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18 de julho de 2016

Extermínio

Em longa reportagem especial, jornalistas revelaram as histórias de alguns dos 481 focos ativos de tensão e violência no interior do Brasil. Segundo a reportagem, "pelo menos 1.309 pessoas foram assassinadas em conflitos rurais no Brasil, desde 1996".

A matéria mostra "um universo composto por tortura, incineração de corpos, chuvas de veneno, suicídios de índios, violência contra mulheres, ônibus escolares na mira de fuzis, esquema de venda de licenças, pistolagem paga por planos de manejo e tabelas de execuções".

Já ouvi dizerem que as disputas fundiárias mostram que o interior do país está em guerra, mas não é possível concordar com tal leitura dos fatos. Uma guerra pressupõe uma disputa entre dois lados onde, mesmo com alguma diferença substancial de poder de fogo, ambos sonham com a possibilidade de vencer. Os conflitos fundiários do Brasil demonstram não uma guerra, mas um genocídio onde "97% das mortes são de camponeses e indígenas".




Sem exagero. Está acontecendo agora, 
debaixo do seu nariz, por pistoleiros, o extermínio de
uma nação nativa 
a mando de fazendeiros




Isso, evidentemente, não é novidade nenhuma. As populações indígenas, por exemplo, vem sendo sistematicamente exterminadas em ondas de ataques que mancham de sangue nativo nossa história. A estatística não colabora para revelar as atrocidades, porque no mundo do campo as mortes oficialmente registradas são apenas uma amostra do horror real. Nas 434 vítimas oficialmente identificadas (mortos e desaparecidos) do Regime Militar, por exemplo, não está contabilizado o genocídio indígena patrocinado pelo Estado no período. Estimativa bem subestimada aponta pra 8.350 índios mortos. Se quiser ficar bem chocado leia o relatório completo da Comissão Nacional da Verdade no capítulo Violações de Direitos Humanos dos Povos Indígenas. Mas o genocídio não encerrou-se com o fim da ditadura. Ele segue como um fantasma assombrando camponeses e índios no interior do país.

O que não é difícil constatar, é que o Estado se coloca oficialmente contra os índios, como explicou direitinho Artionka Capiberibe, e também contra os camponeses à espera do pedaço de terra prometido na Constituição de 88 e até hoje, sistematicamente, friamente e cruelmente negado.

As 3 amigas.

A reportagem especial sobre os conflitos fundiários é toda ela chocante, toda ela assustadora, mas para mim, pessoalmente, nada causa mais comoção do que o visível e revoltante extermínio de Guaranis Kaiowás. É isso mesmo. Sem exagero. Está acontecendo agora, debaixo do seu nariz, o extermínio de uma nação nativa por pistoleiros a mando de fazendeiros.

Já contei aqui que estive entre os kaiowás, com minha esposa e filhos. Convivi, brinquei, ouvi e contei histórias, ri e chorei com eles. Os acampamentos onde kaiowás estão agora mesmo sendo encurraladas e mortos são vizinhos da aldeia Taqwaperi, que visitei. Em cada matéria que sai sobre as ações dos fazendeiros contra esses acampamentos, leio os nomes e vejo as imagens das vítimas assustado, na expectativa de reconhecer alguém. Algumas das crianças que brincaram com meus filhos e que aparecem nas fotos que enfeitam a parede do quarto da minha filha, porque ela gosta de tê-las na memória, porque ela tem boas lembranças de suas amigas kaiowás, podem ser as próximas vítimas. Temo que sejam e temo que, se forem, eu nem mesmo fique sabendo, porque morte de índio (ou de camponês sem terra) é, no máximo, notícia de rodapé. Temo, enfim, que ninguém saiba. Temo ainda mais, que ninguém se importe. Por enquanto, tristemente, tem sido assim.


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Leia também:
Crônica Kaiowá
Terra Bruta - A reportagem completa
O Estado contra os índios

23 de março de 2009

Ideologia que mata

Numa sala apertada, com janelas pequenas e paredes de cal desbotadas, sentaram-se, desiludidos, índios e não-índios.

- É sempre muito triste - disse-me a Lucília na volta.

Ela tinha ido à cidade de Lábrea para a reunião do Distrito de Saúde Indígena (DISEI), da qual participavam a JOCUM e o CIMI, juntamente com órgãos públicos. Lucília sempre ora pela microcidade e por suas mazelas: corrupção, devassidão extrema, doenças, entre outras.
Os habitantes de Lábrea têm os rostos macilentos das muitas malárias e cachaças. Falam sem convicção, parecendo não saber o que dizem. Mas sabem; só não creem mais que algo possa mudar no caos de desserviços que o governo finge prestar àquele arremedo de cidade.

- Isto é o que mais me dói - me diz Lucília na volta. - Os índios baixam a cabeça como animais domesticados à custa de muita dor. O formato da reunião é excludente. Discute-se como em uma repartição pública, e os indígenas não acompanham.

A situação Suruwahá é debatida. Lucília imagina a dificuldade dos técnicos presos no posto distante de tudo. Parece que nem visitar a aldeia eles conseguem. O medo, a pouca educação, o salário menor ainda - os índios que se virem para chegar até o posto.
E assim foi. No dia 14 de janeiro Naru caminhou sete horas com Tititu nos braços, antes saudável, agora sem vida. A menina estava em péssimo estado e o técnico não sabia como tratá-la. Fez gestos e sons imitando um avião, para mostrar aos pais da menina que ela deveria ser retirada. A noite caiu, a menina piorou. De madrugada o corpinho esfriou e foi endurecendo aos poucos. A alma de Tititu foi para Jaxuwá, no reino onde as bananas são fartas e os peixes, grandes.

