5 de setembro de 2008

Reticências [2]

2. Vida

De forma inesperada e redentora, aquele pesado livro de capa preta ressurgiu do pó da terra leve e alado. Multicolorido, passou a borboletear diante de meu olhos e, para pegá-lo, tive que correr, pular, rolar, cair e levantar. Refletindo todas as cores do arco-íris, o livro agora fluído e impreciso, causou-me alumbramento.

É engraçado como se aceita que Deus, quando encarnado, revele a verdade através de metáforas, parábolas e alegorias. Bodas do cordeiro, virgens, ovelhas e bodes são permitidos ao Deus encarnado. Antes de sua manifestação em carne e osso, porém, lhe é proibido usar esse tipo de linguagem. Gênesis precisa ser literal. A torre de Babel também. E a arca de Noé. E o grande peixe de Jonas. A simples menção da possibilidade da metáfora abala os alicerces da fé da maioria dos cristãos que conheço.

Abandonei a limitada sala escura da objetividade e, como Alice, conheci o país das maravilhas; como Dorothy, fui levado por um redemoinho ao maravilhoso mundo de Oz.

Alguns podem apavorar-se com descrição tão festiva e fantasiosa do livro sagrado. Esses crêem que transformar esse manual em um livro de histórias fantásticas é depreciá-lo, reduzi-lo, limitá-lo. Engano terrível. Nenhum conceito pode ser maior que a narrativa. Nenhuma conclusão pode ser maior que a história em si.

As considerações finais são a clausura da história.

Veja também:


RETICÊNCIAS
1. Morte
2. Vida
3. À luz de um abajour

3 comentários:

  1. Continua muito bom!
    Tem mais?
    Acho que o V. Carlos falou cedo demais...

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  2. Muito bom, gostei mesmo. Afinal, Jonas foi engolido por qual peixe? :)

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  3. Parabéns aos responsáveis pelo fantástico conteúdo deste blog!!!

    Um abraço fraternal a todos!!!

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