Turquia, Palestina, Egito, a língua culta era o grego – aliás foi nessa língua que se escreveu o Novo Testamento. No terceiro e no quarto séculos o latim começa a tornar-se também uma língua de teologia, através de homens como Tertuliano de Cartago, o próprio Ambrósio de Milão, Agostinho de Hipona e Jerônimo, que fez a versão da Bíblia em latim, chamada Vulgata Latina. Até hoje é a única versão aceita pela igreja católica para se fazer teologia. Curioso é que também nos tempos de Jerônimo a idéia de traduzir a Bíblia foi considerada “diabólica”. Foi da divulgação de erros crassos de tradução na Vulgata por Erasmo no início do século XVI e da redescoberta dos antigos teólogos em língua grega e latina, principalmente Agostinho, que vieram os ventos de renovação que insuflaram a Reforma protestante. Por sinal o aspecto considerado mais absurdo de ser mudado e que causou maiores confusões foi justamente a teologia e a liturgia da missa. Lutero não pode chegar em acordo com Zuínglio a respeito da presença real de Cristo (ou não) nos elementos da ceia, frustrando as expectativas de união dos protestantes num único grupo confessional. Até hoje todos os cristãos estão muito longe da simples refeição feita em memória de Cristo, e pensam na eucaristia ou santa ceia como uma coisa muito mais complicada do que é de verdade.

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