Tititu foi escolhida para morrer desde que nasceu. A ideologia que impede os Suruwahá de obter tratamento médico decente prevê que casos de deformidade congênita sejam “eliminados” no nascimento. O pai da menina recusa-se a matá-la ao ver a deformidade com que nasceu. Não conhece a ideologia, ainda se sente gente. Pede ajuda, e Lucília e Moisés conseguem retirá-la da aldeia. Com a oferta de muitos irmãos, ela vai a São Paulo para ser operada no Hospital das Clínicas. Mas a ideologia envia um procurador do Ministério Público, que proíbe a cirurgia. Os médicos ficam chocados com a proibição. A mídia divulga o caso e a pressão aumenta. O procurador desiste do impedimento e a menina é operada. Volta à aldeia, mas precisa de um medicamento mensal. Enquanto a JOCUM está presente, o remédio chega - agitamos meio mundo, vamos para a Funasa a cada atraso. Até que a ideologia nos impede de voltar à aldeia. Nas mãos da ideologia, os índios não têm chance. Para o CIMI, a Funai e a Funasa eles não são gente. São um construto, uma abstração antropológica, um número nos gráficos. A falta do medicamento na data precisa poderia causar a morte da menina Tititu; morte já prevista, escrita, desenhada e explicada academicamente na voz estridente da ideologia.

É a inexorável força darwiniana. Tristes, imaginamos o sofrimento de Naru, o pai, e de Kusiumã, a mãe, carregando a filha na mata escura para vê-la esfriar de repente ao som de um forró desafinado no barraco de madeira do posto da Funai.

Texto de Bráulia Ribeiro para Ultimato.
Via Teologia Livre.



Mais:
- acompanhe o blog ATINI, sobre crianças indígenas
- assista e divulgue o documentário Hakani, sobre infanticídio indígena
- conheça o site Hakani.org

Leia também:
O tempo
Ha'eve Irû

5 de fevereiro de 2009

O tempo

Crônica Kaiowá

Quando cruzamos os limites da aldeia, superamos apenas o primeiro, e certamente o mais simples, dos obstáculos que teríamos que superar. Um muro enorme e absolutamente intransponível, no curto período de que dispúnhamos, mantinha-se rijo e imponente em nosso caminho. Não um muro simples e plano, mas uma intrincada parede infestada de relevos e formas estranhas como um labirinto vertical.

Abandonamos a neurose de produção, a loucura dos prazos e a enebriante ansiedade dos resultados e nos espatifamos em uma parede que erguia-se como largo muro de arrimo a conter todo o peso da insanidade que construímos.

Do lado de lá, dentro da aldeia, onde imagens de pobreza, sofrimento, miséria e sujeira nos queimavam a retina, onde álcool, violência e drogas corroíam famílias como ferrugem, destruíam um povo como câncer, onde o forte oprimia cruelmente o fraco devorando-o vivo como gafanhoto, descortinava-se também um inimaginável outro mundo. Um mundo onde é permitido a todos e a qualquer um, em qualquer momento, sentar à sombra de uma mangueira, com uma cuia de mate na mão, e conversar. Onde cada frase é precedida de longos momentos de respeitoso silêncio e contemplação, e os compromissos não são como pesadas cargas lançadas sobre o lombo de infelizes prisioneiros do tempo, do relógio, de incontáveis responsabilidades. Não, daquele lado do muro o tempo é outro, marcado tão somente pela aurora e pelo entardecer. E os compromissos são subordinados ao momento. Lá, o que se vive tem maior valor do que o que se irá viver. O hoje tem maior valor que o amanhã. ‘A cada dia basta seu próprio mal’, é a batida do coração kaiowá. Batida semelhante à do mestre – ‘não andem ansiosos com o dia de amanhã’.

Quando olhei no relógio e disse à Kuerai E’pa que precisava ir; quando deixei-o com sua cuia à sombra da mangueira e parti rumo ao meu compromisso; quando olhei para trás e o vi já pequeno, sentado na mesma posição, sozinho, sorvendo o mate e olhando o céu; quando percebi que ele permaneceria ali, desfrutando o instante, contemplando a criação de Nhandejara, só então percebi como deveria parecer-lhe estranho. Naquele instante me vi a partir de seus olhos e considerei-me louco. Então, enquanto caminhava apressado, ouvi uma voz suave sussurrando em mim: olhe os pássaros, veja os lírios do campo, aprenda com Kuerai E’pa ao pé da mangueira. Ao som dessa voz quase inaudível olhei de novo para trás procurando-o, mas já o tinha perdido de vista. Voltei-me novamente adiante, fitando o relógio. Sabia que não poderia voltar atrás. Tinha um compromisso e estava atrasado. Precisava correr.

Kuerai e’pa. Paciência
Nhandejara. Deus




"...Estava certo
De que tudo o que eu dizia
Representava a verdade
Pra todo mundo que ouvia

Foi quando um velho
Levantou-se da cadeira
E saiu assoviando
Uma triste melodia..."

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Veja também:
Felicidade e sucesso
Nossa única esperança de redenção

A vaquinha e a mansão

29 de janeiro de 2009

Ha'eve Irû

Preparávamos as malas para deixar a tribo depois de dez dias. Seria o último pôr-do-sol na aldeia. Agudos feixes de luz atravessavam o horizonte como lâminas douradas que, tendo ferido o céu, banhavam-no em púrpura lancinante e agulhavam agora meus olhos entreabertos, enebriados pela visão do crepúsculo. O calor incrível do dia era agora empurrado para longe pela brisa macia que trazia consigo o veleiro da noite e todo seu frescor. Chegava sempre assim, deslizando suave sobre o horizonte amplo do cerrado e tocando minha pele como fria e leve seda que seduz um corpo fadigado e o levanta, renova, remoça.

Ha'eve Irû havia dito que viria. Queria despedir-se. Quando nos falamos, alguns dias antes, encheu-me de alegria ao lembrar meu nome e referir-se a mim como amigo. Tinha-o em alta conta desde que nos conhecemos dois anos antes, apesar de termos convivido por pouco mais do que uma semana. Revê-lo, dias atrás, ainda que por poucos instantes, foi para mim motivo de acanhada euforia.

Quando a noite já apontava discreta atrás do último horizonte e eu ainda esperava vê-lo uma última vez, surgiu do lado oposto ao sol, à contra-luz, como que emergindo das sombras. Aproximou-se lento e discreto, como todo índio. Eles não são, como nós, chegados a euforias e despeendimentos. São em tudo circunspectos e reservados. Sorriu como sempre sorri, apertou-me a mão e, à meia-voz, disse ter me trazido um presente. Pediu-me que reunisse a família e um outro amigo, pois tinha algo a nos entregar. Nos juntamos debaixo do teto de palha de um sombrero, Ha'eve Irû à nossa frente, as últimas lâminas douradas do sol sendo engolidas pela sombra, e o ouvimos. Enquanto articulava tímido um breve discurso agradecendo nossa presença, empunhou o violão que trouxera a tiracolo e abriu um pequeno caderno escrito à mão. E ofereceu-nos seu inesperado e comovente presente - cantou para nós, em sua própria língua, um hino de gratidão a Nhandejara, o Deus Kaiowá, o Deus criador, que havia nos levado até ali, nos colocado frente a frente e misturado nossas vidas em rico e amoroso caldo humano e cultural.

Na manhã seguinte pegamos a estrada com a alma sulcada pela marca aguda e pungente daqueles dias - especialmente da última noite e seu presente terno e eterno.


Ha'eve Irû
Letra da música no caderno - dialeto kaiowá

Ha'eve Irû. Bom Amigo, em guarani.

25 de fevereiro de 2007

Brasil, emaña yvate

Um coralzinho de índios Caiuás chamado Mitã Rory, cantando a impactante música do João Alexandre Silveira, Pra cima Brasil.

Como será o futuro do nosso país?
Surge a pergunta no olhar e na alma do povo
Cada vez mais cresce a fome nas ruas, nos morros
Cada vez menos dinheiro pra sobreviver

Onde andará a justiça outrora perdida?
Some a resposta na voz e na vez de quem manda
Homens com tanto poder e nenhum coração
Gente que compra e que vende a moral da nação

Brasil olha pra cima
Existe uma chance de ser novamente feliz
Brasil há uma esperança!
Volta teus olhos pra Deus, justo juiz!

João Alexandre

Na voz desse povo marginalizado, maltratado e esquecido, a letra se torna ainda mais marcante.

Pra cima Brasil.mp3

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Veja também:

MISSÃO CAIUÁ

1.
Chegada
2. Campo (de futebol) missionário
3. Olhares desconfiados
4. A palestra de domingo
5. Finalmente, janela aberta
6. Uma índia assassinada
7. Coragem
8. Uns semeiam, outros regam...
9. Velório, protesto e Eric Clapton
10. Gincana, oficina, esporte e muita história
11. Gratidão
12. Alegria e lágrimas
13. Brasil, emaña yvate

Missão - alegria e lágrimas

Quando pensamos em Missão, o primeiro texto que vem à mente da esmagadora maioria é, certamente, Mateus 28.19, 20.

Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.
Essas foram as palavras finais de Jesus, antes de deixar seus discípulos. Certamente foram palavras de grande importância, como quando um pai, antes de viajar, chama seu filho para dar alguns conselhos. Ele quer estar certo de que o filho vai saber como se comportar na sua ausência. Não é a toa que o texto foi apelidado de “a grande comissão”.

A dificuldade, no entanto, está em definir os termos que Jesus usou. Afinal, o que é ‘fazer discípulos’? Parece que resumimos essa ‘comissão’ à levar alguém para a igreja (como se a igreja fosse um lugar) para que lá ele seja doutrinado e passe a ter o padrão de comportamento que chamamos de ‘evangélico’. E quando lemos o versículo 20, temos a impressão que a coisa toda se confirma. Afinal, na ‘igreja’ vão ensinar nosso ‘discípulo’ direitinho a obedecer as regras. Mas aí vem a segunda pergunta. O que é mesmo que Jesus ordenou?

Creio que nossa missão está muito mais bem descrita no texto de Lucas 10.25 – 37.
E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês? E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás. Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? E, respondendo Jesus, disse:
Toda a argumentação de Jesus daí pra frente é a resposta a uma pergunta clara do seu inquisitor - como alcançar a vida eterna? É certo que nós entendemos que o texto de Mateus 28 está diretamente relacionado com a ‘vida eterna’. O assunto, então, é o mesmo de Lucas 10.

O próprio mestre da lei dá uma bela resposta à questão. E Jesus concorda com ele. Mas essa resposta é muito vaga. Como é que isso se manifesta na prática? Essa é a pergunta que realmente interessa ali. E é nesse ponto que Jesus começa a contar sua história.
Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.
Ele começa narrando a condição do homem. Como se encontra aquele a quem o Evangelho quer alcançar. Como se encontra o povo Caiuá (e, certamente, nós caraís também, do nosso modo). Na beira da estrada, caído, surrado, roubado, abandonado. (v 30)

Em seguida, descreve aquela que é, miseravelmente, a minha condição. Como eu me porto diante de um possível discípulo de Jesus. Passo por ele ou, quando muito, paro rapidamente ao seu lado, entrego um belo folheto e digo: Jesus te ama! Afinal, não tenho tempo à perder com ele. Meus objetivos são outros. São maiores. Família, trabalho, lazer, descanso, igreja. (v 31 e 32)

Mas finalmente aparece alguém que não tem tantos compromissos. Alguém disposto a abrir mão de algumas de suas ocupações, de suas responsabilidades. Alguém disposto a ‘perder tempo’. Alguém com coragem de correr o risco, de pagar o preço, de sujar as mãos. Ele trata o ferido, como Jesus tratou seus discípulos. Ele não se preocupa com o mundo e todas as suas exigências, porque entende que aquele homem vale mais que o mundo. Ele não pensa em números, porque sabe que um vale mais que uma multidão (Lc 15.6-7). Esse homem não era um filantropo profissional. Não era um missionário, um assistente social. Ele tinha objetivos, projetos. Estava caminhando na estrada como os outros, tinha um destino, um lugar pra ir, um compromisso. Mas estava sensível ao que acontecia à sua volta. E disposto a parar.

Vai e faze da mesma maneira.

A grande comissão é, portanto, a comissão do serviço, da auto-doação, de relacionamentos, de vidas que se encontram no caminho e se amparam, se cuidam, o mais forte carregando o mais fraco, e se saram.

O que Jesus quer de nós é que, aos poucos, essa comissão vá tomando lugar em nossas mentes, corações, vidas, dia-a-dia. Porque nós passamos constantemente ao lado de vidas caídas pela estrada, mas nem sequer os vemos. E quantas vezes nós mesmos caímos e vemos tantos conhecidos passando de lado. Mas se nossas mentes e corações forem se abrindo para essa comissão verdadeira, ele vai abrir nossos olhos. E então dependerá de nós optarmos por parar, estender a mão e fazer discípulos.

Esses 10 dias com os índios deixaram marcas profundas. E o que peço a Deus é que essas marcas permaneçam. Mais do que isso. Que elas cresçam, inflamem, doam. Porque somente com essa dor é que vou ter coragem e compaixão suficientes para parar à beira do caminho.

E se alguém estiver questionando onde está, no meio dessa dor, a alegria daquele que serve à Cristo, vale lembrar que Cristo chamou de felizes aqueles que choram. A alegria verdadeira parece estar bem mais próxima da dor do que do conforto. A vida em abundância que nos é oferecida por Jesus, só pode acontecer em meio às lágrimas.

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MISSÃO CAIUÁ

1.
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5. Finalmente, janela aberta
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8. Uns semeiam, outros regam...
9. Velório, protesto e Eric Clapton
10. Gincana, oficina, esporte e muita história
11. Gratidão
12. Alegria e lágrimas
13. Brasil, emaña yvate

13 de fevereiro de 2007

Missão Caiuá - gratidão

DA SÉRIE CAIUÁS

Esses 10 dias foram um grande presente para mim. Sou imensamente grato pelas pessoas que conheci na aldeia. A cultura, a língua, o sofrimento, os sorrisos de cada um colaboraram pra marcar minha vida de forma, assim espero, permanente.

Quero deixar um grandioso abraço nos anfitriões Gervásio e Eulália, e no Zebedeu, Marta, Eliéser, Andrieli e a bebê. Todos gente boa da melhor qualidade. Todos usados por Deus no meio daquela tribo tão carente de tudo que nós temos de sobra. Todos servos fiéis, que entenderam que o melhor que podem oferecer é suas vidas, e a oferecem diariamente.






E um caloroso abraço no Evaldo e na Astrid, que coordenaram tudo com muito suor, empenho, carinho e sabedoria. Que Deus os abençoe lá em Joinville.


Um agradecimento especial pra cada um que compartilhou esses dias comigo.

Sandra - Companheira da minha vida. Nesses 10 dias estivemos como na época em que éramos apenas grandes amigos. E percebi que todos os detalhes que me fizeram amá-la e querer tê-la como minha esposa, permanecem lá. Coisa linda.

Evaldo e Astrid - Coordenaram tudo com muita sabedoria, ânimo e carinho. Aprendi a amá-los do fundo do meu coração.

Gervásio e Eulália - Exemplo de maturidade, amor, dedicação, humildade, simpatia. Só de olhar pra cara deles já dá vontade de dar um abraço.

Zebedeu, Marta e filhos - Muito legal ver neles seriedade com o Evangelho e compromisso com seu povo. E os filhos são uns figuras. E ainda fornecem um tererê de primeira. Uma família especial.

Jonas - Esteve todos os dias com a gente no Cerro, traduzindo tudo pro Caiuá. Logo no domingo me deu uma injeção de ânimo com seu testemunho. Fiquei com vontade de dar um abração apertado nele, mas não dei por constrangimento. Mancada. Quando terei outra oportunidade?

Cláudia - Esforço e empolgação contagiantes.

Cristiane - Muito legal as histórias que contou e as coisas que ensinou.

Diogo - Não conhecia mas pareceu que crescemos juntos. Guri querido. A Rússia o aguarda.

Ester, Lídia e Sara - Um dia quero ver meus filhos assim, como elas, juntos, servindo a Deus.

Fernanda - Sobe em árvore! Isso é uma grande qualidade, no meu ponto de vista.

Isilda - Amor, dedicação, serviço de dar inveja (inveja santa).

Israel - Empolgação, ânimo e alegria contagiantes. Sempre disposto.

Jonatas - Prova do poder de transformação da graça de Deus. Gente boa da melhor qualidade.

Karina - Figuraça! Não fazia idéia de que ela era assim tão divertida. E sincera, e simples, e querida. E ela é quase minha vizinha!

Leomar - O cara é um barato! Gostei demais de conviver com ele. Espero que devolva minha lanterna.

Rosana - Sincera e disposta a aprender e crescer, de coração e cabeça aberta.

Sheila - Exemplo de dedicação e responsabilidade. Ficou de madrugada consertando aquela árvore que eu e o Diogo fizemos mal e porcamente. E vai ser quase minha vizinha também.

Toninho - Servo fiel, humilde e divertido. E garanto que nunca vou mexer com a nêga dele.

Uíhra (será que é assim que escreve?) - Guri bacana. Dorme como ninguém, mas quanto está acordado é um desses sempre disposto a ajudar.

Wagner - Mal sabe ele o quanto foi usado por Deus na minha vida. Valeu guri.

E ainda a turma de adolescentes caiuás que esteve com a gente, dando a maior força.

Um abração pra todos.

Nhandejara ta pe n´de rovassá.
(Deus os abençoe).

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MISSÃO CAIUÁ

1.
Chegada
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13. Brasil, emaña yvate

8 de fevereiro de 2007

Missão Caiuá - gincana, oficina, esporte e muita história

DA SÉRIE CAIUÁS
Sábado

Amanheci na corrida pra preparar a gincana da manhã. A programação começou com um café da manhã pros índios. Depois uma história sobre o “médico da floresta”. Durante esse tempo preparei as 5 etapas da gincana com ajuda da rapaziada da equipe. Dividimos os índios em 5 equipes e todo correu espantosamente bem.


Da gincana fomos pro almoço, depois mais uma história, e as oficinas. Das 4 que preparamos, restaram 3. Uma foi cancelada por total desinteresse dos índio. Sobraram oficina de miçangas (pulserinhas e badulaques), desenho (com o excelente desenhista e figura rara Diogo, de Curitiba), e pantomima.


Depois das oficinas, lanche e história. Fechando com um almoção caprichado.

Mais uma vez tudo correu muito melhor do que o esperado, pela misericórdia de Deus, e apesar de nós.

À noite nos reunimos novamente pra conversar sobre a semana, desta vez com a honrosa presença do Gervásio e da Eulália. Muitas conversar, sempre com muita gratidão à Deus, por tudo que passamos nesses dias lá. O Gervásio nos contou a história deles, de como foram parar lá. É um casal querido demais. O clima da conversa foi delicioso.

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9. Velório, protesto e Eric Clapton
10. Gincana, oficina, esporte e muita história
11. Gratidão
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13. Brasil, emaña yvate

6 de fevereiro de 2007

Missão Caiuá - velório, protesto e Eric Clapton

DA SÉRIE CAIUÁS
Sexta

Sexta foi nosso dia de folga. A semana foi puxada. Dormimos um pouco mais (até às 8h) e passamos a manhã na sede da Missão, arrumando algumas coisas e batendo papo. À tarde saímos com o Gervásio para o velório da mulher assassinada na terça. Os índios exigiam enterrar o corpo na fazenda onde ela foi morta, mas o fazendeiro não permitia. O negócio foi parar na justiça e os índios bloquearam a estrada até a resposta final. Nesse período o caixão ficaria sendo velado. Já haviam passado 4 dias, e o caixão exalava um odor terrível. O líquido da decomposição do corpo escorria pelo canto do caixão e deixava uma mancha fétida no chão, infestada de moscas. Nauseados, conversamos e oramos com o irmã da defunta.



Depois fomos até a barreira na estrada. Observamos o movimento de longe. Alguns tinham paus e pedras nas mãos, um carregava arco e flecha e alguns feiticeiros vestidos à caráter estavam no local. Graças a Deus o Gervásio é muito respeitado entre eles e acabamos bem recebidos. Alguns do nosso grupo brincaram com o arco e flecha enquanto a Sandra e eu conversamos com o capitão (cacique) Marino. Ele nos falou da dificuldade de manter as fronteiras da Aldeia, alegando que os fazendeiros lentamente invadem áreas da reserva. E confirmou que os maiores problemas entre eles são originados por bebida e drogas. Muitos índios são também usados como mulas para passar drogas do Paraguai para o Brasil. Além disso, é altíssima a taxa de mortalidade infantil entre eles (27%). Uma das principais causas dessa mortalidade é o descuido das famílias. O governos dá auxílio financeiro para cada nascimento, e um salário durante os 6 primeiros meses de vida do bebê. Esse é, muitas vezes, o único sustento da família. Depois desse prazo, acontecem casos de abandono de bebês, que morrem sozinhos no meio do mato.

Nos reunimos à noite, numa roda de bate-papo, para conversar sobre tudo que vivemos durante a semana. Foi uma delícia. Momento de comunhão profunda, adoração genuína, com o violão do Israel tocando Eric Clapton ao fundo (os mais santos que nos perdoem). Muita emoção, risada e choro.

O sábado promete muita correria, com uma programação intensa de histórias, jogos e brincadeiras pros mita-kwera e adolescentes. Das 8h às 20h, direto. Terminamos de preparar as coisas para o sábado somente de madrugada.

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1.
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9. Velório, protesto e Eric Clapton
10. Gincana, oficina, esporte e muita história
11. Gratidão
12. Alegria e lágrimas
13. Brasil, emaña yvate

5 de fevereiro de 2007

Missão Caiuá - uns semeiam, outros regam...

DA SÉRIE CAIUÁS
Quinta

O último dia com as crianças do Cerro foi diferente. Os brinquedos do dia anterior animaram a criançada (pe mita-qwera). Compareceram cerca de 115 crianças e algumas mães. Para nosso grupo foi muito mais complicado. Mas graças a Deus tudo correu tranquilamente. Os indiozinhos são muito comportados. Se juntássemos 115 crianças caraís numa salinha daquelas do Cerro, seria impossível contar uma história. E haviam muitos bebês ali. A maioria levando no colo e cuidado durante toda manhã por um irmão maior, às vezes com 5 ou 6 anos. Imagine entre nós, uma criança de 5 anos saindo sozinha de casa, 7h30 da manhã, com seu irmão de 1 ano no colo, pra retornar somente ao meio-dia! Pois é assim entre eles. Os bebês não usam fralda, o que acaba ocasionando vazamentos freqüentes. Assim ficam ambos molhados, durante boa parte da manhã.

Pelo grande e inesperado número de crianças, tivemos que repartir os lanches ao meio. Isso cortava o coração. Eles saem de casa de barriga vazia e sei lá se terão algo para o almoço. A sala ficou pequena e muito quente. Levamos equipamento para projetas as fotos que tiramos nos dias anteriores na parede. Os olhos da criançada brilhavam. Sorrisos e risadas inundaram o local.

A última parte da historinha que estava contando aconteceu debaixo de uma grande árvore, ao ar livre, com as crianças sentadas no capim. Achei aquilo lindo, além de evidentemente mais fresco que dentro da sala. No final da história fiz um apelo desses bem tradicionais. Ali no Cerro poucos conhecem o Evangelho. A criançada (e algumas mães) aceitaram em massa. Já considerei isso motivos de festa pelo dever cumprido e as “almas ganhas”. Hoje sei que é um grande motivo de oração. Uma semente caiu por ali. Enfatizei bastante a importância deles conhecerem Jesus de verdade, suas histórias, sua vida, o que ele fez e ensinou, e que um amigo de Jesus é alguém que tenta imitá-lo. Minha oração é que o tempo que passamos juntos contando histórias, cantando e brincando, seja uma semente de amor que o pessoal da Missão possa seguir regando. E que isso transforme as vidas e dê pra eles um pouco mais de esperança no futuro.



À tarde fui pra região de Taquara. Caminhamos bastante até chegar em uma casinha isolada. A família ali nunca tinha ouvido falar nada sobre o Filho de Deus. Foi muito interessante conversar com eles sobre o amor de Nhandedjara. Eles ganharam também um novo-testamento Caiuá.

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Veja também:

MISSÃO CAIUÁ

1.
Chegada
2. Campo (de futebol) missionário
3. Olhares desconfiados
4. A palestra de domingo
5. Finalmente, janela aberta
6. Uma índia assassinada
7. Coragem
8. Uns semeiam, outros regam...
9. Velório, protesto e Eric Clapton
10. Gincana, oficina, esporte e muita história
11. Gratidão
12. Alegria e lágrimas
13. Brasil, emaña yvate

23 de janeiro de 2007

Missão Caiuá - coragem

DA SÉRIE CAIUÁS
Quarta

Tudo tranqüilo com as crianças do Cerro. Cada dia mais animadas, sorridentes e participantes. O lanche de hoje foi um enorme e delicioso pedaço de bolo de chocolate pra cada um. Fizemos um teatrinho muito legal sobre o “ladrão da alegria”. E as brincadeiras foram um sucesso. No final da manhã, distribuímos brinquedos pra todas as crianças. A alegria deles era contagiante. Os brinquedos transformaram o fim da manhã numa grande festa!



Passei a tarde com a Sandra, preparando a palestra da noite, sobre álcool. No final da tarde aconteceu, religiosamente, o futebolzinho. O pessoal continua alvorossado por causa do assassinato da índia. Uma boa parte deles quer mesmo organizar um protesto.

Nessa noite os índios compareceram em bom número. A igreja estava quase cheia. A Sandra falou sobre o álcool e seus efeitos, e usou uma série de exemplos e situações reais da aldeia, que investigamos durante a tarde numa conversa rápida com o Gervásio, missionário ali já há 4 anos. A contextualização foi muito bacana. Houve um teatrinho curto, mostrando os efeitos do álcool, e um testemunho da Astrid. Depois, falei novamente sobre “decisão”, como no domingo, e convidei o pessoal a assumir um compromisso ali, de dizer não ao cigarro, drogas e álcool.

***

Durante essa semana, ouvimos falar muito sobre álcool, cigarro e drogas, e o mal que eles nos fazem. Tenho certeza que todos aqui sabemos qual a escolha certa. Sabemos o que é certo e errado, bom e mau, porã e ivaí. O problema é que mesmo sabendo, muitas vezes fazemos a escolha errada. Somos influenciados por amigos, alegrias e tristesas. E tomamos a decisão errada.

Tomar decisões não é fácil. Por isso precisamos de Jesus. Ele nos ajuda e nos dá forças para tomar a decisão correta.

“De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor. Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” Fp 2.12, 13.

Deus é que opera em nós tanto o querer quanto o realizar! NEle podemos querer a coisa certa e ter força para fazer o que é certo.

Quando Deus decidiu abandonar sua glória, poder e grandeza, para habitar um corpo humano como o nosso, ele mostrou o tamanho do valor que ele dá pro nosso corpo! Ele não está interessado somente na nossa alma, mas também em nosso corpo, nossa saúde.

Se você hoje tomou uma decisão, lute para se manter fiel, como fez Daniel. Tenha coragem de dizer NÃO sempre que for preciso.

Nhandejara ta pe nderovassá.

***

Tinha gente ali de todas as idades. Enfatizei ainda o fato de que, na vida, pra tomarmos a decisão certa nos momentos sensíveis, precisamos de coragem. Lembrei da canção do Jorge Camargo.

Tempo de buscar a luz do novo
Tempo de fazer o diferente
Tempo de não ser a voz do povo
Ser ousado livre e coerente

Essa é a hora da mudança
Repensar as nossas atitudes
Refazer no amor a esperança
Reviver a velha juventude

Coragem, a vida não é um mar de rosas
Coragem, persistir é o que importa
Coragem, pra derrubar a própria porta
Coragem, coragem.
(Jorge Camargo)


Espero que a palavra fique no coração deles, crie raízes profundas e os livre dos sofrimentos e prisões desses vícios. Ao menos alguns.

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Veja também:

MISSÃO CAIUÁ

1.
Chegada
2. Campo (de futebol) missionário
3. Olhares desconfiados
4. A palestra de domingo
5. Finalmente, janela aberta
6. Uma índia assassinada
7. Coragem
8. Uns semeiam, outros regam...
9. Velório, protesto e Eric Clapton
10. Gincana, oficina, esporte e muita história
11. Gratidão
12. Alegria e lágrimas
13. Brasil, emaña yvate

22 de janeiro de 2007

Missão Caiuá - uma índia assassinada

DA SÉRIE CAIUÁS
Terça

A segunda manhã no Cerro foi mais tranqüila. O grupo estava um pouco menor e menos desconfiado; nós já não éramos completamente estranhos. Fizemos alguns jogos com balões de água e dava gosto de ver a alegria da criançada. Novamente a euforia maior ficou por conta do lanche. Na volta, 2 crianças na estrada tinham o rosto completamente pintado de vermelho.



Soubemos mais tarde que naquela noite uma índia havia sido morta por um fazendeiro, e alguns na aldeia estavam pensando em se preparar para uma guerra. Aquelas crianças estavam pintadas pra luta. Atualmente a principal forma de “guerra” deles é através de protestos, fechando a rodovia que corta a aldeia. Esperamos que fique tudo em paz.

Visitamos o Cerro novamente à tarde. Levamos bíblias e folhetos na língua Caiuá e conversamos com várias famílias. O comportamento deles é muito interessante. Devem nos ver como gente escandalosa e barulhenta. Eles conversam baixo, devagar, com longas pausas para olhar à volta e fazer algum comentário sobre o tempo, ou algum conhecido.

A palestra da noite foi sobre drogas. A chuva no fim da tarde (que nos deixou ensopados no Cerro), e os problemas com a índia assassinada, afugentaram o pessoal. Mas compareceu um bom grupo e tudo correu bem. O assassinato foi notícia na imprensa nacional, e a história que contam aqui não é a mesma que contam lá.

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MISSÃO CAIUÁ

1.
Chegada
2. Campo (de futebol) missionário
3. Olhares desconfiados
4. A palestra de domingo
5. Finalmente, janela aberta
6. Uma índia assassinada
7. Coragem
8. Uns semeiam, outros regam...
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10. Gincana, oficina, esporte e muita história
11. Gratidão
12. Alegria e lágrimas
13. Brasil, emaña yvate

21 de janeiro de 2007

Missão Caiuá - finalmente, janela aberta

DA SÉRIE CAIUÁS
Segunda

A programação na escola do Cerro começava às 8h. As crianças foram chegando aos poucos, meio desconfiadas. Sentavam nos cantos da sala, encostados na parede, mantendo uma distância segura dos caraís. Até às 9h, já tínhamos mais de 60 crianças. Creio que a hora mais esperada era o lanche. Algumas bolachas e água arrancaram sorrisos enormes dos rostos antes tão retraídos. No final, depois de histórias, músicas e brincadeiras, fizemos uma grande cruz no chão, de papel kraft, onde cada um pode deixar sua marca com tinta guache, usando os dedos. Eles começavam a se soltar um pouco.



Passei a tarde na missão, escrevendo, lendo e matutando um pouco, no conforto de minha velha rede, companheira de muitas aventuras.

No fim da tarde, caiu um toró de dar gosto. O futebol com os índios foi num banhado. Mais um exemplo de diversão para caraís aficcionados por placar, competição e vitória.

A primeira das 4 palestras da noite sob o tema “decisões”, foi sobre o fumo. As outras 3 seriam drogas, álcool e Jesus. O índice de viciados entre eles é assustador e atinge homens, mulheres e crianças. O alto índice de violência, brigas, assassinatos, suicídios e problemas familiares dentro da aldeia está, evidentemente, diretamente relacionado a esses vícios.

O mosquiteiro da janela do quarto só ficou pronto hoje, graças à engenhosidade do companheiro Toninho. A noite será bem mais agradável com a janela aberta.

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20 de janeiro de 2007

Missão Caiuá - a palestra de domingo

DA SÉRIE CAIUÁS
Daniel 1

Deus é um contador de histórias. Ele se interessa pela história de cada um de nós. Por isso a bíblia é um livro narrativo, que conta histórias de gentes que erram, acertam, vivem, se alegram, se entristecem, sofrem e morrem. A bíblia é um livro de histórias. E uma dessas histórias conta a vida de um jovem chamado Daniel.

Quem não conhece a história, tire aquele livro preto empoeirado da gaveta e leia o livro de Daniel, capítulos 1 até 6.

Esse homem (e seus amigos) tomou algumas decisões importantes na vida, e teve a coragem de assumir as conseqüências de cada uma delas (Dn 1.8 – 3.28 – 6.10). No final de sua vida, a consequência de suas decisões está no espantoso decreto do rei pagão Dario (6.25-28).

A primeira grande decisão de Daniel norteou toda sua vida (1.8). Toda sua história foi resultado daquela decisão. Mas não foi a única vez em que ele se encontrou diante de uma bifurcação na estrada. Isso acontece com frequência. Uma decisão só não basta pra garantir nossa chegada ao objetivo final. Estamos sempre diante de fatos que nos pedem uma decisão. E a escolha certa normalmente não é a da maioria. Amigos, alegrias, tristesas, nos influenciam nos momentos mais difíceis. Essa semana falamos a respeito de “decisões”. Para escolher o caminho certo, precisamos conhecer esse caminho. Jesus diz “eu sou o caminho a verdade e a vida”. Se queremos tomar decisões corretas, temos que seguir os passos de Jesus. Ele é nosso modelo.

Daniel tomou uma decisão no início de sua vida, mas permaneceu fiel a ela até o fim. Que cada um de nós consiga fazer o mesmo, pela graça de Deus.

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Missão Caiuá - olhares desconfiados

DA SÉRIE CAIUÁS
Domingo

O culto na Missão é 8h30. Perto das 8h começam a chegar os índios, caminhando, cada um por uma trilha e diferente. Eles chegam em grupos, famílias, calmamente, em silêncio, a maioria à pé, mas alguns aparecem de bicicleta. Bae-chapã é o cumprimento de todos, ao que se responde, porã. A pronúncia é bem nasal, e o “ã” parece um cruzamento de acento agudo com til.

O culto foi tocante. As músicas, o local, o comportamento dos membros, tudo repleto de uma simplicidade cativante. No final, o testemunho do nosso tradutor, o índio Jonas, me amoleceu o coração. Ele é vice-capitão (cacique) na aldeia, mas decidiu abandonar a capitania se preciso, para se dedicar ao serviço e pregação do Evangelho. A decisão foi impulsionada pela palavra que ele mesmo traduziu, sobre as decisões de Daniel.

À tarde saímos para a região do Cerro. Enquanto caminhávamos pela aldeia, parávamos em algumas casas aqui e ali, para convidar os moradores para as atividades da semana, que faríamos ali mesmo, na escola do Cerro, para crianças. Histórias, músicas, brincadeiras e o indispensável lanche.

- Mba’e chapã.
- Porã.

Era assim em cada casa. Um pouco de conversa, olhares desconfiados. Depois de um papo econômico, com pouquíssimas palavras, fazíamos o convite, explicando o que aconteceria na escola, durante toda semana. Nossos tradutores eram o Vicente e a Franciele. O ambiente é terrível. Não há nenhum tipo de conforto ou limpeza. Absolutamente diferente de tudo que estamos acostumados. A água disponível é racionada e o calor estafante. Senta-se no chão ou em bancos de madeira. O interios das casas é de chão batido e dorme-se por ali mesmo, em esteiras de bambu. Toda família num único cômodo. Convivem juntos gente, cachorros, gatos, galinhas. Bebês no chão, todos sujos de terra.

Uma das famílias estava completamente embriagada, com exceção de 2 crianças pequenas (cerca de 6 anos), que serviam a cachaça aos pais. A mãe amamentava enquanto bebia, completamente fora de si. Outra casa nos recebeu bem, convidou-nos a sentar e começamos a jogar conversa fora. Durante o papo, uma menininha com cerca de 6 anos servia tererê aos pais e irmão mais velho, carregando pra lá e pra cá uma garrafa térmica de 5 litros. O pai nos contou que a menina não era sua filha, mas ele a havia pego pra criar porque a mão morreu e o pai queria joga-la fora, deixa-la morrer sozinha no mato. Isso é comum entre eles. Enquanto ele falava, a menina me serviu uma cuia de tererê. Foi um momento emocionante, porque isso era um sinal de respeito e aceitação.


Das 11 casas que visitamos, fomos convidados para sentar em umas 4 ou 5. Todos ouviram o convite, mas é difícil dizer o que passou pela cabeça deles. Não esboçam nenhuma reação reconhecível para nós, caraís. Vejamos amanhã como estará a escolinha do Cerro.

Retornamos à tardinha e passamos o resto do dia preparando as coisas para a segunda feira.
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19 de janeiro de 2007

Missão Caiuá - campo (de futebol) missionário

DA SÉRIE CAIUÁS
Sábado

Acoramos às 7h30. Depois do café, nos separamos para trabalhar em algumas benfeitoria no local. Pintar, consertar, comprar mantimentos, ferramentas, acessórios para os quartos e banheiros. Vamos colocar mosquiteiros nas janelas. As noites ficarão mais agradáveis. Entre uma tarefa e outra, intervalos pra uma roda de tererê e bate-papo com o Zebedeu.

***

Fim de tarde sempre tem um futebol com os índios. Homem, mulher, criança, todos juntos num jogo pacífico e divertido. Perder um gol é motivo pra risada e não discussão. Antes de anoitecer eles vão pra casa, por causa dos perigos da região – animais selvagens? Não! O grande perigo aqui é a violência causada por álcool e drogas entre os índios.




À noite comemos uma deliciosa lingüiça sob o céu estrelado.

Na manhã seguinte eu seria o responsável pela palavra no culto. O assunto indicado pelo Evaldo era a história de Daniel. A Sandra me mostrou o texto de 1 Corintios 2. Interessante ler isso antes de preparar a palavra.

E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria. Porque nada me propus saber entre nós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor. A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder. Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. 1Co2

E o poder de Deus, sabemos bem, se aperfeiçoa na fraqueza, e se demonstra em atos de amor e misericórdia com o próximo. Miserável homem que sou, que não tenho nada em mim para oferecer. Creio que o fundamento da nossa salvação é o clamor do publicano – Senhor, tem misericórdia de mim, porque sou pecador. Enquanto preparava a palavra pro domingo, me senti assim. Chorei e orei como o publicano, porque não tinha mais nada a dizer. Graças a Deus pela graça de Deus.

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18 de janeiro de 2007

Missão Caiuá - chegada


Férias de verão, em 2007. Foram 10 dias na tribo indígena Caiuá de Taquaperi, Mato Grosso do Sul. Nas próximas postagens, um breve relato do nosso dia-a-dia lá.

DA SÉRIE CAIUÁS
De sexta pra sábado

A viajem foi tranquila. Em Cascavel encontramos outros de lá mesmo, Fraiburgo e Campo Mourão. Todos com o mesmo destino – Aldeia Caiuá Taquaperi, em Amambai, Mato Grosso do Sul. Passaríamos 10 dias juntos, repartindo nossas vidas com a dos índios.

Entre uma soneca e algumas páginas de um livro, despistei as tediosas 18 horas de viagem.

De Guaira em diante permaneci atento à paisagem. Aliás, uma bela cidade, com a cativante grandeza do rio Paraná. Na travessia de 4 km sobre o grandiosos rio, lembrei do Sandro Cescatto. Natural de Guairá, foi certamente figura muito mais marcante na minha vida do que eu na dele. Conheci-o em Curitiba, num “grupo de discipulado”. Conheci-o antes, mas foi nessa época que ele se tornou parte de minha história. Em parte, creio que ele o saiba. Não o vejo há anos, mas a vida é assim – encontros e desencontros.

“Saudade de rever amigos
Os gestos de sempre a risada em comum
Contando as histórias e o casos antigos
As músicas novas sem prosa nem verso nenhum...”
(Joyce)

Do outro lado da ponte, Mato Grosso do Sul. Interessante como sol e chuva se alternam no caminho. Nas margens das retas infinitas das estradas mato-grossences, observei vários assentamentos de sem-terra.

A planície joga o horizonte longe. Muita soja e gado, alguns funestamente mortos, com as pernas pra cima, como nos desenhos animados.

A Sandra tomou um dramin e hibernou. Israel e Sara acreditam que Amambaí fica nos EUA e não param de falar em inglês. Mais umas duas horas e chegamos lá.

***

A chegada à Aldeia foi empolgante. Local amplo, bem cuidado, aconchegante, sem luxo nenhum, mas com muito capricho. Tínhamos mais do que o esperado – água quente, luz, brisa e poucos mosquitos. Mais algumas pessoas já nos aguardavam lá. O grupo todo contava com 21 pessoas.

Na entrada da Missão, um campo de futebol à esquerda e as salas de uma escola indígena à direita. À frente o antigo salão da igreja, agora depósito, e a casa dos missionários, Gervásio e Eulália. Mais atrás, o novo salão da igreja, ainda em construção, que abriga junto os dormitórios onde ficamos. Do lado do salão, uma agradável choupana com cobertura de palha, onde tomaríamos muito tererê, e conversaríamos muito, e a casa do índio Zebedeu e sua família, que trabalha na Missão. Nos fundos do terreno, a cozinha e refeitório. Entre um lugar e outro, bosques e canteiros de flores.

Comecei a conhecer o pessoal, principalmente o Zebedeu e seu filhinho de 6 anos, Eliéser. Um figura.

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